quinta-feira, 21 de abril de 2016

A Magia Sexual de Kenneth Grant #4



P A R T E  . I V .


Fernando Liguori


Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.


Eu adentrei o pôr-do-sol com Seu sinal, e dentro da noite cruzei lugares amaldiçoados e desolados e ruínas ciclópicas, e então cheguei por fim à Cidade de Chorazin. E lá uma grande torre de Basalto Negro estava construída, que fazia parte de um castelo cujas mais distantes ameias viravam sobre o golfo das estrelas.[1]

Então da terra cega atrás da montanha vem um gemido pesado, o som de uma queda, feito pela risada vil de um tilintar maligno.
Seguem-se gemidos macabros.
O mistério, as trevas perversas daqueles berros incoerentes cerram meus dentes com pavor na boca. E ainda que eu não possa abrir mão da esperança, me emocionei ao ouvir àquela voz. Mas tão penetrante, tão desolante, tão mortal é a dor de meu espírito que a escuridão me domina por completo.[2]

Então significa que àqueles de Fora irão se manifestar aparentemente sobre a terra? Se assim for, os ritos secretos sugeridos em grimórios como o Necronomicon e os livros de Thoth, Dzyan e Enoch contêm as chaves para seu chamado e nós estamos por longos aeons cegos de sua utilidade.[3]

Nos últimos volumes das Trilogias Tifonianas Grant se preocupou em demonstrar como a magia sexual pode ser utilizada para penetrar nos véus profundos do e além do espaço-tempo. Para validar suas teorias, ele cita outros magistas que, segundo ele, conseguiram penetrar estes véus, abrindo fissuras no ambiente astral da terra que possibilitou a intrusão dos Old Ones. Em outras palavras, abriram portais que possibilitava o ingresso e egresso de inteligências praeter-humanas na consciência.

Essa abertura de portais se iniciou com Crowley e foi seguida por outros magistas como Jack Parsons (1914-1952). Grant afirma que as explosões atômicas durante a Segunda Guerra Mundial romperam uma membrana psíquica muito sutil que existe ao redor da terra, o que possibilitou desde então que massissas forças extraterrestres penetrassem na consciência humana. Foi o início da Era UFO que Grant conecta as operações de magia sexual iniciadas por Crowley e seguidas por seus alunos. E este nos parece um cenário adequado ao mundo de Lovecraft, principalmente O Chamado de Cthulhu.

De acordo com a tradição oculta, eventos que ocorrem no mundo real são espelhos de eventos que ocorrem nos mundos invisíveis e é verdade que ambos os mundos influenciam um ao outro de maneira que somente os Adeptos podem conceber. Grant chamou esses mundos invisíveis de Zona Malva. Na mitologia de Lovecraft, trata-se de R’lyeh, a cidade secreta abaixo das moradas oceânicas onde Cthulhu espera morto, mas sonhando.

O Śrī Cakra abrange mais em seu simbolismo do que a possibilidade de contato alienígena, ele provê as chaves para as portas de Fora.[4]

Ao longo das Trilogias Tifonianas, Grant dá muita ênfase a cultura tântrica conhecida como Śrī Vidyā e seu maior símbolo, o Śrī Yantra ou Śrī Cakra, como é mais conhecido. Ele afirma que existe um antigo e sobrevivente culto tântrico depositário da Gnose Tifoniana Primordial conhecido como Ānuttara Āmnāya que, por incrível que pareça, tem as mesmas iniciais de Astrum Argentum «AA» e ocasionalmente ele se refere a ambas como uma e a mesma tradição. Segundo Grant a Ānuttara Āmnāya é a mais fiel tradição que concervou os mistérios do Śrī Vidyā, contendo assim os segredos há muito esquecidos dos Old Ones.

