quinta-feira, 10 de março de 2016

ChAYOGA: O Yoga Das Sombras




Fernando Liguori
Imagem de Jean Fries, Visões do Irracional Criativo.


Faz o que tu queres há de ser tudo da lei.


Há uma porta na alma que se abre para Deus e outra que se abra para as Profundezas. Não tenham dúvida: as Profundezas emergem assim que a porta é efetivamente aberta.
Tifon, Juggernaut e Hécate não eram menos divinos dos que os deuses do mundo superior, e os ofícios de Canídea eram provavelmente, a sua maneira, tão sagrados quanto os mistérios pacíficos de Ceres.

A.E. Waite


Aideia de que o universo é constituído por forças desequilibradas buscando completude na união com outras forças desequilibradas reside no cerne da doutrina qabalística das Qliphoth, as forças desajustadas da criação. No Gênesis, I: 27 encontramos: Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Se nos colocarmos no lugar dos antigos hebreus e olharmos para este versículo do Livro de Moisés com a mesma sacralidade deles, torna-se impossível o início de uma investigação profunda.

Mesmo antes do nascimento, o bebê no útero encontra no seu pequenino polegar da mão ainda em formação uma fonte de conforto e autocarinho. É o polegar em oposição aos outros quatro dedos que nos torna capazes de construir ferramentas, armas e produzir o fogo desde o inicio dos tempos. A mão distingue primatas de seres humanos no reino animal e é um símbolo perfeito da supremacia da raça humana. Por essa razão, a mão sempre foi objeto de especulação e meditação entre os qabalistas mais antigos.

Os qabalistas do passado nos ensinaram que o alfabeto hebraico é uma ferramenta de criação revelada por Deus aos anjos que instruíram Adão. A letra hebraica para mão é Yod «y», a décima letra do alfabeto e cujo valor gemátrico também é dez. Yod pode ser considerada a letra-mãe ou a letra-fonte de todo alfabeto hebraico, uma vez que todas as outras letras são variações de Yod.

A mão possui quatro dedos e um dedão que os dá suporte, quer dizer, quatro regidos por um. Os qabalistas do passado, portanto, propuseram que a «mão» do Criador – a mecânica do desenvolvimento em evolução – trata-se de uma unidade absoluta manifesta através de um processo quádruplo. Essa fórmula é universal e permeia todos os níveis de existência e consciência. Expressando a mecânica dessa observação fundamental, os místicos qabalistas incorporaram a fórmula em um conceito único de Deus, expresso em um nome de quatro letras: hvhy «IHVH».

Essas quatro letras, hvhy, representam quatro mundos descendentes através do qual o processo de criação se realiza:

y Atziluth, o Mundo Arquetípico, é o mais sublime, sutil e perfeito de todos os mundos (ou planos de existência). Em Atziluth, os aspectos feminino e masculino do Absoluto se encontram em perfeita unidade e bem-aventurança. Os outros três mundos abaixo deste são o produto desta união, que fica mais densa na medida em que se manifesta. Atziluth pode ser considerado a vontade do Absoluto em sua forma mais pura.

h Briah, o Mundo da Criação, é onde a Luz Prístina de Atziluth começa a se organizar. Essa é a morada dos anjos mais sublimes e elevados e pode ser considerado o coração do Absoluto.

v Yetzirah, o Mundo da Formação, é onde a organização fundamental de Briah torna-se específica. Aqui ocorre a formação hierárquica dos anjos, com seus deveres estabelecidos. Yetzirah é a mente do Absoluto.

h Assiah, o Mundo Material, é onde se manifesta a impureza produzida pela degeneração da luz primordial na medida em que ela atravessa (ou passa) através dos três mundos acima, se cristalizando na forma do mundo material como o conhecemos, a natureza e a existência humana.

Tradicionalmente, o Reino dos Qliphoth está associado a Assiah. As Qliphoth são as cascas ou receptáculos que nos três mundos superiores atuam suportando e mantendo a luz primordial na medida em que ela desce, mas após servir ao propósito da criação/manifestação, eles são descartados como lâmpadas queimadas em Assiah. Estas cascas são constituídas dos elementos mais grosseiros dos outros três mundos e comportam forças extraordinariamente perturbadoras. Não são espíritos no verdadeiro sentido da palavra, mas receptáculos sem rumo que procuram em vão se preencher com a luz primordial. No entanto, a luz primordial não se manifesta em Assiah da forma sutil que se manifesta nos outros três mundos. Por conta disso, as Qliphoth são desprovidas de energia pura, tornando-se, por assim dizer, vácuos desestruturados que buscam sugar o máximo de luz possível dos habitantes de Assiah, o que inclui a todos nós.

