sábado, 13 de fevereiro de 2016

Sobre a Natureza do Lado Noturno & suas Entidades

 


Fernando Liguori


Care Frater,


Faz o que tu queres, há de ser tudo da Lei.


A experiência do lado noturno nos coloca frente um universo estranho, denso, bruto e cru, muito além da experiência ou estado de mente cotidiano. Esse universo é impossível de ser especulado. Por mais que falemos sobre ele, somente a experiência provê seu conhecimento. E embora possamos receber lampejos dessas adumbrações através de sonhos e insights criativos, somente o estado de gnose ou transe abre o portal que dá acesso a essa região. Pense em recém-nascidos defeituosos que não sobrevivem fora do útero. Pense nos monstros de seus piores pesadelos que, embora sejam reais para você, não existem na realidade de outras pessoas. O lado noturno contém criaturas como essas; seres nascidos do sorriso primordial da criação e que não deveriam existir segundo as leis de nosso universo, entidades monstruosas, caóticas e titânicas consideradas contra a natureza como nós a concebemos. O lado noturno é onde todas as criaturas monstruosas feitas do protoplasma original se encontram. Se isso lhe parece sombrio ou até mesmo ctônico, o lado noturno é o oposto de tudo aquilo que é considerado o poder ativo, positivo e angélico que emana de Kether. Dessa maneira, esse Universo B e as criaturas que nele habitam são o oposto das forças da natureza como queremos acreditar que ela seja.

De acordo com Kenneth Grant, que empreendeu pesquisas práticas na exploração do lado noturno, são as criaturas desse plano existencial que inpiraram a ficção de horror de H.P. Lovecraft, que lida com seres terrivelmente repugnantes que existiram na fonte primordial milhões de anos antes da existência humana e que, segundo ele, retornarão dos golfos da criação. Trata-se de um universdo monstruoso e alarmante que nunca deveria ter existido. A palavra cthulhu, nascida na mitologia de Lovecraft, foi inspirada na plavra grega ctônico, que se refere aquilo que vem ou tem a ver com a terra primordial. Essa é uma perfeira descrição para as criaturas do lado noturno. Lovecraft, portanto, fez um trabalho fabuloso, embora inconsciente disso, transformando lamjejos do lado noturno em fábulas fictícias. Ele não era um ocultista, mas um escritor sensível que de alguma maneira estava em contato com essas forças sombrias. Escritores diversos insistem no fato de serem solapados por ideias e obsessões que não sabem de onde vem, mas são como musas que lhe seduzem.

Se aplicarmos uma ideia pessoal, elemental, física e psicológica correspondente ao lado noturno, podemos dizer que a faculdade da imaginação está associada ao Univerdo B. Grant insiste que a imaginação é um estado meditativo entre a Vontade e a Razão, o Fogo e o Ar. A imaginação é livre e o que ela cria não precisa necessariamente ser mensurado pela razão. Nós podemos nos ver fazendo coisas que só a imaginação pode conceber mas que são impossíveis de serem executadas fisicamente. Assim, o material que dá nascimento a faculdade da imaginação é diferente da realidade aparente. Segundo Grant, a imaginação está conectada diretamente ao estado de sonho, que ele também atribui a Zona Malva. Grant insiste que a imaginação é o lugar onde o impulso sexual ctoniano reside, o ponto de partida para a maioria dos desejos sexuais que serão então materializados pela faculdade da fantasia, também atribuída ao estado de sonho. No sistema de magia sexual de Kenneth Grant, isso conectava as zonas de poder de Yesod e Daath. Em outras palavras, a sexuallidade iridescente de Yesod (plano atral/estado de sonho) abre os portais de Daath para a experiência do lado noturno. Da mesma maneira, através dessa mesma fórmula mágica, a experiência do lado noturno pode ser projetada na consciência ordinária. Falando sobre o assunto, Grant diz:

Spare usou essa fórmula imaginativamente – i.e. no nível de sonho – a fim de produzir transformações na consciência no estado de vigília. [...] Trabalhando nos limites da arte como um mecanismo para visualizar sensações, Spare foi provavelmente o primeiro a ensinar um método mágico de afetar a relidade (o estado de vigília) do nível da fantasia pura (estado de sonho); a fantasia que se projeta através do prisma do estado de sonho precisa de um ajustamento ou modificação nos objetos aparentemente desconexos e arbitrários que, no estado de vigília, parecem díspares e irreconhecíveis. [...] É a possibilidade de controlar o estado de vogília via o mundo dos sonhos ou fantasia. Em outras palavras, através do controle do subconsciente.[1]

A ficção de Lovecraft é assustadora, mas como as pinturas de H.R. Geiger (1940-2014), também é muito sexual, embora a sexualidade inerente nas suas histórias não seja tão aparente. Mas as entidades protoplasmáticas da mitologia de Lovecraft são estranhamente sexuais. A visualização de seu universo retratado em frases e palavras causa excitação aos mais sensíveis. Muitas criaturas descritas nos seus contos são o resultado de amores proibidos, produtos fatídicos de uma degradante e corrupta relação sexual. Mas toda essa sexualidade demonstrada em seus contos pode ser o produto de suas próprias repressões sexuais, produzindo as obsessões e neuroses retratadas em suas histórias.

Esses medos e neuroses, no entanto, podem ser transferidos diretamente aos leitores de sua obra, bodes expiatórios. Aos incautos, essas obsessões produzem outras neuroses. O lado noturno é um terreno fértil para o nascimento de criaturas decadentes que drenam a energia da psique, prodzindo verdadeiros elementares autêmatos que inebriam a consciência humana, entorpecendo as faculdades da razão. O resultado são os humanos atormentados que atormentam a humanidade.

O lado noturno também é um lugar de muita violência e os impulsos de destruição e união sexual coesistem. O aspecto infernal do lado noturno, no entanto, não se limita a sexualidade erótica de Eros, mas a sexualidade sombria de Thanatos, que inclui violência e abuso. Essas são forças que estão constantemente lutando entre si, se amando e se separando, trepando e gozando caótica e freneticamente. Portanto, as criaturas dessa região são tanto violentas como extremamente sexuais, cheias de vigor e energia disruptiva. O lado noturno tem essa característica caótica.

De acordo com Crowley, Neófitos da AA estão propensos a trair a ordem e a si mesmos quando tentados por uma mulher elemental. Não se trata de uma entidade ou vampiro astral, mas uma mulher de carne e osso. Por elemental entende-se algo formado pelos quatro elementos, quer dizer, Malkuth (a esfera do Neófito), o corpo humano. Uma entidade qliphótica atribuída a esfera de Malkuth é Nahemoth, a forma jovial de Lilith. Nahemoth é uma entidade sedutora embuída de fome e lascívia sexual, associada ao período de catamênio. Ela também é associada a dúvida espiritual. É óbvio, portanto, que as mulheres que tentam o Neófito – e é claro, o Probacionista e o Zelator –, tirando-o do caminho da Grande Obra, estão, de fato, sob essa influência qliphótica.

Mas o lado noturno não tem somente isso a oferecer. Tudo o que vemos ao nosso redor existiu previamente em uma forma mais bruta e crua no lado noturno, antes de passar através dos portais de Saturno e adquirir a forma limitada necessária para existir no plano de consciência ordinário, quer dizer, o estado de vigília.


Amor é a Lei, amor sob vontade.

Às ordens.
Fernando Liguori
Juiz de Fora, 2016 e.v.



[1] Kenneth Grant, Nightside of Eden, Capítulo 12.

Um comentário:

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