sexta-feira, 1 de abril de 2016

Boca da Yoginī

 


Fernando Liguori


Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.


Reverenciai-me com fogo & sangue. Reverenciai-me com espadas & com lanças. Deixai a mulher estar cingida com a espada adiante de mim: deixai sangue fluir em meu nome. Calcai abaixo o Gentio; esteja sobre eles, ó guerreiro, Eu vos darei a carne deles para comer.[1] Para perfume combine farinha & mel & resíduos espessos de vinho tinto: em seguida óleo de Abramelin e óleo de oliva, e depois amacie & modere com rico sangue fresco. O melhor sangue é da lua, mensalmente: em seguida o sangue fresco de uma criança, ou destilando da hoste do céu: em seguida de inimigos; em seguida do sacerdote ou dos adoradores: finalmente de alguma besta, não importa qual.[2]


Esse texto é uma reflexão enquanto na escrita de meu novo livro, A Tradição Tifoniana na Magia Moderna.[3] Nos últimos 15 anos, tenho tentado rastrear a Tradição Tifoniana no escopo geral do tantrismo hindu e essa busca me levou a uma pesquisa profunda nas escrituras «śāstras» da cultura tântrica e kaula-tantras.[4] A imersão no sânscrito em sua versão iniciática me possibilitou pesquisar direto na fonte, sem a intervenção da opinião ou erro de traduores. Kenneth Grant (1924-2011), um dos últimos discípulos de Aleister Crowley (1875-1947) foi à chispa que incendiou essa fogueira ao dizer que a tradição tântrica é a mais fiel repositária da Gnose Tifoniana nos tempos modernos.[5]

Essa imersão fez com que eu considerasse o AL vel Legis da maneira como Kenneth Grant o via, um grimório tântrico fiel a Tradição Tifoniana, cheio de cifras tântricas acessíveis apenas ao iniciado nos mistérios. E com o tempo isso se provou verdade para mim assim como era para ele. Através do estudo das Trilogias Tifonianas é possível receber lampejos de uma corrente mágica muito antiga, a mesma que alimenta as chaves iniciáticas contidas no AL.

A Tradição Tifoniana trata da adoração da Grande Mãe ou Deusa. Tecnicamente, o termo tifoniano se refere a essa tradição no Egito especificamente. Em um contexto global, o nome de referência a essa corrente mágica é Tradição Draconiana. Em meus textos, no entanto, utilizo as duas palavras livremente.

Segundo Kenneth Grant, o AL vel Legis contém fórmulas legítimas da Tradição Tifoniana em sua recessão tântrica. Esses versos acima transmitem uma gnose muito antiga. Antes de suas reformas no Sul e Norte da Índia e do renascimento medieval da Tradição Kaula, os primeiros clãs «kula» envolviam a adoração de terríveis yoginīs, lideradas pelo temeroso Śiva na forma de Bhairava e sua esposa, a Deusa sob inúmeros aspectos: Aghoreśvarī, Umā, Caṇdī, Śakti etc. Essas yoginīs eram herdeiras ou avatāres da Mãe «matṛkā» na forma de Yakṣiṇīs e Grahaṇīs, uma miríade de bruxas praeter-humanas na forma híbrida entre humanos e plantas, animais e minerais. Essas yoginīs viviam no limiar entre o divino e o demoníaco e possuíam sua contra parte feminina, a sacerdotisa engajada no rito, que orava sobre suas vítimas «paśu», consumindo seus fluídos vitais. Esse tipo de adoração foi pervertida e as yoginīs começaram a receber oferendas na forma de sangue sacrificado e alimentos. Mas na gnose primordial, o sacrifício no altar da Deusa eram as secreções depositadas em sua vulva, a boca da yoginī. Uma vez gratificadas pelo sacrifício do sêmen, as yoginīs se manifestavam na forma humana como uma jovem donzela, concedendo a seus devotos poderes psíquicos «siddhis», principalmente o poder de voar, quer dizer, projetar-se astralmente.

Através desse procedimento, a possessão ou incorporação das yognīs através da sacerdotisa, produzia-se o kulajñāna, a gnose kaula através do kulamṛta, o néctar ou sangue da Deusa. Este conferia a seus adeptos poderes psíquicos, liberação espiritual «jīvamukti» vivendo e gozando do mundo «bhoga». Os kaula-tantras trazem relatos dessas yoginīs sendo adoradas por seus devotos «paśu»,[6] que são devorados por elas, devido a fúria de sua manifestação e a ignorância de si mesmo. No entanto, o vīra,[7] por mérito próprio, o adestramento de sua Verdadeira Vontade, é capaz de travar contado sexual com estas terríveis e poderosas bruxas, doando-lhes energia vital «vīrya», carregada de ojas, dentro da yoni ou Boca da Deusa. Por intermédio delas ele se torna no siddha «perfeito», senhor de si mesmo. Ao invés de devorá-lo, como no caso do paśu, elas oferecem então sua essência, os kālas da Deusa.

Nesse papel, a sacerdotisa do rito se torna a kulagocāra, o canal de acesso ao clã e kulāgamā, àquela cujo sangue dá vida ao clã. Neste caso, o sangue é a menstruação. A Deusa atua no corpo da sacerdotisa e através de sua vulva e emissões vaginais, secreções e menstruação, transmite o poder de todo o cosmos, contido na própria sacerdotisa.

Somente através dessa abordagem o kulamārgi acessa a essência da Deusa. Ele é então inseminado pela Deusa ou, mais apropriadamente, ensanguentado pela Deusa, a descarga menstrual da sacerdotisa. A vulva da sacerdotisa, a boca da yoginī, portanto, é o portal de acesso ao clã «kula». Ao consumir o rajāpana, descarga menstrual carregada com ojas, o kulamārgi tem acesso à linhagem espiritual da Deusa, quando recebe seu sobrenome de iniciação. Ele se torna no Consorte da yoginī, voando com ela através dos aeons.
A Grã-Sacerdotisa, dessa forma, é a śukradevī, a deusa do sêmen ou a bindupuṣpā, àquela que mensura o sêmen de Śiva-bhairava na forma do kulamārgi.

O AL vel Legis, portanto, traz em suas cifras iniciáticas mistérios ocultos e filosofia tântrica prática que somente anos de imersão e tradição oral podem revelar. Os versos acima contêm fórmulas mágicas de profunda iniciação que este texto buscou elucidar e eu convoco todos a Ordo Tifoniana Oculta para aprenderem esses mistérios.


Amor é a lei, amor sob vontade.





[1] Liber AL, III:11.
[2] Liber AL, III: 23-4.
[3] Gnose Tifoniana (Vol. II).
[4] Os kaula-tantras, segundo eles mesmos, são distintos dos tāntrikas.
[5] Kenneth Grant, Beyond the Mauve Zone, Starfire, 1999.
[6] Paśu literalmente significa boi e denota um devoto medíocre, indolente, vítima de seus próprios desejos e apetites.
[7] Vīra literalmente significa viril e denota o devoto avançado, de vontade firme e senhor de si mesmo, de seus apetites e instintos, portanto, um herói.

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