quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O Culto da Serpente Negra #1




Kenneth Grant
Tradução de Fernando Liguori
Cults of the Shadow, Cápitulo 9. Frederick Muller, 1975.


COM MICHEL Bertiaux,[1] o Mestre do Vodu Gnóstico do Culto La Couleuvre Noire, nós entramos na atmosfera densa da decadência dos Magos de linhagem Francesa. Os aspectos desta decadência sobrevivem até hoje, e no presente momento, sua equivalência se esconde no centro de Chicago sob a sombra de Joseph Péladan, Stanislas de Guaita, Pierre Vintras, J-K Huysmans, e o sinistro Boullan, com quem Bertiaux mantém uma comunicação astral direta. Entretanto, essa atmosfera de nostalgia que circunda o Monastério dos Sete Raios, dirigido por Bertiaux, com seus ritos de cunho sombrio que invocam a presença de entidades muitas vezes indescritíveis, até o mais alto grau, dão combustível a uma atmosfera etérica de decadência. Eu me refiro aos monstros sombrios das profundezas conjurados pelo encantador Inglês H.P. Lovercraft,[2] seres estes com quem Bertiaux clama ter estabelecido contato, os ‘Deep Ones’, terríveis inteligências do Espaço Exterior que Lovecraft trouxe para perto da terra em suas tenebrosas ficções.

A toca da Serpente Negra não é de fácil acesso como era a da Besta 666. Para conhecer a Besta, o chela tinha de ir até Cefalù, e, se atrevesse, visitar a Abadia de Thelema nos arredores na turbulenta baía dominada pelo ‘Recife Lião’. O Quartel General do Culto da Serpente Negra, embora situado em uma cidade amplamente desenvolvida, é dirigido de Leogane (Haiti), a zona de poder oculto dos mistérios negros dos quais Bertiaux é o Adepto Chefe.

Atualmente, com características que envolvem Chicago, o aspirante a esta filosofia primeiro aprende por meio de um curso de correspondência que leva mais de cinco anos para ser completado, mas que, ao contrário da maioria dos cursos desta natureza, oferece conhecimento mágico muito além do escopo apresentado por muitas fraternidades ‘ocultas’ de ensinamento superficial. Este curso é à base dos ensinamentos do Monastério dos Sete Raios que é em si o Colégio Externo do Culto da Serpente Negra. O Monastério é uma célula da O.T.O.A. ou Ordo Templi Orientis Antiqua, que incorporou em sua base iniciática as doutrinas mágicas promulgadas por Aleister Crowley. Em 15 de Agosto de 1973, a O.T.O.A. ligou-se nos planos internos com a Corrente 93 e anunciou sua oficial aceitação da Lei do Faz o que tu queres. Essa ocasião foi celebrada pela O.T.O.A. revogando sua regra anterior de não aceitação de mulheres nos Graus mais altos da Ordem.

Michael Bertiaux, líder espiritual da O.T.O.A. e do Monastério dos Sete Raios e um Alto Sacerdote do Culto da Serpente Negra é indubitavelmente um dos mais proeminentes ocultistas contemporâneos. Seu Curso de Instrução começa com uma máxima oculta: ‘o que está fora de nós é como o que está dentro, e o que está dentro de nós é como o que está fora’. Está máxima está em concordância com algumas afirmações de Krishnamurti, o ‘filho-da-lua’ de Besant e Leadbeater, e a prova da eficácia mágica da Sociedade Teosófica. Krishnamurti em relação à Sociedade Teosófica pode ser comparado a Crowley em relação a Golden Dawn; eles eram, em cada caso, o resultado de ‘real’ valor produzido por estas sociedades. Mas neste ponto a analogia termina, pois ao passo que Krishnamurti e Crowley eram, em suas respectivas esferas, ligados pela fórmula de sua herança racial, Bertiaux é uma combinação entre o branco e o negro que em contato formam um arrojado sistema de ocultismo criativo.

Este livro, como os dois que o precedem,[3] trata da exploração do homem em regiões desconhecidas da consciência e seu tráfego com entidades extraterrestres. A concepção de Bertiaux sobre o demônio Choronzon tem fundamental importância para os devotos da Serpente Negra. Choronzon como o Guardião do portal entre o universo conhecido e o universo desconhecido – A e B – se equipara com as idéias concebidas pelo Culto das Sombras que, sem exceção, utilizam este conceito de uma maneira ou de outra. Nos Ritos Petro do Vodu, p.e. o loa é invocado pelas batidas fora do ritmo entre as batidas vibradas na cerimônia de Rada; eles assim aparecem nos vazios entre a luz e a escuridão. A fórmula desenvolvida por Austin Osman Spare para a reativação de antigos atavismos e as afirmações de Lovecraft sobre a existência de entidades não humanas nas profundezas do espaço entre as estrelas.

