sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Minha Jornada nos Caminhos da Noite #3



Parte . I I I .


Jeanine Medeiros
Sob a supervisão de Fernando Liguori


O CULTO DE LAM


Anteriormente, eu falei um pouco sobre minha experiência com o Lado Noturno no percurso me minha caminhada na Ordo Tifoniana Occulta, antes conhecida como O.T.O. Draconiana.[1] Falei sobre as operações mágicas da Loja Shaitan-Aiwaz, o Ritual da Serpente de Fogo, a função da sacerdotisa no ritual, a utilização dos kālas na magia sexual, os Qliphoth etc. Cada tema abordado sob a perspectiva da Magia Tifoniana. Nessa terceira parte vou falar sobre minha experiência no Culto da Lam.

Por volta de 1919, Aleister Crowley (1875-1947) estava envolvido na confecção de uma série de desenhos conhecidos como Almas Mortas. Influenciado pelos psicocromos ou almas-pintadas de Leon Engers Kennedy (1891-1970), o artista que pictorizou Crowley como yogī, ele expôs seus desenhos no Greenwich Village, Nova Iorque, onde, pela primeira vez, revelou ao mundo a imagem de Lam. Naquele mesmo ano ele publicou a imagem no frontispício de seu comentário sobre A Voz do Silêncio de Blavatsky, publicado no The Blue Equinox. A imagem de Lam foi produto de uma séria de rituais mágicos ocorridos em 1918, conhecidos como a Operação de Amalantrah. A imagem foi recebida pela médium Roddie Minor (1884-1979) – «O Camelo» – a Mulher Escarlate de Crowley na ocasião.

Crowley nunca publicou qualquer explicação sobre a imagem de Lam.[2] Todavia, por volta de 1941, ele recebeu em seu apartamento de Londres, na Rua Jermyn, a visita de uma americana que observou o retrato de Lam na parede. Os fatos indicam que ela achou repulsivo o retrato e perguntou a Crowley quem era. «Meu Guru», ele respondeu. Em minha experiência, Lam é a máscara de um estado dinâmico de Gnose, não uma mera entidade. O contato com Lam é a entrada no continuum de Maat ou o vácuo extraterrestre de Nuit.

Meus primeiros passos no Culto de Lam

Eu iniciei os trabalhos com o Culto de Lam quando fui admitida ao IVº O.T.O. Nos dois Graus subsequentes, o Vº e o VIº, estive envolvida na exploração das Células Sethianas através de dois métodos básicos: o Tarot das Sombras e a exploração ctoniana utilizando Lam ao mesmo tempo como um Portal e uma Capsula de Exploração.

Minha porta de entrada no Culto de Lam foi o Manifesto da O.T.O. Tifoniana Concernente ao Culto de Lam escrito por Kenneth Grant. Seguindo as instruções desse pergaminho mágico, eu iniciava minhas práticas dentro de um Círculo Mágico. Naquela época, era uma tarefa imprescindível como ordálio do IVº Grau construir um Templo onde eu pudesse no futuro, ao me tornar Preceptora da Ordem, receber e instruir outros membros dos Graus abaixo do meu. Eu não consegui construir um Templo equipado, a exemplo da Loja Shaitan-Aiwaz, mas ergui um santuário que proporcionava espaço para traçar um Círculo de Proteção. Começava com o Ritual do Pentagrama nas oito direções do espaço seguido pelo Ritual do Hexagrama. Sentava-me de frente para imagem de Lam e silenciosamente invocava Aiwass. Na maioria das vezes sentia minhas pernas fracas e por alguns segundos perdia a orientação espaço-temporal. Com o tempo eu conseguia perceber uma mudança clara no meu nível de consciência, como se estivesse utilizando uma planta de poder mais branda. Nesse estado eu visualizava a cabeça de Lam como uma nave que ao mesmo tempo me protegia e me transportava a dimensões que tinha intenção de explorar, fosse através de um sigilo mágico ou yantra qliphótico. Eu olhava através dos olhos de Lam e sentia meu rosto idêntico à imagem. A partir daí eu me via dentro de um mundo de experiências místicas. Recebia mensagens, visões de entidades e formas geométricas, sigilos. No início eu não consegui lidar bem com essas experiências. Sempre tive dificuldade com o inusitado, como relatei anteriormente. Mas com o tempo e a ajuda de Frater Asvk essas experiências se tornaram mais tangíveis e conquistei certa habilidade em me identificar com Lam, o que promoveu um entendimento mais profundo – e bem particular – da Gnose Thelêmica.

