sexta-feira, 18 de março de 2016

A Magia Sexual de Kenneth Grant #3




Fernando Liguori


P A R T E  . I I I .



Mas qual a finalidade deste tipo de ritual? A resposta é, quem sabe, tipicamente lovercraftiana:

No devido curso uma entidade nascerá e estará adaptada perfeitamente a viver em uma estrela escolhida.[1]

Trata-se de uma operação extremamente delicada. Se o sacerdote ou a sacerdotisa se perderem nos caminhos dos desejos apenas, a lúxuria sem restrições leva ao caminho da satisfação orgástica. Mas se ambos mantêm um fluxo contínuo de foco unidirecionado da mente, então a Vontade é cravada na matéria protoplasmática do plano astral. A Criança Mágica se manifestará encarnada com sucesso. No sexo casual, a mente devaneia por lacunas sombrias sob o domínio de entidades qliphóticas alimentadas pelo desejo lascivo desorientado. O resultado desse processo é o aterramento dos kālas e seu desperdício no lençol sujo, na privada ou no ralo do chuveiro. Se os kālas não forem energizados pelo poder do ojas, sua contra parte física, o sêmen e as secreções vaginais não têm finalidades mágicas positivas, pois ao invés de produzirem a Criança Mágica, dão nascimento a toda sorte de vampiros e zombeteiros que sobrevivem da matéria sutil do corpo de luz de seus pais. Mas quando carregados com ojas, os kālas dão nascimento a Criança Mágica.

Esse tipo de magia já era amplamente conhecido entre os gnósticos da primeira era. Durante o coitus, eles vibravam palavras mágicas e encantamentos no aethyr na intenção de encarnarem os Old Ones[2] na terra. A novela mais famosa de Crowley, Moonchild, trata desse tema. Magia é a Criação de Formas e Novas Realidades. No xamanismo tibetano, esse tipo de prática mágica dá nascimento aos tulpas, homúnculos criados para realização de propósitos específicos. O judaísmo também apresenta um sistema de magia cognato, a criação de golens.

Não se trata de duas pessoas sexualmente ativas em coito cercadas por imagens, diagramas e fumaça de incenso, como propõem os livros modernos de magia sexual. Ao contrário, o que se requer é dois magistas dedicados, dispostos a transcender as paixões sensuais e apetites do Ego enquanto emulam a Criação Primordial. Não é apenas a realização de uma metáfora, mas um ato mágico carregado de poder que, se executado em níveis de consciência além do estado de mente usual, é capaz de criar vida em todos os planos da existência.

Isso nos traz uma questão importante: a iniciação. Nas tradições śāktas do tantrismo, a mulher tem uma posição de destaque, seja na vida ou no ritual. No cerimonial vāmācāra que lida com os processo do maithuna (cópula sexual orientada), grande importância é dada as secreções vaginais da sacerdotisa. Em seu aspecto geral, o tantra é uma cultura que envolve filosofia e estilo de vida ao redor da adoração da Śakti ou Princípio Feminino Primordial. E a despeito das opiniões de Crowley acerca da posição mulher na iniciação, são as sacerdotisas emponderadas da Grande Deusa que conferem aos homens o dīkṣā «iniciação/consagração». Essa inclinação de Crowley em subestimar a capacidade da mulher na jornada pela Grande Obra o levou a uma busca frenética pela perfeita Soror Mystica «irmã nos mistérios», sem se ater a capacidade ou talento daquelas que com ele exerceram a função de Mulher Escarlate. Diferente de Crowley, portanto, Grant deu mais atenção a mulher no seu sistema de magia sexual, uma inclinação tântrica em ver a yoni – vagina – como um santuário de adoração e suas secreções como a substância viva da Deusa.

Os śaivas, mesmo adoradores do Princípio Masculino Primordial, não invertem essa equação. No sistema de magia sexual śaiva, o homem ou o poder transmitito através do falo tem uma posição maior de destaque, mas da mesma maneira os kālas da Deusa têm um papel importante. Seja como for, Grant dá mais importância a Criança Mágica que contém em si a essência primordial de Śiva e Śakti ou Therion e Babalon como estandarte do Novo Aeon da Criança anunciado por Crowley em 1904. A Criança, portanto, representa um novo paradigma de amplitude não somente mágica, mas de ordem social também.