Historicamente falando, Dr. John Dee (1527-1608) foi o primeiro a deixar relatos concisos entre o trafego humano e seres habitantes de Abismos sem dimensões entre os universos. Três séculos mais tarde Crowley evocou uma destas entidades do Abismo, e é provável que esta evocação causou mais problemas em sua vida mágica do que os demônios de Abramelin evocados por ele anteriormente – conforme a suposição de alguns estudiosos. Bertiaux descreve este Abismo como ‘os reinos gélidos do nada chamado Meon’. Este golfo é a analogia cósmica em termos de infinito, resistência e remodicidade do infinitamente profundo com o infinitamente distante: o abismo normalmente imperceptível entre pensamentos que se submetem a consciência hiper-sensitiva, um insight súbito para dentro do real substrato do Ser. Isso somente é a Realidade, a única Realidade, e isso é Não-Ser – a fonte fenomênica da qual surge o mundo das aparências.

Crowley tinha uma compreensão de Choronzon como a incorporação de terríveis energias do caos cósmico; uma entidade contraditória que reduz cada conceito com o qual está em pleno contato para seu próprio estado indescritível de nada amorfo e fluido. Era uma característica de Crowley reconhecer esta energia como confusão, dispersão, fora de controle; e Sir Edward Kelley, anteriormente, identificara esta energia como ‘o mais terrível e obsessivo demônio chamado Choronzon’. Bertiaux, por outro lado, identifica Choronzon como o Guardião do portal entre o mundo do Ser e o mundo do Não-Ser, tratando-o em concordância com um sistema matemático-mágico de negação dinâmica ates que uma força positiva de ruptura.

Essa interpretação se aproxima bastante da sugeria por Lovecraft que, entretanto, não menciona Choronzon especificamente, mas que se refere a habitantes de dimensões sem espaço entre sistemas universais. Contudo, antes destas premissas, pré-datando até as visões de Dr. Dee, os Adeptos Chineses do Culto Ch’an já possuíam a consciência do guardião Choronzônico do reino do Não-Ser como uma experiência meditativa da consciência sem ego, pois Ser e Não-Ser são contra-partes independentes e como tal somente têm validade para a consciência limitada a um sujeito ou ego. Esta interpretação, completamente distinta de qualquer estigma de moral, retira deste conceito toda forma de horror essencial que a consciência do puro nada deve necessariamente evocar nas mentes que ainda não se dissolveram na Consciência Cósmica. No Ch’an, a construção mágica é totalmente e inteiramente naturalmente ausente, pois Ch’an é um culto místico que se encontra além de todas as categorias de meditação.

Michael Bertiaux desenvolveu um meio mágico para o controle do Abismo, i.e. Meon que o tornou o primeiro a fundar um Culto de Choronzon alinhado aos princípios ocultos formulados por Lovecraft. Lovecraft usa ficção para projetar conceitos da realidade que, nos dias de hoje, são consideradas fantásticas em demasia para apreciação de qualquer médium. Bertiaux traduz os conceitos ou valores Choronzônicos para ‘dimensões meta-matemáticas’, uma ação perfeitamente legítima onde qualquer iniciado de alto Grau pode compreender que a consciência jamais é experienciada no plural, mas sim e tão somente no singular. Isto implica que nada por completo, nem mesmo o não-ser, existe fora da mente.

O foco mágico de poder emanado destas ‘regiões negras metacósmicas’ é localizado em uma zona de poder cósmica abismal conhecida como Daäth.[4] Ela è a undécima Sephira da Árvore da Vida que comumente é chamada de ‘falsa’. Onze é o número dos Qliphoth – o ‘Mundo das Conchas’ – que é o lócus de habitação das Sombras da Escuridão; ela é o portal de egresso para os espaços exteriores além ou atrás da Árvore da Vida. Adeptos do Culto da Serpente Negra têm trilhado este ‘secreto caminho descendente atrás da Árvore, que é muito importante para criação mágica’. Daäth significa Conhecimento, é simbolizada pela Oitava cabeça do Dragão Encurvado das Profundezas que se levanta quando a Árvore é quebrada.[5] É significativo que o número de Daäth, 474, quando adicionado ao número de Choronzon, 333, produz 807, o número entre 806 (Thoth) e 808 (a Serpente Desavergonhada), a interpretação mágica da fórmula da Serpente de Fogo e do Deus Seth (Thoth) é ativada pela evocação de Choronzon. Este, por sua vez, abre os portais para as influências extracósmicas.

