segunda-feira, 11 de abril de 2016

Goécia: Evocação Mágica



Fernando Liguori


Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.


A Arte da Goécia tem se popularizado no Brasil principalmente através de vídeos de inúmeros magistas e ocultistas no You Tube. Infelizmente, as contribuições também têm disseminado informações imprecisas sobre essa arte. Por conta disso, decidi fazer esse vídeo sobre o tema, ressaltando três requisitos importantes e fundamentais para prática: iniciação, conhecimento e intrepidez.

A goécia ocupa um lugar de proeminência entre os ocultistas ritualisticamente inclinados e é conhecida genericamente como a arte negra. Suas convocações demoníacas acompanhadas de sigilos sugestivos e poderosos relatos de resultados devastadores têm seduzido magistas ao longo dos tempos. Allan Bennett (1872-1923), um dos primeiros professores de Crowley na Arte Régia disse-lhe certa vez: «irmãozinho, você tem se metido com a goécia». Negando a afirmação de seu professor, Crowley respondeu que não era digno de pronunciar os terríveis nomes bárbaros de evocação. Bennett retrucou: «nesse caso, a goécia tem se metido com você».

Tradicionalmente, a goécia é a primeira – e mais notória – parte de um grimório mágico conhecido como Lemegeton ou As Chaves Menores de Salomão. Contém uma descrição completa dos 72 agentes malignos ou demônios, com a descrição detalhada de cada um no momento de sua conjuração quando evocados, apresentando seu título, hierarquia e a legião de espíritos que eles controlam. O texto contém os sinistros e atraentes sigilos dos demônios, utilizados em operações mágicas para os mais diversos objetivos como: aquisição de conhecimento filosófico, percepção do futuro, atração de bens e riquezas, manipulação astral etc. Existem inúmeros manuscritos do Lemegeton com informações distintas acerca dos demônios e seus nomes. Alguns manuscritos apresentam o grimório em cinco partes, outros em quatro. Outros destacam, antes das chaves menores, o Theurgia-Goécia, que descreve 31 espíritos correspondentes às direções do espaço. Os espíritos são acompanhados por seus sigilos e são apresentados como malignos e benignos. A terceira parte do Lemegeton é conhecida como Ars Paulina, que descreve os anjos correspondentes às horas do dia e aos signos zodiacais. A quarta parte, bem pequena, é conhecida como Ars Almadel e a quinta parte, considerada a mais antiga, é conhecida como Ars Notoria. Infelizmente, a quinta parte é omitida na maioria das versões.

Mas quando eu utilizo o termo «goécia», não me refero apenas ao sistema de magia conectado ao Legemeton. Goécia é um termo que abrange todo sistema de conjuração demoníaca, incluindo a magia qliphótica. É a arte negra ou doutrina das sombras, uma tradição genuína do caminho da mão esquerda e sua doutrina é considerada avançada e perigosa, embora as pessoas não costumem dar a ela o mérito que lhe cabe. A goécia é uma magia ctoniana e telúrica. Ela convoca as forças do submundo e do abismo. Portanto, sua prática é sombria, conectada as experiências do lado noturno. Mais especificamente, a goécia é um sistema de magia que envolve a penetração nos estratos mais profundos do subconsciente, a morada dos «espíritos» e «demônios» que representam energias biológicas primordiais desassociadas da onda de vida humana.

Goécia significa «urro», «uivo», «bramido» ou «vociferante», o que descreve a maneira de como se evocar as bestas das profundezas através do processo denominado Contra a Luz. A palavra goécia é de origem grega e denota feitiçaria ou bruxaria. Um goético, do grego goetes, era um feiticeiro, um magista negro, diferente do mago, o magus grego que ocupava o ofício de sacerdote. Atualmente, um magus muitas vezes é visto como um magista negro ou alquimista. Mas a antiga designação para um conjurador de demônios ou magista negro era goético.

Iniciação

A goécia lida com a evocação mágica, uma arte que, segundo a tradição oculta, é uma técnica altamente avançada, requerendo iniciação real nos Mistérios.

