quarta-feira, 22 de abril de 2015

A Fórmula da Mulher Escarlate



Fernando Liguori


Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.


Eu venho insistindo na similaridade entre o Culto de Thelema e o Tantra e a fórmula da Mulher Escarlate ilustra o fato. Embora o Tantra seja muitas vezes confundido com sexo no Ocidente, a fórmula da Mulher Escarlate não tem «apenas» conotações sexuais – embora elas existam. Antes – assim como na cultura tântrica – a fórmula se refere a uma atitude diferente em relação ao mundo, a vida, ao dia-a-dia.

Tradicionalmente, a Mulher Escarlate é ilustrada na forma de uma prostituta que simbolicamente «permite tudo e todos em si mesma». A contra-imagem da Mulher Escarlate é a mulher casta que se fecha e não permite nenhum tipo de contato íntimo com nada ao seu redor. Nos Comentário d’O Livro da Lei (III:55), Crowley observa que «O inimigo é esse fechamento em relação as coisas. Fechar a Porta é uma prevenção quanto a Operação da Mudança, i.e. o Amor [...]. Este «fechamento» é hediondo, a imagem da morte. É o oposto do Ir, que é Deus.» Como a imagem da Operação de Mudança, a prostituta abraça a tudo e todos sem distinção, na medida em que a mulher casta é a imagem da estagnação e separação entre todas as coisas. Nesse caminho, a mulher casta também é a imagem do ego que se recusa a ceder sua suposta realeza clamando ser o Rei da Montanha. O Rei da Montanha é o que nós chamamos de Sagrado Anjo Guardião e o ego, seu ministro no mundo, embora ele pense ser o próprio Rei. Da mesma maneira que a mulher casta se fecha para não ter relações íntimas com os outros, o ego se fecha em si mesmo para não ceder lugar ao verdadeiro Rei, o Sagrado Anjo Guardião.

A fórmula da Mulher Escarlate é a fórmula tântrica, quer dizer, aceitar o mundo como ele é, sem recusar nada, crescendo a partir da assimilação de todas as coisas. No Velho Aeon a mulher casta era exaltada, pois a castidade era tida como uma virtude. No Novo Aeon a prostituta é exaltada em virtude, pois ela é um símbolo de crescimento e mudança. É o apego ao Velho Aeon que macula sua imagem, associando sensualidade e promiscuidade a uma atitude pecaminosa. No «Livro das Mentiras» (cap. 4), Crowley diz: «[...] é um conselho para aceitar todas as impressões, é a fórmula da Mulher Escarlate; mas não se deve permitir dominar-se por impressão alguma, apenas frutificar-se; como o artista que, vendo um objeto, não o reverencia, mas produz uma obra-prima a partir dele. Este processo é mostrado como um aspecto da Grande Obra.»

Em «Liber A’ash» (28) é dito: «Todas as coisas são sagradas a mim.» E no «Comentário Djeridensis» (I:51) Crowley observa: «Eu insisto para que você tome cuidado com o orgulho de espírito, do pensamento a respeito de qualquer coisa como sendo pecaminosa ou impura. Faça com que todas as coisa lhe sirvam na sua Magia [causando mudança em conformidade com sua Vontade] como armas.» Portanto, a fórmula da Mulher Escarlate é a fórmula do abraço ao mundo, aceitando tudo sem distinção de «impuro» ou «profano». Os Eremitas de Thelema não desistem ou se afastam do mundo ou vêm as coisas como «mundanas» ou «não-espirituais». Ao contrario, cada Thelemita se encontra imerso no Céu, como uma Estrela entre as Estrelas. No «AL vel Legis» (II:24) encontramos: « Eis aí! estes são graves mistérios. Pois existem, além disso, meus amigos que são eremitas. Atualmente não pense encontrá-los na floresta ou sobre a montanha; mas em camas de púrpura, acariciados por suntuosas bestas de mulheres com grossos membros, e fogo e luz em seus olhos, e volumes de cabelos flamejantes sobre eles; lá vós devereis encontrá-los. Vós devereis vê-los no governo, em exércitos vitoriosos, em todo modo o prazer; e deverão estar neles um prazer um milhão de vezes maior do que isto. Acautelai-vos a fim de que algum não force um outro; Rei contra Rei! Amai-vos uns aos outros com corações ardentes; sobre os homens submissos, desprezai-os na feroz luxúria de vosso orgulho, no dia de vossa cólera.»

No Novo Aeon não consideramos o Mundo como uma prisão ou um vale de lágrimas, mas um Templo onde o sacramento da Vida pode ser promulgado; o corpo não considerado corrupto e impuro, mas um Ornamento puro para expressão da Energia; o sexo não é considerado pecaminoso, mas um misterioso canal de poder e a imagem da natureza extasiante de todas as Experiências de Vida, Amor, Luz e Liberdade. «Existência é puro prazer» (AL II:9).


Amor é a lei, amor sob vontade.


3 comentários:

  1. certo, você diz que a 'fórmula da Mulher Escarlate é a fórmula do abraço ao mundo, aceitando tudo sem distinção de «impuro» ou «profano».' mas onde entra a Vontade? esse tudo não estaria circunscrito a vontade ? ou seja todas as coisas sendo licitas mas convindo apenas a vontade do magista? Ora a Prostitua aceita tudo porque Quer, esse querer já implica preferência, vontade, e seleção de coisas sagradas entre sagradas, já que 'Em «Liber A’ash» (28) é dito: «Todas as coisas são sagradas a mim.»' Fazendo 'com que todas as coisa lhe sirvam na sua Magia' , está certo???
    no mais, um bom texto.
    93.

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    1. Indico os textos sobre o Ofício de babalon no livro "Em Nome da Besta":

      https://srikulacara.wixsite.com/thelema-br/em-nome-da-besta-i

      Indico o curso Shakti-Babalon:

      https://srikulacara.wixsite.com/thelema-br/o-culto-de-shakti-babalon

      Finalmente, você não captou a essência do texto. Em um outro texto, "A Prostituta de babalon" eu explico detalhadamente este processo que é o cerne de sua dúvida. Ele está disponível aqui:

      https://srikulacara.wixsite.com/thelema-br/jc93-vol-ii-no-3.

      A distinção é feita, muito bem feita! Eu já até falei disso em váriuos vídeos no You Tube.

      93.

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