A subida na Árvore da Vida é efetivada pela ‘ascensão sobre os planos’ até que a consciência seja fundida com o mais Elevado (i.e. Kether). Afim de reíficar este estado em Malkuth[6] o processo deve ser revertido na Árvore descendente pelas costas do Pilar do Meio. Isso é equivalente ao viparita karani[7] discutido nos Capítulos 4 e 5, em conexão com o Círculo Kaula. Similarmente, a Serpente de Fogo eleva-se no canal espinhal, o Pilar do Meio, adquirindo a consciência mágica dos cakras pelos quais ela passa em sua subida. O Místico retem sua consciência no Brahmandhra,[8] mas o Magista a traz novamente para terra.[9] Esta é a fórmula de Prometeu que roubou o fogo dos céus no tubo vazio.[10] Desta mesma maneira, o Adepto Tântrico traz a Luz para manifestá-la em Maya – o mundo das sombras das imagens ilusórias.

Assim como o Tântrico descobre os poderes mágicos em cada zona de poder iluminada pela marcha ascendente da Serpente de Fogo, também o Magista adota a assunção de formas divinas de cada Sephira na medida em que se eleva sobre os planos da Árvore da Vida. As formas divinas, normalmente, são associadas a deidades com cabeça de animais da antiguidade. Desta maneira, atavismos e forças pré-humanas manifestam-se no magista que experiencia e atualiza, no plano astral, as forças e energias possuídas pelos animais em questão. Adeptos do Culto da Serpente Negra referem-se a este processo como o Mystère Lycantropique constituindo o ponto de ligação entre o Tantra e o Vodu. O Mystère Lycantropique é também o ‘Mistério do Templo Vermelho’ da Magia Atlantiana em sua forma primêva, que tem como segunda manifestação o Mystère L’Ataviqier, que possui – como o nome sugere – afinidades com a fórmula de Spare da Ressurgência Atávica.

O Caminho Secreto através dos Qliphoth nas costas da Árvore segue o caminho para baixo, i.e. para dentro, comporta a assunção de formas animalescas que correspondem aos ‘deuses’ do sistema qabalístico. Esta é uma explicação válida do lobisomem em relação a atavismos pré-humanos.

O Culto da Serpente Negra é baseado no Tantra e no Vodu. Concernente ao Tantra, ‘ele é um sistema baseado na construção de um estado sem-medo no magista ou no yogin.’ Como demonstrado no Capítulo 4, este estado é o atributo dos Bhairavas, que o alcançam pela absorção dos elixires magicamente preparados que bissexualisam o corpo humano, tornando-o auto-generativo e completo, como são os mais elevados deuses. O Tantra e o Vodu são provindos ‘da mais antiga magia Atlanteana do Templo Vermelho’, com elementos do trabalho do ‘Templo Negro’ Atlanteano. O trabalho do ‘Templo Vermelho’ envolve a invocação da Serpente de Fogo, que é a fórmula básica do Tantra, ao passo que o trabalho do ‘Templo Negro’ comporta les cultes des morte, com uma fórmula similar àquela da Postura da Morte desenvolvida por Austin Osman Spare no Culto Zos Kia, mais o Mystère du Zombeeisme.[11]

Os dois points chauds – magick sexual (Tantra) e os ritos de morte (Vodu) – são assimilados no Culto da Serpente Negra por Michael Bertiaux que, com seus ‘diabos e diabruras’ é um dos maiores expoentes nos Mistérios de Choronzon.