Ao lidar com os gênios goéticos, duas são as atitudes que podem ser assumidas pelos magistas:

·         Conjurador: para conjurar e ordenar o demônio, impelindo-o a executar sua vontade, é necessário a iniciação de Tiphereth. Somente a admissão a Cripta dos Adeptos confere ao magista autoridade sobre o demônio.

No antigo sistema da Aurora Dourada, a evocação era praticada apenas por Adeptos da Segunda Ordem. Dessa forma, somente um Adepto é capaz de manipular a Verdadeira Vontade, fazendo com que os seres de seu universo ajam em concordância com ela. Um demônio é apenas um aspecto da consciência do Adepto, agindo sob sua vontade.

·         Negociante: o magista que ainda não alcançou a iniciação de Tiphereth não está apto a comandar o demônio. Dessa forma, ele tem de negociar com ele. Por um lado isso é muito mais fácil, por outro, mais perigoso.

O perigo na evocação mágica reside no fato de que toda vez que o magista externaliza um aspecto de si mesmo, neste caso na forma de um demônio, seu universo interior se desconstitui. Ele terá, portanto, de reabsorver a força externalizada na intenção de reestruturar sua psicoesfera.

Mas o demônio, a incorporação de um estado de vida caótico, confuso e desordenado, terá de ser reabsorvido na consciência do magista. Ele não irá retornar aos seus infra-mundos. Sua intenção é sair desse estado de vida e evoluir. O magista, portanto, sem a iniciação de Tiphereth e admissão a Cripta dos Adeptos terá condições de suportar tal força em sua consciência?

Disso notamos a necessidade da iniciação. Sem o Conhecimento & Conversação com o Sagrado Anjo Guardião, qualquer evocação torna-se deveras perigosa, pois o magista pode não ter estrutura para suportar a força demoníaca.

Dessa maneira, qualquer professor que ensine goécia sem levar a iniciação do aluno em consideração é digno de dúvida!

Conhecimento

O conhecimento esmaga a ignorância. Existem três pontos de vista acerca da evocação mágica.

A corrente representada por magistas acadêmicos como Stiphen Skynner sustenta que as criaturas espirituais de todos os tipos constituem um universo a parte ou além da estrutura nervosa humana e que a prática da tradição dos grimórios medievais deve ser entendida dessa forma. Essa corrente também sustenta que é ela a única responsável e repositória do conhecimento tradicional acerca dos grimórios medievais e que ordens modernas na verdade, transmitem um conhecimento corrupto sobre essa tradição.

De outro lado, magistas psico-terapeutas como Dion Fortune, Israel Regardie e na comunidade thelêmica moderna, IAO 131, sustentam que essas criaturas espirituais fazem parte de nosso universo e que demônios, nesse caso, habitam os inframundos ou mente inconsciente dos magistas.

Mas existe uma terceira opinião. A tradição da Aurora Dourada, fiel ao hermetismo, sustenta que tudo o que está abaixo é igual ao que está acima. Nessa direção, a Aurora Dourada ensina que essas criaturas espirituais residem em nosso interior, ocultas em nosso universo. Essas forças ocultas são colocadas em ação através do ritual ou das circunstâncias da vida. Quando colocadas em ação pelo estilo de vida do magista, elas invadem a consciência, levando-o a estados obsessivos. Quando acionadas pelo ritual, elas também podem invadir a consciência do magista de maneiras distintas, dependendo sempre do sacrifício utilizado para energizar a criatura. Através de sua ativação pelo ritual, ainda, estabelece-se uma relação ou conexão com a contraparte macrocósmica ou metafísica da criatura.

Qual dessas interpretações está correta? Todas elas!

Na Qabalah, dois são os trabalhos mágicos na realização da Grande Obra. Os trabalhos de Merkavah e os trabalhos de Bereshit. A teoria psicológica, de que as criaturas espirituais são parte de nossos muitos universos, está alinhada ao trabalho de Merkavah, onde o magista precisa construir e harmonizar sua Árvore da Vida interior. No âmbito desse trabalho espiritual, o magista lida com essas forças em seu universo pessoal. No caso da prática da goécia, ele projeta no triângulo da arte uma parte de si mesmo, que não precisa necessariamente ser constituída dos cinco elementos.

