quinta-feira, 2 de abril de 2015




Fernando Liguori e Alex Elias


O presente texto é uma carta em resposta a um pedido de ajuda. Um rapaz na casa dos vinte anos nos procurou na tentativa de vencer uma obsessão, uma entidade automata criada para lhe tirar a vida. O agente do feitiço jogado contra ele foi uma múmia[1] acidentalmente ingerida por seu animal de estimação. Para situar o leitor, o que segue são trechos de seus emails:

Fernando, obrigado por responder! [...] Eu lhe «conheci» através do blog Círculo Tifoniano. Li todos os artigos. Um despertou a minha atenção: Uma Nota Sobre Magia. Nele você diz: Alguns meses atrás fui procurado por uma pessoa. Ela se interessou pela Terapia Qabalística. Um método terapêutico que envolve a Qabalah prática. Ao me conhecer pediu para estudar magia. Mas suas condições eram péssimas: muito acima do peso, ela sofria de sérios problemas hormonais, além de apresentar depressão, pânico e uma mente completamente dissipada e desordenada. Uma pessoa nessas condições está apta a aprender magia? Não! O que eu ofereci a ela, antes da magia, foi uma terapia através da Medicina Ayurveda para curar seus desequilíbrios hormonais e um treinamento em Yoga para desenvolver suas capacidades e estar apta a praticar magia.
Logo, eu lhe procurei no Facebook na esperança de você me ajudar. Pois bem, vamos a minha história: Eu não tenho relações com a família do meu pai (que já falecera), por causa de herança. A família dele não aceita o fato de nós, meu irmão e eu, recebermos nenhuma herança, mesmo sendo um direito nosso. Eles possuem um Centro no qual se você pagar, independente da finalidade, eles atendem aos pedidos. Dificilmente alguém vai com boas intenções.
Aos 20 anos, eu tive um problema de saúde gravíssimo. Eu simplesmente não conseguia comer. Tudo o que eu tentava comer agarrava na minha garganta. Fui a vários médicos e fiz diversos exames. Porém, nada constava nos exames e nenhum dos médicos conseguira descobrir o motivo. Fiquei 4 anos 11 meses tomando caldo, Danone coado e Nescau. Os médicos me deram prazo de vida. Meus tios (por parte de mãe) são médiuns. Há tempos eles queriam abrir um Centro e, ainda bem, conseguiram Neste Centro há o estudo e prática do Espiritismo e da Umbanda. Meu tio psicografou um desenho de um «pacotinho» de cor vermelha que fora jogado na minha casa (o meu tio – por parte de pai – mora em baixo da minha casa). A psicografia fora tão detalhada: ela mostrara o que havia no «pacotinho», onde fora jogado e quem o jogou; e, para piorar, minha cadela havia comido o «pacotinho». Logo, minha tia, incorporada, fizera um trabalho para desmanchar e eu voltei a comer. Já a minha cadela, ao longo de duas semanas, morrera.

No segundo email, ele destaca:

Você disse no vídeo: 99 % das pessoas que procuram a prática da magia querem isso apenas para os seus benefícios pessoais: ou a pessoa está querendo conquistar uma mulher, ou destruir outra pessoa. Gostaria de fazer algumas observações que eu não fiz no e-mail anterior.
Eu comentei que o meu tio morava em baixo da minha casa [...]. Depois de tudo o que aconteceu, eu tive que mudar de casa. Atualmente, estou morando no endereço que eu lhe escrevi.
Ele continua fazendo trabalhos para me destruir. Os trabalhos são sempre desmanchados no Centro da minha tia. Dois me chamaram atenção: o primeiro foi feito com o meu cordão umbilical. Eu fiquei assustado, então perguntei a minha mãe o que havia feito com o meu cordão umbilical, e ela respondera que o meu pai havia dado ao meu tio, pois ele pedira para fazer um ritual para a minha saúde; o segundo foi a tampa de um caixão cheio de pregos e com pontos riscados.
Meus tios dizem que os meus chakras estão abertos e eu preciso trabalhá-los. Que o jeito é eu frequentar o Centro, tanto os estudos quanto os trabalhos. Disseram que eu sou «médium de energia» e não «médium de incorporação». A minha tia, antes de eu começar o tratamento, havia dito que o meu problema era mediúnico. Que não iria adiantar eu tomar remédios. Foi exatamente o que aconteceu. Um médium a que eu confio disse que os meus chakras estão abertos e que eu sofro de vampirismo. São essas as conclusões.
Minha opinião: creio que qualquer Centro deveria ter exercícios de visualização, concentração etc., mas não é o que vemos em nenhum Centro de [...]. Durante o tempo que frequentei o Centro, aconteceram eventos que ninguém, absolutamente ninguém, conseguiu me explicar. Quando eu cochilava, por exemplo, acontecia de eu saber que eu estava dormindo, mas o meu corpo ficava paralisado, eu tentava acordar, mas não conseguia (eu ainda tenho isso). As pessoas dizem que escutam vozes, espíritos conversando com elas, porém, ao cochilar, as vozes não vinham no meu ouvido, mas em minha cabeça e, mesmo sabendo que eu estava dormindo, eu começava a falar, sem conseguir parar, o que essas pessoas falavam. Eram poesias, relatos de vida, de guerra, pedidos de ajuda etc. E não importava a língua. Qualquer idioma desconhecido vinha em minha cabeça e eu falava em português (isso não acontece há algum tempo). Ao cochilar, eu vejo trabalhos feitos para pessoas próximas ou doenças. Meus dois últimos sonhos, por exemplo, foi um trabalho feito para a minha mãe, inclusive a pessoa que fez; o outro foi uma doença que uma médium do Centro adquirira. Minha tia disse que não havia nenhum trabalho feito, mas ao chegar ao Centro, veio uma psicografia relatando o trabalho, inclusive com um objeto pessoal dela, e o nome da pessoa. Ela ficou assustada e me pediu desculpas. Daí contei sobre a doença da médium. A médium fez o exame e confirmou a doença. Ao cochilar, também, eu sabia que havia espíritos em meu quarto. Conseguia vê-los com o máximo de detalhes. Meu colega, médium, disse: se você estava com os olhos fechados, como você via os espíritos?! Outra coisa que pode ajudar: tudo o que aconteceu, eu sempre estava cochilando; enquanto eu estou acordado nada disso acontece. Acontecem apenas intuições. Minha tia disse que a minha mente é muito desordenada, que os espíritos no Centro tentam fazer ligação comigo, mas não conseguem devido a isso.

O que notamos através deste relato é que o rapaz em questão é muito sensível. Qualquer tipo de mediunidade mal trabalhada pode trazer grandes transtornos e é bem sabido que médiuns são mais facilmente vampirizados e abertos a ataques mágicos. Os trabalhos de feitiçaria feitos com seu umbigo agridem diretamente sua ancestralidade e o trabalho com a tampa de caixão, com certeza absoluta, é para sua morte. Como medida de efeito imediato, chegamos a conclusão da necessidade de uma urna para aprisionar a entidade obsessora, um exorcismo de sucção e um escudo de choque de retorno. O que se segue é a carta:


An v1 1 in 12° ¡, 2 in 21° §, Dies Jovis
Juiz de Fora, 2 de abril de 2015 e.v.


Caro F.,

Faz o que tu queres, há de ser tudo da Lei.


Desculpe pela demora em respondê-lo. Seu caso realmente é um desafio. Eu não costumo dar atenção a 99% das alegações acerca de obsessão mágica, pois na grande maioria das vezes o caso não passa de fantasias e divagações da mente. Mas seu caso me chamou a atenção.