A licantropia astral do Culto da Serpente Negra envolve não somente os cominhos secretos dos Qliphoth, mas um grau de projeção astral voluntária denominada Voligeurs, através do qual todos os caminhos da parte de trás da Árvore são percorridos em ‘pulos’. O segredo daqueles saltadores – em distância e em profundidade – é reunido no vevé de Marassas ou Gêmeos.[12] “As Três Colunas[13] são dadas neste desenho com a Coluna central marcando a unidade. Em meu próprio trabalho eu cruzei estas três colunas com o bastão mágico de Saturno, ou Guedhé Nibho, de modo a produzir um modelo para os caminhos dos voltigeurs, assim como os caminhos secretos para as escolas de Iniciação Vodu.”[14] Isso nos dá um ‘diagrama mágico completo’ da Iniciação Vodu:


A ordem mágica da hierarquia das costas da Árvore está sob a égide de Choronzon, Senhor do Caminho Descendente e Guardião do Pilono de Daäth. O número 333 (Choronzon) é também o número do Chacal ou da Raposa (ShGL), o hieróglifo de Shaitan-Aiwass que Crowley invocou como o Supremo Daemon de Thelema (Vontade). Daäth significa ‘conhecimento’ no sentido que a palavra é usada na alegoria bíblica da ‘Queda’; o ‘conhecimento’ que abriu os olhos do homem para a natureza criativa do poder fálico-solar no interior de si mesmo, em especial relação com a mulher que é a manifestação externa deste poder (shakti). Este pilono (Daäth) é o Portal para as costas da Árvore e tem a representação planetária de Urano que é também o Portal para a magick sexual de Seth ou Shaitan, como é praticada no XI° O.T.O.[15]

O uso dos caminhos atrás da Árvore e a evocação das Sombras são carregados de inúmeros perigos porque, conforme observado, os Qliphoth são as sombras destes caminhos, muitos dos quais são sem saída e sem egresso. Cair em alguma armadilha nestes caminhos é entregar a consciência as mais malignas influências encontradas pelo magista. A loucura e a morte reivindicam àqueles que se extraviam nestes caminhos. Estando o magista em um caminho sem saída, e se a força dele é dirigida ao longo deste caminho, ela retrocede contra ele como um bumerangue carregado com a força maligna adicionada as influências psíquicas agregadas por ele durante os seus ‘saltos’.

Apesar do perigo inevitável e constante de super-simplificar estas questões complexas e ocultas, pode ser sugerido que ao passo que o aspecto ordinário da Árvore da Vida representa o Magista em relação aos seus poderes presentes e futuros, o reverso da Árvore tipifica as pré-humanas e extra-humanas influências que impingem a consciência via os pilonos de Daäth. O mínimo destas influências filtra-se, por assim dizer, para frente da Árvore, mas quando o operador passa além do Portal da Undécima Zona de Poder ele automaticamente invoca Choronzon e se torna exposto ao completo ataque de forças atávicas.

O Mystère Lycantropique envolve a assunção da forma de um lobo (ou algum outro animal de natureza predatória) no plano astral. Adeptos do Culto da Serpente Negra explicam a razão desta transformação em termos de uma necessidade de obter periodicamente os conteúdos da subconsciência perdidos ou suprimidos durante a transição do reino animal para o reino dos humanos. Antes de se classificar os dois aspectos da Árvore como ‘bem’ e ‘mal’, os ocultistas da Serpente Negra adotam a atitude do Novo Aeon e observam os aspectos sephiróticos da frente da Árvore como ‘positivos’ e os aspectos qliphóticos de trás da Árvore como ‘negativos’. Um magista somente se torna um Mago quando ele aprende a evocar e controlar estes dois aspectos. As influências sephiróticas são agrupadas em forças positivas e negativas, sendo as positivas agrupadas como ‘Flamas da Luz’ e as negativas agrupadas como ‘Flamas da Escuridão Refletida’: Similarmente as influências qliphóticas são conhecidas como ‘Sombras da Escuridão’ e ‘Sombras da Luz Refletida’, sendo a prioridade dada aos espíritos negativos no caso dos Qliphoth porque eles são negativos em relação aos Sephiroth.

Choronzon é possivelmente uma forma corrupta de Chozzar,[16] o deus negro dos feiticeiros Atlanteanos que é um tipo de entidade extraterrestre tendo um ser espectral ou sombra além das fronteiras de nosso universo. Por meio de um sistema engenhoso de ‘engenharia esotérica’, Bertiaux construiu aparelhos mágicos capazes de receber impulsos de áreas Transnetunianas do espaço que transmitem músicas misteriosas e remotas. Ele também emprega máquinas humanas ocultas conhecidas como ‘furias’, o equivalente, mais ou menos, a Mulher Escarlate de Crowley que pela virtude de suas afinidades com as vibrações telúricas são capazes de explorar níveis chtônicos de consciência pré-larval. Por tais meios, Bertiaux é capaz de aplicar, cientificamente, a fórmula para reativar fases primordiais de consciência elemental. Isto é remanescente da fórmula de Spare de Ressurgência Atávica e é significativo que Bertiaux clame que Spare é um membro de seu Conselho Interno (i.e. astral) de seu culto mágico.[17]