Portanto, as Qliphoth manifestam as qualidades avessas/contrárias dos outros três mundos acima. Assim, o que uma vez foi Kether, a pura essência da unidade, agora se manifesta como Thaumiel, Gêmeos de Deus. O nome significa «gêmeo» ou «deus gêmeo». Representado por dois príncipes malignos, Thaumiel apresenta a polaridade máxima da dualidade. Como as duas faces de Jano, os dois príncipes malignos olham e direções contrárias. Thaumiel é a inversão total dos princípios de Kether. Da mesma maneira, a harmonia representada por Tiphereth encontra sua total oposição em Thagirion, Litígio. O nome significa «disputa» ou «discórdia». A parte de todas as associações mitológicas, Thagirion representa a natureza antinomiana que opera contra as leis que regem o universo e a criação. Cada Qlipha recebe um nome pejorativo devido sua ação, uma antítese da ordem estabelecida pelas Sephiroth no momento da criação.

As Qliphoth são, portanto, o dejeto da criação. Uma anti-estrutura demoníaca na Árvore da Vida, no entanto, essencial ao processo de criação. Seus habitantes são criaturas titânicas, gigantescas que executam o trabalho sujo de construir e sustentar o mundo material como o percebemos. A Tradição Oculta diz que eles são perigosos quando estão desordenados, descontrolados, ignorados ou não são conhecidos. De fato, muito daquilo que acreditamos ser nós mesmos, quer dizer, o corpo, a mente e a personalidade, pode ser considerado receptáculos qliphóticos da essência sutil e incompreendida que representa nossa verdadeira identidade.

O reino dos Qliphoth é uma sombra que está sempre conosco e quando nos esquecemos dela, podemos nos ver engolidos por seu tamanho. A Magia Tifoniana trata enfaticamente da exploração deste universo. Os métodos para isso são inúmeros, mas o mais efetivo é a sábia utilização da Corrente Ofidiana ou magia sexual.

No velho Testamento, as Qliphoth constituem o corpo do Grande Dragão das Profundezas, Leviathan. Seu corpo é mutável e polimórfico, suas partes constituintes constantemente apodrecem e caem, elementos dispersos que se unem para criar novas formas. O corpo de Leviathan não é apenas uma imagem de mutabilidade do universo físico, mas também da alma humana que, incompleta por natureza, busca estabilidade através da união com suas forças desequilibradas. O primeiro passo na realização da Grande Obra é transmutar, através do poder da magia, as Qliphoth ou as forças desequilibradas do universo que se encontram no processo de imcompletude da materia transiente e peresível, unindo-as com suas contrapartes opostas, as forças equilibradas do universo, predominantemente constantes. A injunção amor sob vontade é uma fórmula mágica de aplicação universal. Somente o amor pode unir o dividido. Através da Corrente 93 ou Verdadeira Vontade o amor pode ser direcionado adequadamente para a consciência total-abrangente de Nuit.

As Qliphoth podem ser consideradas conchas ocas, prontas a receber o influxo da Verdadeira Vontade (Corrente 93), tomando direção a partir desse processo. Trata-se de um ajustamento, a aplicação das Leis de Maat.[1] Ra-Hoor-Khuit, o deus de guerra e vingança, é o responsável pela aplicação deste ajustamento, causando mudança e movimento para que o equilíbrio possa ser estabelecido através da união das forças opostas. Nesse processo a instabilidade cessa e os componentes dispersos são arranjados em uma estrutura coesa, equilibrada. Na doutrina qabalística das Qliphoth, Leviathan trata-se, portanto, de uma força interna ou ímpeto em direção ao equilíbrio ou cura de forças antagônicas e dispersas em nós mesmo. Os qabalistas do passado afirmam que não se trata de uma força nociva, mas ao contrário, uma força oculta positiva, exposta com muita clareza na cultura tântrica através da doutrina da kuṇḍalinī.

Eu sou a secreta Serpente enrolada pronta para saltar: em meu enrolar está o prazer. Se Eu ascendo completamente minha cabeça, Eu e minha Nuit somos um. Se Eu inclino para baixo minha cabeça, e verto veneno, em seguida é arrebatado da terra, e Eu e a terra somos um.
Existe grande perigo em mim; pois quem não entender estas runas deverá efetuar uma grande falha. Ele deverá arruinar-se dentro do fosso chamado Porque, e lá ele deverá sucumbir com os cães da Razão.[2]

A alma cujo desejo de união e completude não é alimentado pela Verdadeira Vontade ou Corrente 93 deverá efetuar uma grande falha, pois iniquivocadamente será enganado pelos cães da razão, o Ego que perece no Abismo, o fosso chamado Porque.