Eu fiquei curioso se a psicografia de seu tio mostrou «quem» jogou a múmia e o que havia nela. Tradicionalmente, feitiços desse tipo – então sabemos que seu caso se trata de feitiçaria – são enterrados sob qualquer bambuzal (para não serem encontrados, pois as raízes do bambu são muito profundas) ou colocados em algum lugar onde a vítima esteja. Seu caso é muito parecido com um caso que aconteceu com um conhecido magista aqui de Juiz de Fora. Ele quase perdeu a orelha por um feitiço feito com orelha de porco cuja múmia foi lançada em cima do guarda-roupas dele.

A maneira mais tradicional de lidar com esse tipo de prática é desfazendo o trabalho, como sua tia fez. Talvez o trabalho que ela executou não tenha sido «tão» eficaz ao ponto de banir permanentemente a obsessão – ou talvez a obsessão seja um elementar oculto, quer dizer, que se manifesta de tempos em tempos, lhe dando espaços e paz entre os períodos de obsessão[2] –, muito provavelmente porque ela não tinha em mãos a múmia jogada, uma vez que sua cadela a comeu. Penso que esse foi um trabalho tão bem feito que você pode estar vivo hoje graças a morte de sua cadela, que recebeu completamente o impacto, mas resquícios ainda restaram, visto suas alegações atuais sobre seu estado de saúde. Essas são variáveis, quer dizer, pode não ser nada disso, mas devemos considerar.

Na minha linha de ação vou considerar que essa obsessão, este elementar obsessor, já está grande e forte, fato decorrido de anos drenando suas energias. Considerando sua falta de energia e disposição por conta dessa obsessão, psicurgia e theurgia estão fora de cogitação para você. Portanto, vamos utilizar magia. Assim você evita usar as energias da mente. Nessa linha de abordagem, consideramos «magia» a utilização de feitiços que independem da vontade do magista para terem eficácia. Neste caso específico, vamos combater feitiçaria com feitiçaria. A feitiçaria trata da arte de manipular energia psíquica através de bases materiais. Portanto, você terá que fazer uma urna de aprisionamento para essa entidade e um exorcismo de sucção, além de um escudo de choque de retorno.

Para produzir a urna:

Consiga uma caixa hermética, ½kg de pregos (de preferência enferrujados) e ½ kg arame farpado. Consiga também ½kg de enxofre e ½kg de sal grosso. Todos esses elementos: pregos, arame farpado, enxofre e sal grosso são agentes mágicos por natureza. Você não precisa invocar força alguma para empoderá-los.

Para o feitiço de sucção:

Consiga uma dúzia de ovos galados e tabaco puro.

Segundo a feitiçaria, os dois melhores receptáculos para encarnação de uma entidade é o útero ou o ovo. Através de uma sacerdotisa no período do catamênio, por exemplo, pode-se aprisionar a entidade em seu útero e depois tratar o sangue secretado como uma múmia para desfazer esse trabalho. Mas para você fazer isso aí seria muito difícil e complexo. Vamos usar o ovo. Por algum milagre da natureza, a forma do ovo está dentro da razão daquilo que chamamos de «razão áurea». Por ter a forma que tem, o ovo tem a capacidade de «sugar» para dentro dele qualquer entidade/obsessão e até forma-pensamento. Kenneth Grant dá pequenos lampejos sobre esse conhecimento quando nos instrui a sermos sugados para dentro da cabeça de Lam através do foco «ekāgrata» nos olhos da entidade, quem tem a forma de um ovo.[3] Mas para que ele possa ser um receptáculo ideal, o ovo deve conter ambas as polaridades, masculino e feminino, quer dizer, ele deve estar galado.

Mas a entidade/obsessão deve ser atraída para dentro do ovo. Isso você fará ao preparar uma cama de tabaco para o ovo, como um círculo em volta dele. O cheiro do tabaco atrai essas entidades e obsessores. Durante a Lua Minguante, período em que as energias telúricas do planeta estão desestimuladas e portanto também estas entidades e obsessões que estão conectadas com seus aspectos lunares.