Que estas máquinas, mecânicas e humanas, também compartilham dos kalas, é provado pelas referências de Bertiaux a certos runs e licores que interpretados sob a luz da doutrina Kaula Tântrica, sugerem que elas utilizam as vibrações ofidianas em suas formas Lunares, Netunianas e mesmo Transplutonianas. Concernente a estas máquinas ele observa:

A mais recente invenção para os ocultistas é realmente a redescoberta de uma coisa tão antiga quanto a evolução do universo que é remota de um período absolutamente anterior. Dessa maneira o acumulador mais avançado de energia mágica já havia sido aperfeiçoado no planeta Vênus muito antes da raça humana ter emergido do estado do reino mineral.

Isso me faz lembrar das declarações de Spare com relação às leis mágicas da evolução expressadas em The Book of Pleasure:

A Lei da Evolução é o regresso da função que governa a progressão da capacidade de alcance, i.e. quanto mais maravilhosas nossas conquistas, mais baixa é na escala da vida a função que as governa.

Umas das ‘ultimas’ invenções de Bertiaux é o Zothyriometro. Seu propósito é disciplinar os campos magnéticos astrais e etéricos de energia para dentro de vetores precisos de forças que formam uma rede complexa de zonas de poder. Pelo estabelecimento de intercessões, ou o cruzamento entre dois campos um vórtice especial de energia é criado. Este vórtice pode ser usado para concentrar correntes maciças de poder; ela funciona como um tubo oculto para projeção de força mágica para qualquer dimensão requerida para o plano astral. Esta máquina é baseada no sistema de marmas e sandhis que os Tântricos têm mapeado minuciosamente em relação à anatomia sutil do corpo humano. Eles são exemplificados em um elaborado yantra da Deusa, o Sri Yantra em particular.

Uma outra máquina inventada por Bertiaux é o Mandalum Instrumentum, que ele projetou para facilitar trabalhos de magia cerimonial sem o estorvo do mobiliário físico usualmente associado com sua performance. A Mandala cria e transmite forças mágicas de um ponto para outro. Ela pode ser descrita como um templo abstrato no qual os vários oficiantes são partes da máquina. Bertiaux explica que ela ‘é usada por altos magistas no cerimonial magnético que se desenvolveram no uso do aparato cerimonial convencional de grupo e que, contudo, desejam que seu resultado mágico seja tão eficiente quanto trabalhos em lojas ou templos.’ Aqueles que estão familiarizados com os Rituais de Loja da Loja Nu-Isis,[18] em que cada oficiante representa um ‘canal’ ou ‘foco’ planetário na construção da força da esfera transplutoniana de Nu-Isis notará que qualquer perda residual de energia ocorrida e acumulada durante os rituais, é absorvida e reciclada pelo Mandalum Instrumentum.

O Culto da Serpente Negra é energizado pelos Adeptos do Vodu, e a classificação de suas máquinas mágicas estão em sintonia com o sistema de iniciação Vodu. Eles se dividem em quatro Graus: O Lave-tete ou Iniciado; o Canzo ou Serviteour; o Houngan ou Sacerdote e finalmente o Baille-ge ou Hierofante. Para estes Graus são alocados vários tipos de maquinário mágico. Para o Grau de Iniciados[19] são alocados as máquinas físicas, i.e. todas as máquinas que têm uma funcionabilidade real no plano físico. Para o Canzo são alocadas as máquinas astrais.[20] Para o Hougan são alocados as máquinas mentais; ele trabalha com a faculdade da mente representada pelo Ar. Para o mais elevado Grau, o de Hierofante – representado pelo Fogo ou Espírito – são alocadas as máquinas de intuição. Bertiaux observa que ‘o sistema de plano puramente físico de iniciação foi revivido recentemente por certos ocultistas na América, que se especializam no domínio das máquinas do plano físico.’