Em um ensaio anterior, Gnose Tifoniana (Vol. I), eu falei que Kenneth Grant fez alguma confusão e as práticas que ele atribui a Ānuttara Āmnāya muito provavelmente referem-se a tradição Uttarāmnāya ou como é conhecida, Escola Krama do Śaivismo da Caxemira, no Norte e não no Sul da Índia, como ele faz referência. Novas informações me levam a acreditar que quando Grant cita o Círculo Kaula, está se referindo a um período anterior ao Séc. XI, quando Abhinavagupta fez uma reforma na tradição. Ele refrere-se ao Círculo Kaula em algumas trilogias, descrevendo suas práticas:

Cakra Mágico ou zona de poder formado pelos devotos de Kālī para produção de energia mágica com propósitos ocultos. O Círculo Kaula ou Kāla é, mais especificamente, a yoni de Kālī, morada das flores, perfumes ou essências vitais utilizadas nas cerimônias mágicas.[5]

Trata-se de uma típica descrição de procedimentos encontrados na Tradição Krama ou Uttarāmnāya. As práticas psico-sexuais e a manipilação das secreções como talismãs de poder extraordinariamente demonstradas nos kaula-tantras foram preservadas posteriormente por Abhinavagupta na Tradição Kālī-Krama. Por esse motivo associei os métodos de Grant a essa tradição anteriormente. Mas Ele descreve a Tradição Kaula em um período anterior, quando ela ainda mantinha conexão com o Śrī Vidyā, como na seguinte passagem:

O Śri Cakra é a Lua em sua completude, o lótus em pleno desenvolvimento, o fluir e a flor que, nas graduadas fases de seu ciclo, emana quatorze raios (um para cada dia da quinzena) que culminam no círculo completo dos quinze.
Um círculo possui 360 graus e o Śri Cakra é tal círculo. Ele tem sido equiparado por alguns comentadores como o círculo do ano de 365 dias, sendo os cinco dias restantes desconsiderados porque são inexplicáveis para o não-iniciado. Mas quando a fórmula fisiológica da Mulher Escarlate é compreendida, vê-se que estes cinco dias representam os cinco dias negativos de sua ocultação em cada «Lua» ou mês, que é o círculo periódico ou completo da fêmea humana.
Os quinze graus ou passos desta progressão do novo a completude, da virgindade a maternidade, estavam diretamente relacionados ao pulso mensal da mulher escolhida para os ritos secretos do Círculo Kaula (ou Kāla) que é o genuíno Vāma Mārga ou o Caminho da Suprema Deusa. Deidades particulares foram atribuídas aos dias e noites das quinzenas negras e brilhantes que constituem o mês ou Lua completa. A quinzena negra constitui o período da Lua Cheia a Lua Nova; a quinzena brilhante da Lua Nova a Lua Cheia. Estes quinze graus foram concebidos como raios ou dígitos da Lua: eles não somente se relacionavam a Lua celestial e sua influencia oculta mas também, mais significativamente, a Lua física das mulheres selecionadas para o trabalho mágico.
Do décimo sexto raio ou dígito da Lua flui o néctar da excelência suprema. De acordo com o Lalitasahasranama, a lua mostra quinze fases ao se tornar cheia e minguante. A décima sexta parte, quando o Tempo pára, é quando e onde a Divindade encarna. Tempo é Kālī, a Deusa Quinze, e o kāla que transcende o tempo é conhecido como o décimo sexto dígito ou raio.
Quatorze secreções genitais femininas são conhecidas pela ciência ocidental, o décimo quinto e décimo sexto ainda permanecem sem serem descobertos, embora eles sejam conhecidos e usados pelos Iniciados orientais de tempos imemoriais. Eles se manifestam somente nas emanações vaginais da suvasini completamente treinada.
Os escritos dos Siddhas (Adeptos) de Tâmil contêm vários avisos em relação aos perigos de se evocar estes kālas em um cakra que ainda não fora propriamente preparado para recebê-lo. No AL II:26-27 Hadit exclama: Eu sou a secreta Serpente enrolada pronta para saltar: em meu enrolar está o prazer. Se Eu ascendo completamente minha cabeça, Eu e minha Nuit somos um. Se Eu inclino para baixo minha cabeça, e verto veneno, em seguida é arrebatado da terra, e Eu e a terra somos um. Existe grande perigo em mim.
As forças dirigidas para baixo são carregadas com vibrações venenosas. Elas podem ser utilizadas para trabalhos de materialização e dissolução, e – com efeito mortal – em trabalhos de magia negra.
A absorção dos kālas carregados com a corrente dirigida para cima transforma a consciência humana e torna possível o contato e comunicação com entidades transcendentais. Inversamente, a absorção do veneno coloca o homem em contato com os mundos demoníacos e com os elementais mais inferiores. Somente um Adepto treinado pode usar esta corrente com impunidade.[6]