Nesse caminho, não apenas os kālas, portanto, são importantes no processo, mas o sêmen do homem também é altamente valioso, sem o qual a Criança Mágica torna-se impossível. Para que o magista possa carregar os kālas apropriadamente, precisa empreender um processo de retenção, sublimação, transmutação e circulação da energia seminal. Juntos, sacerdote e sacerdotisa evitam o disparo orgástico até que ambas as essências, o sêmen e as secreções vaginais sejam devidamente carregados com ojas para então serem aterrados. Isso envolve muitas técnicas yogīs como a contração dos fechos musculares «bandhas» para contenção da energia e mudrā para direciona-la dentro das nāḍīs iḍā e piṅgalā para depois entrar na suṣumnā, a partir da qual a kuṇḍalinī sobe e desce inundando e selando os cakras. Trata-se de um processo altamente meticuloso e é requerido alto poder de concentração e visualização.

Na maioria das tradições tântricas vāmācāra, a ejaculação seminal é evitada. Diferente da mulher, o homem perde grande concentração de ojas ao expelir o sêmen. Na ejaculação a mulher não perde ojas, fato que acontece somente no período de catamênio, que é inevitável. Por isso o eclipse fisiológico feminino deve ser acompanhado de boa nutrição e os exercícios psico-fisiológicos do kuṇḍalinī-yoga. A contenção da energia seminal mantém o homem sempre excitado e apto a manter a ereção durante toda a cópula. Se a descarga de energia é expelida do corpo, tanto o sacerdote quanto a sacerdotisa falharam em suas funções.

Assim como no tantrismo há apenas algumas operações onde existe a necessidade da ejaculação masculina, Grant fez uma distinção em seu sistema de magia sexual. Operações onde o material seminal é requerido junto às secreções vaginais da sacerdotisa foram estruturadas através do IX° Grau. Operações que não requeriam o material seminal, mas somente os kālas da Deusa foram estruturadas através do XI° Grau.

O sêmen é o material cru e o combustível para qualquer transformação psico-química do yogī, alquimista ou tântrico, através do qual ocorre a transformação do corpo físico em uma nova e imortal estrutura super-humana, a partir da carcaça mortal biológica e condicionada, o corpo.[3]

No sistema de magia sexual de Crowley, o sêmen é fundamental para formação do Elixir, o amṛta ou néctar da imortalidade, junto aos kālas da sacerdotisa. É a união de ambos que produz a substância sagrada da imortalidade, o que está muito mais alinhado com as tradições alquímicas da Europa. Contrariando Crowley nesse ponto, ambos homem e mulher ocupam papeis importantes, pois é a contribuição dos dois que dá nascimento a Criança Mágica, seja ela aterrada na matéria ou lançada no aethyr, se manifestando no plano astral e além.

Uma vez que o Novo Aeon transcende as polaridades dos aeos precedentes, pois a Criança Hórus contém a essência de seus Pais, Ísis e Osíris – Śiva e Śakti – os métodos para sua formulação devem ser consultados em novos grimórios como o Liber AL vel Legis recebido por Crowley e o Liber OKBISh recebido por Grant.[4]

Para o magista, a sacerdotisa não é mais a sacerdotisa. No ofício de Muler Escarlate, empoderada pelo princípio feminino – a Śakti –, ela encarna a própria Deusa. Da mesma maneira, para a magista o sacerdote não é mais o sacerdote. No ofício de Therion, emponderado pelo princípio masculino – Śiva –, ele encarna o próprio Deus. Na sua conjunção reside o poder se fazer manifestar o ato da criação, a mesma vibração «spanda» que deu nascimento ao universo como o conhecemos, o Big Bang.

No curso da operação mágica, seus corpos iniciam um processo alquímico de transformação que começa com um aumento na produção hormonal, secretando na corrente sanguínea as secreções gandulares que enriquecem a saliva, suor, urina, semêm e fluídos vaginais com vida e poder, transmutando-os em substâncias mágicas de grande potência.

A gnose requerida para que este procedimento tenha sucesso também produz visões na sacerdotisa engajada na operação. Através da intensa concentração e unidirecionamento das energias da mente durante a etapa da excitação sexual, cria-se um estresse poderoso na psique e é a função do corpo liberar esse estresse através da ejaculação seminal ou orgasmo feminino. No entanto, se o sacerdote impede a perda da energia através de seu selamento «bandha» dentro do corpo, então o próprio corpo reage procurando ourros caminhos para liberar o estresse psíquico, abrindo dessa maneira canais ou portais que normalmente estão fechados. Maestria no kuṇḍalinī-yoga é requerida nesse processo. A mente deve conduzir a energia pelos canais apropriados, caso o contrário a energia não direcionada pode alimentar larvas e entidades qliphóticas que por ventura possam estar se alimentando da substância nervosa armazenada.