A teoria de que as criaturas espirituais constituem organismos, forças, inteligências ou entidades fora do magista, se alinha ao trabalho de Bereshit, onde o magista precisa, após ter harmonizado sua Árvore, criar conexões entre seu universo interior e o universo que o cerca. Nesse caminho, a terceira interpretação, a da Aurora Dourada, une os dois trabalhos espirituais.

Crowley falou sobre isso nos teoremas da magia: 9, 10, 19, 20, 21 e 22, para dar sentido ao teorema 14, que trata da evocação mágica:

9. Um homem que faz sua Verdadeira Vontade tem a inércia do Universo para ajudá-lo.
10. A Natureza é um fenômeno connuo, embora não saibamos, em todos os casos, como os fatos são conectados.
19. O senso que o homem tem de si mesmo como sendo um ser à parte e oposto a alguma coisa, o isola. O Universo é uma barra condutora de energia.
20. O homem pode somente atrair e empregar as forças para as quais ele é realmente apto.
21. Não há limite para a extensão das relações de cada homem com o Universo em essência; porque tão logo o homem se faça uno com qualquer pensamento, os meios de meditação param de existir. Mas seu poder em utilizar esta força é limitado por seu poder mental e capacidade e pelas circunstâncias de seu ambiente.
22. Cada indivíduo é essencialmente suficiente a si mesmo. Mas, ele é insatisfatório a si mesmo até que estabeleça uma correta relação com o Universo.

14. O Homem é capaz de ser e usar qualquer coisa que percebe, porque tudo que ele percebe é, de certo modo, uma parte de seu ser. Ele pode, desta forma, subjugar todo o Universo do qual ele é ciente a sua Vontade Individual.[1]

Intrepidez

É muito comum a prática da goécia inspirar certo pavor em alguns ocultistas. Mas esse medo tem apenas uma fonte: a ignorância. É a não compreensão dos reais processos da evocação mágica e os procedimentos envolvidos que coloca o magista em perigo. Mas como eu falei acima, o conhecimento esmaga a ignorância. Se o contato com demônios lhe causa certa animosidade ou pavor, goécia não é para você. A evocação mágica é para Adeptos intrépidos e corajosos.

Tradicionalmente, espera-se que o demônio apareça na forma visível. No entanto, a inaptidão de certos magistas em ver o demônio e tornarem-se um oráculo na prática da evocação mágica fez com que muitos se valessem de artifícios para energizar e dar substancialidade ao demônio. Este é o caso das oferendas ou sacrifícios depositados no triângulo da arte.

Quanto mais denso for o sacrifício, mais difícil será lidar com uma possível intrusão no círculo mágico.

·         Se a energia cedida à substancialização do demônio for mental, o magista terá uma experiência no reino da mente, na forma de pensamentos irados, conflitantes e desarmônicos. Uma intrusão demoníaca no reino da mente é facilmente banida pelo magista experiente.
·         Se a energia cedida for astral, o magista terá uma experiência no reino das emoções, sendo elas iradas, agressivas ou depressivas. Da mesma maneira, uma intrusão no reino das emoções é facilmente banida por um magista experiente.
·         Se a energia cedida for etérica, o magista terá uma experiência fisiológica como formigamento, palpitação, fecho repentino de calor etc. Uma possessão neste nível é mais difícil de ser banida e é preciso muita experiência para lidar com esse tipo de intrusão.
·         Se a energia cedida for na forma de sacrifício de matéria, quer dizer, sangue, copo com água, incenso, bola de cristal, espelho mágico etc., o magista deverá ver o demônio se manifestar no triângulo da arte. Uma intrusão neste nível terá de ser contida com ferro. Uma espada mágica, portanto, é requerida, na intenção de furar a psicoesfera do demônio, fazendo com que ele perca força e sustanciabilidade.

A quimiognose costuma suplantar a necessidade de qualquer tipo de sacrifício, uma ver que capacita o magista a ver e a ter um acesso mais fácil aos seus inframundos na intenção de evocar dali qualquer entidade.


Amor é a lei, amor sob vontade.




[1] Aleister Crowley, Magick.

2 comentários:

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