A palavra vidyā vem da mesma raiz que veda e significa conhecimento. A palavra śrī significa sagrado ou santo. Assim, Śrī Vidyā significa conhecimento sagrado. Para alguns estudiosos, trata-se da forma mais antiga do culto tântrico e Grant sustenta ser uma repositória fiel da Gnose Tifoniana Primordial.

O Śrī Vidyā trata da adoração de Śrī Devī, a Deusa Suprema que se manifesta como Lalita Tripurāsundarī, a Bela das Três Cidades. Embora os śāstras ou escrituras dizerem que estas três cidades sejam referência a sat-cit-ānanda «existência-consciência-bem-aventurança», Grant atribui o simbolismo aos três estados de consciência: vigília, sonho e sono sem sonhos. Lalita Tripurāsundarī é descrita como uma Deusa Vermelha e jovem de dezesseis anos, sentada sobre um lótus vermelho e circundada por um kāla ou dígito lunar. Os dezesseis anos são uma clara referência relevante pois representam os dezesseis kālas da Deusa Suprema. O seu poder é o próprio poder da consciência «cit-śakti» e seu emblema é o Śrī Cakra.

A Ānuttara Āmnāya é uma das seis vidyās ou escolas do Śrī Vidyā. Āmnāya são um grupo de śāstras ou escrituras de uma mesma tradição.[7] Mas a palavra também é utilizada para diferenciar tradições espirituais. Ānuttara é um termo que significa mais elevado, superior ou absoluto. Portanto, Ānuttara Āmnāya se trata da Suprema Tradição tântrica. Não é uma referência a um grupo de devotos ou seita, mas um nome utilizado para especificar os vidyās do Śrī Vidyā, cada um com seu próprio yantra e conjunto de técnicas. Os devotos e adoradores da Deusa no Śrī Vidyā podem se afiliar a qualquer uma das seis escolas ou āmnāyas. A Ānuttara Āmnāya é um vidyā descrito como o Assento da Deusa e portanto, um caminho mais sutil e superior a todos os outros vidyās e demais tradições da Índia.

Como não pode ser diferente na Gnose Tifoniana, todo esse simbolismo superior do Śrī Vidyā tem uma contraparte obscura e sombria; ela envolve o aspecto sinistro de Śiva, Hatakeśvāra, como regente de um dos sete infernos «pātāla» da tradição hindu, o vitāla. Estes reinos infernais são habitados pelos nagas «deuses serpente» e toda sorte de demônios. Estranho como possa parecer, é este aspecto sinistro e sombrio de Śiva, Hatakeśvāra, o patrono da Ānuttara Āmnāya. A Hatakeśvāra-stotra diz que os Senhores do Inferno derramaram-se da boca de Hatakeśvāra. Trata-se da face sombria de Śiva como Senhor das Trevas, Seth ou Shaitan. Este era o patrono da Ānuttara Āmnāya no sistema de magia sexual de Grant e a Deusa Suprema do Śrī Vidyā a Mulher Escarlate.

Grant comparou o Śrī Cakra a Árvore da Vida, um mapa não apenas macrocósmico, mas microcósmico, mais precisamente, psico-fisiológico. O yantra consiste de nove triângulos grandes apontados para baixo e cinco apontados para cima. Sua intersessão forma quarenta e três triângulos menores. Cada junção das linhas do yantra é considerada um marma ou um sandhi. Um marma é um ponto onde três linhas se cruzam no Śrī Cakra, somando vinte e oito marmas, mas alguns estudiosos da Āyurveda chegam a mapear de trinta e oito a quarenta e três marmas. Os sandhis são os pontos onde duas linhas se juntam, formando vinte e quatro sandhis no Śrī Cakra. A soma de todos os marmas e sandhis (28+24) resulta ou forma a cinquenta e duas letras do alfabeto sânscrito. O Śrī Cakra representa todo o cosmos e o corpo da Deusa.