As instruções secretas do Monastério dos Sete Raios aludem a um instrumento oculto misterioso que era de conhecimentos dos antigos Chineses com o nome de Kwaw-loon. Muito pouco é dito sobre este instrumento, mas ele é conhecido por ter conexões com a Serpente de Fogo. O Kwaw-loon também é conhecido como o mirroir-fantastique. Ele é feito de substâncias quadridimensionais que refletem e transmitem as correntes ativas e passivas de energia radioativa no plano astral. Sobre as correntes de energia ‘que passam através do Kwaw-loon são transportadas às mensagens para e a partir da quarta dimensão, o mundo do magnetismo astral’.

Sob a luz do fato de que Bertiaux luta pela supremacia absoluta do controle de todos os sistemas mágicos – mundanos e cósmicos – não é de se surpreender que ele já tenha estabelecido uma rede ramificada de influências ocultas sob várias partes do globo, com zonas de poder específicas situadas no Equador, Leogane (Haiti), Madrid, Chicago, e – através da afiliação de seu Culto da Serpente Negra com a O.T.O. – Londres, Nova York e Nova Iorque.

Os ensinamentos secretos internos do Culto revelam sete principais linhas de evolução disponíveis aos seres humanos. O Monastério dos Sete Raios[21] epitomiza estes sete degraus de desenvolvimento e prepara a consciência para o estágio final de evolução neste planeta.

Mas existe um sentido oculto e não revelado no qual as linhas de evolução se referem a mutações de consciência que produzirão sete tipos distintos de ser durante o Aeon presente e subseqüente.[22] De acordo com uma tradição mágica antiga as sete linhas ou fases da evolução foram originalmente presididas por uma das sete estrelas da Constelação da Ursa Maior.[23] A culminação desta tradição no Oitavo ou Mais Elevado foi tipificado pelo nascimento a partir da Deusa de seu filho macho, Seth, cujas forças são manifestas por seu Irmão gêmeo, Horus, Senhor do presente Aeon. A fórmula dos gêmeos é de extrema importância, como já foi observado.

A Antiga Genetrix Odudua[24] suprimiu o nome-tipo de palavras basais vibradas como Od, Ado, Aud. O Vodu incorpora a mesma corrente mágica. O Culto da Serpente Negra nos ensina que o Vodu foi à religião antiga da Atlântida e da Lemuria e que ela sobrevive hoje em dois centros ocultos, um em Leogane (Haiti) e o outro nos E.U.A. (Chicago). As técnicas do Culto da Serpente Negra são desenvolvimentos dos Mistérios ensinados no Monastério dos Sete Raios. Os dois centros citados acima representam as duas formas do Vodu. O centro da forma primitiva no Haiti, e sua forma mais refinada – conhecida como Voudon Cabala – em Chicago, Illinois. A magick sexual é a base de ambos estes centros, nos quais a serpente de Fogo é equiparada com a radioatividade sexual ou o magnetismo astral. Isso é localizado em diversos centros corporais, a saber: a base da espinha, as palmas das mãos, e nos próprios centros sexuais.[25] Este esquema é baseado na antiga tradição Africana que trazia reminiscências dos ensinamentos Atlanteanos. A Bruxaria da Antiga Atlântida alcançou sua apoteose no nosso sistema de mundo durante o período das civilizações Egípcias e Maias. Estes quatro centros básicos de radioatividade sexual captam as ondas mais concentradas de energia astral conhecidas pela ciência oculta. Os Alquimistas da tradição Afro-Vodu as conheciam como radio-activitas sexualis, tendo quatro pontos de referência de zonas de poder no corpo.

No Culto de Thelema de Crowley representado pela O.T.O.[26] as energias ódicas são liberadas por uma forma de massagem ou masturbação mágica que, de acordo com Bertiaux, ‘estabiliza o campo astral do magista e forma sua força magnética mais harmoniosa e tranqüila’. I.e., naturalmente, porque a masturbação é o que se recorre em termos de ansiedade; e é uma forma natural de relaxamento que é instintivamente aplicado na vida diária:

A atividade sexual é a maior forma de terapia porque a radioatividade sexual é a mais poderosa dos campos astrais magnéticos.[27]

Esta forma de terapia pode ter mais do que um efeito tranqüilizante ou efetivamente negativo, ela pode ser usada como uma forma de proteção contra o vampirismo sexual, que é excessivamente freqüente hoje em dia devido à quebra e colapso dos antigos códigos estabelecidos para o comportamento humano. Bertiaux, que tem ampla experiência em trabalhos sociais e campos colaterais de atividade, é da opinião que:

Agora mais do que nunca nós atraímos entidades sexuais de dimensões de eras passadas cujas vidas dependem da absorção da radioatividade sexual.