Leviathan, o Grande Dragão das Profundezas com sua calda escamosa é representado pelo símbolo do ouroboros, cuja atribuição planetária é Saturno. Os gregos chamavam Saturno de Cronos, o tempo. O ouroboros é uma imagem do processo perpétuo de criação, destruição, dispersão e assimilação de todas as formas que animam o universo. A Grande Obra trata-se, portanto, do resgate da alma de sua queda, quer dizer, trata-se de livrá-la das forças que lhe conectam apenas com as conchas ocas e vazias das Qliphoth que, sujeitas ao tempo, são perpetuamente consumidas por Saturno que no mito devora os próprios filhos. Para transcender o tempo, a alma deve conquistar o conhecimento de Hadit:

Vede! os rituais do velho tempo estão sombrios. Deixai aqueles nocivos serem abandonados; deixai aqueles válidos serem clarificados pelo profeta! Em seguida deverá este Conhecimento prosseguir acertadamente.[3]

Para conhecer Hadit e livrar-se das escamas do dragão a alma deve superar a tração de Saturno. Saturno é o regulador do universo físico e os rituais que atrelam a alma a este universo estão sombrios, pois levam a morte. Todos os rituais devem, portanto, ser dirigidos a Nuit, cujo corpo infinito de estrelas não pode ser mensurado pelas medidas e leis das forças mutáveis da Natureza:

Se os rituais não forem sempre para mim: logo aguardai os terríveis julgamentos de Ra Hoor Khuit![4]

A liberação da alma do julgo da morte ocorre através da maestria do poder do dragão. A alma deve transcender o dualismo do universo fenomênico através de sua iniciação nos mistérios da auto-polarização. Isso envolve a utilização da força mágica de vida incorporada no dragão: o corpo físico e o sentido de egoidade. Somente nessa conquista pode a alma proclamar:

Eu sou o Senhor do Duplo Bastão de Poder; o bastão da Força de Coph Nia - porém minha mão esquerda está vazia, pois Eu tenho esmagado um Universo; & nada permanece.[5]

A força do dragão é centrípeta, quer dizer, ela move-se em direção ao centro. É no propósito de estabilizar-se no centro que o dragão busca se unir a forças complementares. No entanto, a única união centrípeta realmente duradoura é aquela que ocorre fora dos ciclos do tempo. No momento em que a alma conquista sua imortalidade após sua gradual construção, as conchas ocas das Qliphoth se ajustam a percepção da Luz (LVX) e a cabeça do dragão se despedaça no Grande Mar de Binah acima do Abismo (NOX). No momento em que o dragão não mais excede suas convulções, quer dizer, quando suas violições são interrompidas, então o volátil se estabiliza. Na medida em que Leviathan busca completude na união dos opostos, permanece oco, vazio, sem luz e instável, um exemplo dos aspectos sombrios e qliphóticos completamente descontrolados. Mas quando ele se une na eternidade fora e além dos ciclos do tempo, sua manifestação deixa de ser demoníaca e se transforma na vibração daemonica. É quando os Qliphoth são transmutados e não estão mais sujeitos a morte e destruição. É nisso que consiste o trabalho do ChAYOGA, o Yoga das Sombras.

ChAYOGA soma 93, a Corrente da Verdadeira Vontade cuja fórmula é o amor sob vontade. ChAYOGA, portanto, consiste no yoga da transmutação qliphótica na busca do aperfeiçoamento e liberação eterna da alma.

Ao preparar este ensaio sobre incursões astrais nos Túneis de Seth, levei em consideração que o leitor já está familiarizado com a linguagem thelêmica e com os totens e teratomas da Gnose Tifoniana. Portanto, não se trata de um passo-a-passo para iniciantes. Ao trabalhar com os Qliphoth espera-se que o leitor tenha alguma experiência em magia, tradição tântrica e cultos das sombras. Caso contrário, é bem possível que esteja perdendo tempo e quem sabe, em nome da experiência, estará cavando uma cova bem larga e profunda. Portanto, na preparação desse material não me preocupei com os aspectos básicos da magia ou de seu treinamento, passando direto ao aspecto prático do trabalho, com instruções gerais acerca da preparação e execução. Como se trata de um ensaio sobre Teurgia Ofidiana, também levo em condireção que o leitor já está familiarizado com a fórmula da magia sexual da O.T.O., amplamente discutida em ensaios anteriores.[6]


Amor é a lei, amor sob vontade.


© Fernando Liguori. Este texto é um extrato do livro Gnose Tifoniana (Vol. II), que será publicado em breve pela SETh, Sociedade de Estudos Thelêmios.




[1] Maat é a deusa egípcia da justiça que preserva o equilíbrio do universo. Seu símbolo é a pena da verdade e a balança, por essa razão ela é atribuída ao signo astrológico de Libra. Na Árvore da Vida, Libra corresponde ao 22° Caminho, Lamed e ao Atu VIII, o Ajustamento. Lamed (L) é a letra hebraica do qual Liber AL vel Legis deriva seu título. O Liber AL vel Legis é, portanto, O Livro da Lei de Maat, a Lei do Ajustamento.
[2] Liber AL, II:26-7.
[3] Liber AL, II:5.
[4] Liber AL, I:52.
[5] Liber AL, III:72.
[6] Veja Rituais,Documentos & a Magia Sexual da O.T.O. (Vols. I & II) e Gnose Tifoniana (Vols. I & III).

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