Cada um dos marmas no Śrī Cakra são mapeados no corpo da sacerdotisa. Através de passes ou mudrās aplicados sobre os marmas da sacerdotisa, como demonstrado anteriormente, os cakras são estimulados e Grant sustenta que através dessa técnica os kālas secretados da vagina da sacerdotisa são canalizados diretamente da Zona Malva. Dessa maneira a kuṇḍalinī é encorajada a subir através dos cakras.

Grant fala ainda de um tantra místico. Era a sua intenção estabelecer uma conexão entre o monismo do advaita-vedānta e o tantra, uma reinvenção da roda para os ocidentais. Neste tantra místico a kuṇḍalinī sobe do mūlādhāra ao sahasrāra-cakra quando Śiva e Śakti se unem, produzindo um nível de consciência não-dualista «advaita». No entanto, o tantrismo tem uma visão mais refinada e um pouco distinta do monismo do advaita-vedānta. Os vedantins afirmam que há um Poder Absoluto que cria e rege todas essas multiplicidades de nomes e formas. Esse Espírito Supremo é conhecido como Brahman, que é sem-atributos «nirguṇa», sem-forma «nirākāra», sem-características «nirviśea» e não-agente «akarta». Para os vedantins somente Brahman é real, e todas as diferenças e pluralidades são ilusórias: brahma satya jagan mithyā jīvo brahmaiva nāparaḥ, quer dizer, Brahman é real, o universo é irreal, a alma individual é idêntica a Brahman. Os vedantins também ensinam que a Criação é apenas relativamente real «vyāvahārika-sattā», sendo uma superimposição sobre Brahman tal qual uma miragem de água é vista sobre um monte de areia no deserto: a água não existe realmente, mas apenas na mente de quem a vê. Brahman é eterno e imóvel e é impossível que possa se transformar em alguma outra coisa. Eles explicam que a origem de tudo o que existe é māyā, a ilusão, o seu Poder Lúdico, que é tanto real quanto irreal, e é este Poder que faz com que uma Criação passe a existir. Contudo, ainda assim, māyā é diferente do Brahman. Portanto, baseando-se nesses argumentos, os mestres da cultura tântrica no Norte da Índia afirmam que há ainda uma leve dualidade no advaita-vedānta.

A tradição tântrica da Caxemira constrói, por outro lado, um não-dualismo puro que assume uma singular Realidade chamada de Paramaśiva «Śiva Transcendental» que apresenta-se com dois aspectos, que são prakāśa «luz, o princípio de auto-iluminação, também chamado de Śiva» e vimārśa «experiência, o princípio de auto-percepção, também chamado de Śakti». Ambos são reais porque não pode haver algo separado e diferente uma vez que Deus é o Todo Absoluto. O Efeito não pode ser diferente da Causa. Desta maneira, o tantrismo śaiva da Caxemira, do qual derivam a Escola Kaula e Krama, reconcilia o dualismo do Sāṃkhya de Kapila com o não-dualismo do advaita-vedānta de Śaṅkarācārya.

Como eu disse no ensaio anterior, A Conexão Curwen, por volta de 1950 Grant era muito influenciado pelo mestre vedantin Śrī Rāmāna Mahāṛṣ, que ensinava um não-dualismo muito próximo do Śrī Vidyā. Isso explica sua expressão tanta místico.

No entanto, no Círculo Kaula – que podemos entender que inclui as tradições Kaula e Krama – o sādhanā principal constitui em retornar – ou voltar atrás – a kuṇḍalinī ao mūlādhāra-cakra. Trata-se de uma abordagem mágica ao invés de mística. O objetivo deste sādhanā é o desenvolvimento de capacidades psíquicas «siddhis».