Parte da liturgia da Ecclesia Gnostica Spiritualis, composta e dirigida por Bertiaux, contém invocações mágicas que protegem o magista contra o vampirismo sexual durante o curso de suas operações mágicas.[28] As invocações são construídas de tal maneira que as palavras formam um padrão mântrico carregados com vibrações que formam um escudo impregnado contra todos os tipos de ataques. Uma parede de luz circunda o magista, luz carregada com poder fálico-solar canalizado do Sol de nosso sistema. Os habitantes dos Qliphoth não podem apropriar-se dos fluídos sexuais ejaculados no momento do orgasmo e na hora em que os centros magnéticos positivos e negativos estão completamente em conjunção[29] transmitindo uma atividade meta-sexual e eletroradioativa. Quando vistos clarividentemente, esta parede parece um escudo de luz cintilante. A versão de Crowley para esta prática foi à assunção da forma divina de Harpocrates: um ovo de luz azul vívida salpicada com ouro; como um céu de verão sem manchas cheio de raios de luz solar. Vampiros sexuais, vendo esta parede radiante de luz, são atraídos precipitadamente em direção a ela e se destroem em pedaços, ou – se ela é especialmente carregada – são literalmente eletrocutados no impacto. Este escudo de proteção é tão perfeito que em sua impregnabilidade nem mesmo os Mestres podem quebrá-lo para atravessá-lo. O escudo continua a existir até o momento em que o magista o bani por um ato de vontade. Neste momento a energia sexual acumulada dentro dele ‘explode sobre a atmosfera externa criando um flash de luz astral que além de cegar, pode destruir qualquer entidade hostil que esteja ao redor do campo magnético do magista.’ Se não dissolvido pela vontade, o escudo astral – após sete ou oito horas – gradativamente perderá sua potência e se deteriorará, emitindo no processo um vapor branco azulado que muitas vezes é confundido com a radioatividade sexual em sua forma recém-liberada. Bertiaux notou sombras sutis de cor características de cada fase das emanações radioativas. Elas têm suas tonalidades mudadas em concordância com o estágio de sua evolução, o flash sendo uma luz branca que cega ao passo que os últimos estágios de decadência parecem púrpura’.

Devido a sua natureza fugitiva, a radioatividade sexual é muito difícil de se analisar; portanto o melhor é estudá-la enquanto está contida dentro da parede de luz protetora. O rationale do Vodu, que se relaciona primariamente com a manipulação de energias ódicas no corpo humano tem, portanto, uma relação com a radioatividade sexual. De acordo com os Tântricos, a vibração lunar que emana da fêmea durante o período catamênio é também altamente radioativa, e embora os Ocultistas da Serpente Negra não façam específica menção a este fato, Bertiaux se preocupa com a exploração dos misteriosos ‘runs’ e ‘elixires’ transmitindo a impressão de que o culto não está alheio às técnicas desta natureza. Especialmente quando nós consideramos as shaktis ou ‘furias’ que ele reúne sobre si durante a performance dos ritos.

Bertiaux dá atenção ao fato de que:

A atividade sexual radioativa não é igual ao fluído sexual produzido pelo homem no momento do orgasmo. O fluído sexual é mágico em um sentido não desenvolvido,[30] e deve ser bombardeado por emanações de mercúrio e nitrato de prata e sob condições completamente controladas antes de possuir o poder mágico que alguns clamam ele ter.

Aqui, eu penso, nós temos a indicação dos kalas e as vibrações lunares ofidianas que são tão importantes no Tântrico Círculo Kaula.