Você deverá colocar o ovo com a cama de tabaco durante uma hora sobre seus cakras. Depois, com cuidado, remova-os sem quebrar e os coloque dentro da urna. Durante mais uma hora, coloque outros ovos e tabaco perto de seus orifícios, por onde a entidade deve ter entrado. Remova-os com muito cuidado e os coloque na urna também. Finalmente, faça um círculo ao seu redor com mais ovos e tabaco. No fim, da mesma maneira os coloque na urna. A cada sessão de uma hora, você deve vibrar o nome da entidade, chamando-a intensamente. Mas você não sabe, não é? Nesse caso, você deve chamá-la assim: vem insônia, vem depressão, vem angústia, vem sofrimento, vem estado de inferno, vem desgraça, vem depressão, vem medo, vem pavor etc. Já ensinava Abramelin: inflama-te em oração.

Prepare a urna da seguinte maneira: coloque no fundo uma camada de sal grosso. Enrole o arame farpado e faça como um ninho no fundo da caixa. Em seguida espalhe os pregos. Note que a caixa deve ser grande para caber isso tudo mais os ovos. Depois que colocar todos os ovos, jogue por toda a caixa o enxofre. O enxofre é uma força cega da natureza, por esse motivo, muitos magistas medievais o chamavam de «demônio que come demônios». Mas ele não consome só demônios. Ele consome qualquer coisa. Lembre-se que o ovo tem o poder de sugar entidades e até formas pensamento. Quando o enxofre tocar no ovo, seu Elemental ígneo será também sugado para dentro do ovo, levando a entidade aprisionada a um estado de inferno.

Os pregos e o arame farpado devem ser de ferro. O ferro, deste a Idade Média, é considerado um material que coloca qualquer demônio sobre julgo. Por essa razão, considera-se melhor ter uma espada mágica forjada em ferro. O primeiro demônio que Salomão aprisionou foi Ornias, encarcerado por ferro. Note que o ferro é um metal ausente na lista de metais planetários utilizados na confecção dos sigilos da Goécia.

Isso trata entidades instaladas em seus códigos de luz, mas para prevenir outros ataques você teria que fazer um feitiço escudo de choque de retorno. Este feitiço requer um conhecimento técnico mais avançado da arte da feitiçaria, muito usado em operações marciais. Esta classe de feitiço requer a construção de um vórtice de poder que absorva seletivamentente somente encantos de malefício amplificando o poder e devolvendo os dardos envenenados a sua origem. Já com relação aos trabalhos com umbigo você teria que começar a considerar fazer práticas de assentamento de seus antepassados e ancestrais em sua casa, que formam a base e o sustento da alma encarnada. Seu tio ao enfeitiçar seu umbigo simplesmente te isolou da egrégora familiar para te enfraquecer e te vencer com mais facilidade. Te deixando sozinho e isolado, você perde.

Após conter a entidade no ovo dentro da urna de aprisionamento, enterre-a abaixo de sete palmos. Isso colocará a entidade presa abaixo dos veios telúricos da terra. Mais um impedimento para que ela retorne.

Anote tudo cuidadosamente e após algum tempo mande notícias. Gratidão pela oportunidade.


Amor é a Lei, amor sob vontade.


Às ordens.
Fernando Liguori e Alex Elias
Juiz de Fora, 2015 e.v.



[1] O receptáculo contendo o feitiço lançado.
[2] Entidades dessa natureza podem se alimentar não somente de seu prāṇa, mas também do prāṇa do ambiente ou até mesmo a luz do sol. Tais entidades automatas são criadas dessa forma para vampirizarem seu próprio criador. Nesse caso, para aprisioná-las, seria melhor executar o feitiço no auge da obsessão ou estado de inferno.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá Silas, 93. Sim, a pessoa envolvida está bem e o processo foi finalizado. 93.93/93.

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