Grant trata essas duas abordagens – o tantra místico e o sādhanā kaula como descrito acima – como o elixir vitae dos alquimistas «amṛta» e a Pedra Filosofal. Mas a abordagem de Grant é distinta da abordagem tradicional encontrada nos śāstras do tantrismo. Por exemplo, os tantras não ensinam a coleta oral dos kālas diretamente na yoni «vagina» e muito raramente, salvo nos kaula-tantras, é indicado a mistura das secreções masculinas e femininas para se produzir o sacramento – ou até os bolos de luz na Missa Gnóstica. Mas da maneira como sustenta o tema, Grant está em perfeito acordo com a Tradição Ocidental de Mistérios e mais especificamente com um grupo de alquimistas conhecidos por sopradores, que exploravam os mistériuos do corpo e mente na intenção de materializar através das secreções do corpo correntes-pensamento ou, mais precisamente, correntes-vontade.

Ainda, de acordo com Tradição Mágica do Ocidente, é perfeitamente possível utilizar a sexualidade do tantra como técnica de magia apenas, o que causa susto e pânico entre os acadêmicos e gurus da Índia. Quando o ocultista ocidental vê o tantra, não lhe interessa os aspectos filosóficos ou o estilo de vida da cultura tântrica. O que ele quer é fazer uso da tecnologia psico-sexual contida nas escolas tântricas vāmācāra em seus experimentos mágicos. Do ponto de vista do Magi, um mestre na magia, não há nada de errado nisso.
Kenneth Grant ainda sustena que se os kālas são canalizados ou aterrados no corpo provindos da Zona Malva e além, significa que o processo bioquímico que ocorre através dessa tecnologia psico-sexual é saturado de energia estelar. Quando todos os detalhes do ritual são considerados, o que inclui a observação das fases lunares e influências astrológicas, os kālas saturados com energia estelar e carregados com ojas tornam-se talismãs que podem ser utilizados em qualquer circunstância, capazes de criar a vida ou iluminar a consciência.

Mas essa é uma regra na magia cerimonial e pode ser rastreada aos gimórios mais antigos. A eficiência dos rituais mágicos depende de fatores astrológicos, preparação dos implementos a serem utilizados etc. Isso reflete a ideia presente em inúmeras tradições de que o macrocosmo possui relação direta com o microcosmo, uma lei universal sustentada não só pela tradição hermética.

Nesse caminho chegamos num outro ponto no sistema de Grant. Ele sustenta que os marmas são pontos de entrada para Zona Malva e da mesma maneira que existem no corpo humano, também existem no espaço e, portanto, na Terra. Zonas de poder no corpo do planeta exploradas por cultos sombrios e adeptos, iniciados nos mistérios sensíveis a estas zonas de poder. Estes marmas representam:

Uma rede mais complexa do que se pode imaginar: uma rede nada distinta da visão sombria de H.P. Lovecraft sobre forças sinistras a espreita nas fronteiras do universo.[8]

O Śrī Cakra, como qualquer sistema cosmológico, tem um lado oculto e desconhecido que o não-iniciado chama de mal. Alguns dos marmas e sandhis da constituição humana dão acesso a regiões sombrias, inimigas e hostis a consciência humana ordinária: o reino dos demônios e dos nagas. Essa é a região que mais chamou atenção de Kenneth Grant. Ao ocultista ocidental, Aleister Crowley apresentou um sistema de entrada nessas regiões sinistras contido na instrução conhecida como Liber 231, que trata das Qliphoth, a qual Kenneth Grant explorou nas operações mágicas da Loja Nova Ísis.

De acordo com o sistema de Qabalah da Ordem Hermética da Aurora Dourada, existe um espaço entre as sete Sephiroth inferiores e as três superiores. Esse espaço é conhecido como o Abismo. A este Abismo atribui-se uma falsa sephirah, chamada Daath. Nos diagramas da Árvore da Vida ela aparece – e às vezes nem está presente – pontilhada ao invés de uma linha consistente como as outras Sephiroth, portanto, ema esfera sombria.

Nos Sécs. XVIII e XIX, Daath foi assunto de muita especulação e Jacob Frank (1726-1791), uma figura messiânica que combinava conceitos cristãos, judaicos e islâmicos no seu sistema, enfatizou a ideia de Daath como um portal. No sistema de Gant, Daath tornou-se o Portal Exterior, uma anti-esfera que possibilita acesso a Zona Malva.