[1] Nascido em Chicago, Illinois, 1935.
[2] Ele foi representado em Là-Bas, uma novela de J-K Huysmans baseada na experiência do autor nos lados sombrios do ocultismo.
[3] O Renascer da Magia (1972) e Aleister Crowley & o Deus Oculto (1973).
[4] Veja a Árvore da Vida.
[5] Em seu comentário do Décimo Aethyr, Liber 418, Crowley diz: ‘A doutrina da ‘Queda’ e do ‘Dragão Encurvado’ deve ser estudada cuidadosamente. The Equinox, vol. I, nos. 2 e 3 trazem muitas informações com seus diagramas [...] veja também Líber 777.’
[6] I.e. afim de ‘aterrar’ a consciência mágica.
[7] Reversão dos sentidos.
[8] O mais elevado cakra na região da sutura craniana.
[9] Malkuth-Muladhara.
[10] O Pilar do Meio, a coluna espinha ou sushumnanadi.
[11] O Mistério do Zumbeísmo também é derivado do ‘Templo Negro’ da antiga Atlântida onde é assumida a forma divina do animal-homem ou lobisomem. Neste caso a forma divina de Carrefour ou Carfax, Deus da morte. Um sinônimo também para Kalfu, Deus das Encruzilhadas (i.e. entrecruzamentos vibracionais). Uma forma de Baron Samedhi ou Baron Cimitière, Senhor do Submundo e da Morte.
[12] A fórmula dos Gêmeos é fundamental nos Cultos da África primêva. Ele foi continuado no Egito como o complexo Seth-Horus. O sinal dos Gêmeos (Gemini) é de particular referência no Novo Aeon. Em A Doutrina Cósmica, Dion Fortune observa: ‘Ter em mente [...] o Sinal de Gemini, pois as forças significantes que este Sinal influenciou a antiga Atlântida ainda influenciarão a Terra no fim da presente era.’
[13] As Três Colunas da Árvore da Vida.
[14] Michael Bertiaux. (O Vodu descrito aqui é uma escola de mistérios iniciáticos, portanto, diferente do Vodu Tradicional.
[15] Conforme expliquei em Aleister Crowley & o Deus Oculto (Capítulo 7), o XI° não comporta necessariamente o uso de fórmulas homossexuais; ao contrário, ele envolve o uso da yoni em sua fase lunar, esta é a fórmula do ‘outro olho’, ayin ou yoni, que é conhecido pelos iniciados da Corrente Ofidiana como o ‘Olho de Seth’.
[16] O símbolo desta deidade negra lembra o tridente de Netuno, que é o nome pelo qual Chozzar é reconhecido pelos profanos. A letra Caldéia Shin com sua ‘língua tripla de fogo’ é atribuída a Seth ou Shaitan. A palavra ‘chozzar’ significa ‘porco’. Este animal foi adotado pelos Draconianos como um símbolo de Set. Nos Cultos Tântricos do Vama Marga o porco foi escolhido como um símbolo secreto porque ele é o único animal conhecido que como excremento humano. Veja Aleister Crowley & o Deus Oculto, Capítulo 6.
[17] Outro espírito humano desencarnado clamado por Bertiaux é o Abade Boullan (1824-93), um ocultista Francês cujo nome e atividades provavelmente permaneceram desconhecidos ao mundo por muito tempo, mas pela atenção recebida por J-K-Huysmans, que utilizou Boullan como modelo para ‘Dr. Johannes’ em sua novela, Là Bas, ele tornou-se melhor conhecido. De acordo com a Enciclopédia do Sobrenatural (Ed. Richard Cavendish, L&PM Editores, 1993) ‘Boullan acreditava que o caminho da salvação somente se daria através do intercurso sexual com arcanjos e outros seres celestiais.’
[18] A Loja Nu-Isis (conhecida Externamente como Loja Nova Isis) foi um braço da O.T.O. fundada por Kenneth Grant em 1955 para os propósitos descritos em Aleister Crowley & o Deus Oculto, Capítulo 10. A Loja operou por sete anos e fechou após os seus propósitos serem cumpridos.
[19] Regido pelo elemento terra.
[20] O Canzo trabalha no mundo das águas ou o mundo fluídico dos sonhos.
[21] Este é o Colégio Externo que possui no Culto da Serpente Negra os ensinamentos do Colégio Interno.
[22] I.e. o Ma-Ion anunciado por Frater Achad. Veja Capítulo 8.
[23] Veja Capítulo 3. A Ursa Maior representa a Deusa das Sete Estrelas.
[24] Veja Capítulo 2.
[25] Veja Capítulo 1, diagrama.
[26] Especialmente no VIII° Grau.
[27] Michael Bertiaux.
[28] O magista do Caminho da Mão Esquerda, que habitualmente faz uso da Corrente Ofidiana em sua manifestação sexual, tem mais propensão a ser atacado pelos habitantes dos Qliphoth do que o magista que emprega o embaraçoso mobiliário da magia cerimonial.
[29] I.e. quando o macho e a fêmea unem os terminais gêmeos de suas respectivas zonas de poder.
[30] I.e. em sua fase potencial. Este é o poder atribuído a prática mágica conhecida como Karezza. Veja Aleister Crowley & o Deus Oculto.

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