A obstrução mais tênue no curso da vontade pode mudar a precisão das visões obtidas. Se o objetivo de ambos é a abertura de portais ocultos na consciência, então esses portais serão efetivamente abertos se mantiverem o mesmo fluxo de dhāraṇā. O poder da energia sexual contida abre os portais e os kālas produzidos a partir desse processo são carregados pelas vibrações das forças e potências espirituais com as quais a sacerdotisa trava comunicação.

O objetivo desse tipo de prática é encontrar a câmara oculta que contém o segredo da imortalidade. Nos diversos mitos que tratam dessa jornada espiritual, a câmara oculta é sempre descrita como um templo ou santuário que abriga o Absoluto sob todas as formas, a morada de Deus. Em Beyond the Mauve Zone Kenneth Grant diz que a Gnose Tifoniana foi melhor preservada até os dias de hoje na tradição tântrica. A tradição Kaula do tantrismo insiste que os mistérios da iniciação são fisiológicos e isso é compartilhado pela cosmovisão tifoniana como exposta nas obras de Grant. Os verdadeiros mistérios da iniciação estão no corpo. Estrelas, sóis, planetas e dimensões paralelas podem ser acessados dentro do corpo, na jornada da kuṇḍalinī através dos cakras. Dessa maneira, essa câmara oculta descrita nos mitos e fábulas possui sua contraparte fisiológica também.

Dentro do cérebro há um espaço conhecido como câmara nupcial. Esse espaço fica na região do hipotálamo, localizado entre e além dos olhos. Nas purāṇas costuma-se dizer que o deus Śiva habita uma caverna no topo de uma montanha; no Tarot, por outro lado, o eremita se encontra em uma caverna ou câmara oculta, também no topo de uma montanha. Śiva na caverna permanece recluso em meditação, a espera de sua esposa. Na ocasião de seu encontro, começa o enlace de amor entre os dois, quer dizer, a kuṇḍalinī começa a subir pelos seis primeiros cakras para se encontra com Śiva no abraço amoroso que abre o portal do sétimo cakra. Trata-se do casamento alquímico que produz o décimo sexto kāla ou elixir vitae.

É o trabalho da sacerdotisa, através da constância no fluxo das energias da mente sobre as respostas psico-biológicas de seu corpo, controlar o resultado do ritual. Na medida em que o sacerdote lhe excita sexualmente, ela é capaz de visualizar a kuṇḍalinī perpassando cada um dos cakras através de um caminho seguro, manipulando suas respostas. Isso é acompanhado por bandhas e mudrās que contêm e dão direção a energia. Quando a união entre Śiva e Śakti ocorre, a Criança Mágica é concebida. O termo criança mágica é aqui utilizado como referência ao resultado da operação.

A passagem que segue é uma declaração eloquente de Grant acerca dos parâmetros da operação sexual ao ponto de introduzir a possibilidade da encarnação de monstros com poderes super-humanos através da magia sexual. Ele acrescenta dizendo que os canais usuais da atividade sexual corriqueira não são capazes de aterrar uma inteligência extraterrestre nessa dimensão. O controle das respostas psico-biológicas do corpo começa com uma influência e posterior domínio das funções reptilianas – serpentinas – do cérebro até que todo o organismo se torne um instrumento de poder nas mãos do magista habilidoso. Uma vez que isso ocorra, Grant sustenta que portais ocultos são abertos e o reino além daquilo que é visível, tangível e ilusório pode ser explorado. Essa abertura possibilita o trafico com as poderosas entidades da Zona Malva.

Continua...


Amor é a lei, amor sob vontade.


© Fernando Liguori. Esse texto é parte do livro Gnose Tifoniana (Vol. II), em breve. 



[1] Kenneth Grant, Beyond the Mauve Zone, p. 131.
[2] Antigos ou Poderosos Antigos.
[3] David Gordon White, The Alchemical Body.
[4] Veja a terceira parte desse ensaio, onde uma tradução deste grimório aparece pela primeira vez em português.

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