Ele ainda uniu em seu sistema o conceito de Zona Malva com as Qliphot, destroços de uma esfera despedaçada ou detritos da primeira Criação – de acordo com uma tradição apenas – que contem vinte e dois anti-caminhos. Os marmas e sandhis do corpo humano representam pontos de acesso no Śrī Cakra para essas regiões sombrias, da mesma maneira que dão acesso os Túneis de Seth no reino das Qliphoth.

Como será demonstrado no ensaio A Besta na Cavena, mais adiante nessa obra, Liber 231 é uma instrução contida nos Livros Sagrados de Thelema, escritos inspirados de Crowley da mesma maneira que H.P. Lovecraft concebeu seus Ritos de Cthulhu. Mas Crowley não deixou nenhuma instrução em como utilizar a escala dos vinte e dois gênios qliphóticos. Somente nas operações mágicas da Loja Nova Ísis, através do ocultismo experimental de Kenneth Grant, que os gênios qliphóticos tabulados por Crowley em Liber 231 foram utilizados como agentes de entrada na Zona Malva. No sistema de Grant, esses vinte dois gênios ou Túneis de Seth se encontram na região entre o estado de sonho e sono sem sonhos, análogo ao estado de não-dualidade dos vedantins. Estes túneis são sombras dos Caminhos na Árvore da Vida, cujo portal de acesso é Daath.

Além de comparar a Árvore da Vida e o Śrī Cakra como símbolos cognatos, Grant também compara os vinte e dois gênios qliphóticos ou túneis com um número de vinte e dois kālas, no entanto, suas atribuições são dúbias, o que torna esse tipo de arranjo inconsistente, da mesma maneira que Crowley fez ao tentar inserir os trigramas do I Ching na Árvore da Vida. De todo modo, em seu sistema considera-se que os kālas são o combustível que possibilita o magista jornar através dos Túneis de Seth ou a chave que dá acesso a eles.

Grant emprega os sistemas da Qabalah e do Tantra para acesso a Zona Malva, o reino das sombras ou morada dos Old Ones e é através de rituais onde a kuṇḍalinī sobe e é aterrada que estes portais são abertos. Utilizando o sistema da Qabalah, o magista projeta-se por Daath para iniciar suas incursões astrais no lado notrno, como será muito bem explicado na segunda parte deste livro. Utilizando técnicas tântricas de magia ofidiana, o magista irá operar sobre os marmas e sandhis do Śrī Cakra – ou o corpo da sacerdotisa – em combinação com as secreções vaginais carregadas com ojas. Em ambos os casos, técnicas psico-sexuais são empregadas. Dessa forma, Kenneth Grant foi capaz de unir o sistema de magia sexual da O.T.O., uma clara herança da Fraternidade Hermética da Luz com os rituais tântricos do Círculo Kaula ou Ānuttara Āmnāya em seu próprio sistema de magia, inaugurando técnicas de Teurgia Ofidiana completamente novas dentro de sua O.T.O. Tifoniana.

A sexualidade, portanto, é o Portal que dá acesso a Zona Malva. Mas isso não significa que o sexo, dentro que qualquer contexto ritualístico, seja a única maneira que cruzar este portal. Outros métodos que despertam a Serpente de Fogo são empregados, como meditações, purificações, respirações e visualizações, bem como a utilização de plantas de poder, música e dança. Nas Trilogias Tifonianas o foco é a magia sexual, pelo qual o magista terá acesso aos reinos sombrios do lado noturno e além.

A Boca da Yoginī

Reverenciai-me com fogo & sangue. Reverenciai-me com espadas & com lanças. Deixai a mulher estar cingida com a espada adiante de mim: deixai sangue fluir em meu nome. Calcai abaixo o Gentio; esteja sobre eles, ó guerreiro, Eu vos darei a carne deles para comer.[9] O melhor sangue é da lua, mensalmente: em seguida o sangue fresco de uma criança, ou destilando da hoste do céu.[10]

Antes de suas reformas no Sul e Norte da Índia e do renascimento medieval da Tradição Kaula, os primeiros clãs «kula» envolviam a adoração de terríveis yoginīs, lideradas pelo temeroso Śiva na forma de Bhairava e sua esposa, a Deusa sob inúmeros aspectos: Aghoreśvarī, Umā, Caṇdī, Śakti etc. Essas yoginīs eram herdeiras ou avatāres da Mãe «matṛkā» na forma de Yakṣiṇīs e Grahaṇīs, uma miríade de bruxas praeter-humanas na forma híbrida entre humanos e plantas, animais e minerais. Essas yoginīs viviam no limiar entre o divino e o demoníaco e possuíam sua contra parte feminina, a sacerdotisa engajada no rito, que orava sobre suas vítimas «paśu», consumindo seus fluídos vitais. Esse tipo de adoração foi pervertida e as yoginīs começaram a receber oferendas na forma de sangue sacrificado e alimentos. Mas na gnose primordial, o sacrifício no altar da Deusa eram as secreções depositadas em sua vulva, a boca da yoginī. Uma vez gratificadas pelo sacrifício do sêmen, as yoginīs se manifestavam na forma humana como uma jovem donzela, concedendo a seus devotos poderes psíquicos «siddhis», principalmente o poder de voar, quer dizer, projetar-se astralmente.

Através desse procedimento, a possessão ou incorporação das yognīs através da sacerdotisa, produzia-se o kulajñāna, a gnose kaula através do kulamṛta, o néctar ou sangue da Deusa. Este conferia a seus adeptos poderes psíquicos, liberação espiritual «jīvamukti» vivendo e gozando do mundo «bhoga». Os kaula-tantras trazem relatos dessas yoginīs sendo adoradas por seus devotos «paśu»,[11] que são devorados por elas, devido a fúria de sua manifestação e a ignorância de si mesmo. No entanto, o vīra,[12] por mérito próprio, o adestramento de sua Verdadeira Vontade, é capaz de travar contado sexual com estas terríveis e poderosas bruxas, doando-lhes energia vital «vīrya», carregada de ojas, dentro da yoni ou Boca da Deusa. Por intermédio delas ele se torna no siddha «perfeito», senhor de si mesmo. Ao invés de devorá-lo, como no caso do paśu, elas oferecem então sua essência, os kālas da Deusa.
Nesse papel, a sacerdotisa do rito se torna a kulagocāra, o canal de acesso ao clã e kulāgamā, àquela cujo sangue dá vida ao clã. Neste caso, o sangue é a menstruação. A Deusa atua no corpo da sacerdotisa e através de sua vulva e emissões vaginais, secreções e menstruação, transmite o poder de todo o cosmos, contido na própria sacerdotisa.

Somente através dessa abordagem o kulamārgi acessa a essência da Deusa. Ele é então inseminado pela Deusa ou, mais apropriadamente, ensanguentado pela Deusa, a descarga menstrual da sacerdotisa. A vulva da sacerdotisa, a boca da yoginī, portanto, é o portal de acesso ao clã «kula». Ao consumir o rajāpana, descarga menstrual carregada com ojas, o kulamārgi tem acesso à linhagem espiritual da Deusa, quando recebe seu sobrenome de iniciação. Ele se torna no Consorte da yoginī, voando com ela através dos aeons. A Grã-Sacerdotisa, dessa forma, é a śukradevī, a deusa do sêmen ou a bindupuṣpā, àquela que mensura o sêmen de Śiva-bhairava na forma do kulamārgi.



[1] Jack Parsons, The Book of Antichrist.
[2] Aleister Crowley, The Heart of the Master.
[3] Kenneth Grant, Outside the Circles of Time.
[4] Kenneth Grant, Beyond the Mauve Zone.
[5] Kenneth Grant, Aleister Crowley and the Hidden God.
[6] Idem.
[7] Veja o ensaio A Tradição Krama.
[8] Kenneth Grant, Outside the Circles of Time.
[9] Liber AL, III:11.
[10] Liber AL, III: 23-4.
[11] Paśu literalmente significa boi e denota um devoto medíocre, indolente, vítima de seus próprios desejos e apetites.
[12] Vīra literalmente significa viril e denota o devoto avançado, de vontade firme e senhor de si mesmo, de seus apetites e instintos, portanto, um herói.

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