O trabalho de grupo na O.T.O. foi suplantado pelo trabalho individual – como na A\A\ – e cada membro da Ordem se tornava um foco de energia na Terra e a projeção de uma Estrela no espaço. Desta maneira, uma complexa rede de entrelaçadas correntes de energia emergia, modelada através dos aspirantes que trabalhavam individualmente, estimulando a construção de uma egrégora. Esta egrégora provou ser o foco ou núcleo de energia para o contato com inteligências além da capacidade humana. Em 1944, Crowley escreveu:

«Minhas observações sobre o Universo convencem-me que existem Seres de inteligência e poder de uma qualidade muito superior do que qualquer coisa que nós possamos conceber como humano; eles não são necessariamente baseados nas estruturas nervosas e cerebrais que nós conhecemos; a única chance para a humanidade avançar como um todo é fazer com que individualmente cada humano entre em contato com estes Seres.»

A magia, conforme a concebemos, trata-se da comunicação com entidades não humanas. O trabalho com Lam e outras Inteligências supra-humanas tem como consequência a expansão e o aprofundamento da consciência humana, bem como a penetração da consciência em outras dimensões. Essa consequente expansão e aprofundamento da consciência também capacita o Iniciado a transcender as aparentes limitações de uma visão do tempo linear e sequencial. Um exemplo disso ocorre quando se considera a sucessão dos aeons e suas relações com a Precessão dos Equinócios. De acordo com esta visão, nos encontramos atualmente nos primórdios do Aeon de Horus, que durará aproximadamente 2,000 anos antes de ser sucedido pelo Aeon de Maat, a Era da Verdade e da Justiça. O tempo, contudo, é parte e parcela da ilusão da manifestação e não tem sua «manifestação» na direta experiência mágica ou mística. Os aeons representam níveis de Iniciação e ocorrem simultaneamente. A consciência apropriada para cada um dos níveis ou extratos está disponível para o Iniciado, que está a partir daí capacitado a se locomover de um nível para outro à vontade. Restrições temporais são dissolvidas através da experiência direta da consciência pã-dimensional e atemporal.

O retrato de Lam é usado como um Portal para penetração da consciência em outras dimensões. Em suas fronteiras, a infinitude cósmica e o inconsciente coletivo mesclam-se e se unem. Em épocas anteriores, os navegantes eram orientados pelas posições das estrelas. Os ocultistas dos dias atuais são psiconautas que navegam no oceano sem fim do Sagrado Anjo Guardião, sendo guiados pela luz da consciência enquanto cruzam ilhas obscuras e esquecidas.

Os iniciados que trabalham individualmente com o Culto de Lam têm alcançado a consciência da corrente energética de Aiwass, entrando periodicamente em contato, através de Lam, com o atual Chefe Secreto da humanidade, o que nos encoraja a progredir. Nosso lema é Asta Aiwass Vina, o que significa que «Nós somos Guiados por Aiwass».

Em minha experiência com o Culto de Lam eu recebi indicações muito claras de que Aiwass e Lam são a mesma Inteligência e que a corrente energética de Aiwass se materializa como Lam quando emerge através da consciência humana.[3]

Aiwass é uma Inteligência desencarnada, uma Mente que vibra em uma frequência extremamente alta, sem forma e sem fronteiras, mas que pode às vezes se focalizar e agir através da consciência humana. O potencial energético é maior do que o sistema nervoso humano pode suportar por um breve período de tempo. Ele se funde através de uma variedade de mecanismos de defesa, portanto, que agem como absorvedores e transformadores. As vibrações tornam-se mais lentas até que estejam compatíveis com a ressonância psíquica humana. Neste ponto, o campo energético humano age como uma antena e o psiconauta tem a sensação de que Aiwass está dentro dele. Ele age somente como um receptor, aparentado talvez como um rádio ou televisão recebendo sons ou imagens do exterior. Aiwass sempre está além do alcance de nossa percepção, simplesmente porque ela está sempre se movimentando. Aiwass pode ser considerado como um lago de consciência com inúmeras fronteiras, uma Mente Cósmica esperando-nos nos limites de nossa realidade.

Está claro de Crowley sabia da relação entre Lam e Aiwass. Em uma conversa particular com Frater Asvk, ele me disse na época: « Lam é Aiwass. Crowley quando olhava para seu desenho de Lam sussurrava Aiwass e o considerava «o Caminho e a Vida». Lam é Aiwass! Lam é a manifestação de Aiwass como um de seus aspectos na consciência humana ou um avātar de Aiwass.

Eu comecei a unir a exploração qliphótica e o Culto de Lam quando iniciei meus trabalhos na Célula Noturna. O Tarot das Sombras de Linda Falorio foi imprescindível nesse processo. A Célula Noturna tinha um trabalho próprio de exploração qliphótica com esse Tarot, assunto que pretendo desenvolver na sequência desse texto. Utilizando o Tarot das Sombras, Frater Asvk proveu a seguinte instrução:

Seguindo os procedimentos mágicos de costume, sente-se de frente a carta que representa a sentinela. Procure, por alguns instantes, assimilar o máximo de informações possíveis sobre a carta. Isso é necessário para que possa se familiarizar com os símbolos da carta que representa o túnel.
Em seguida, olhe fixamente para o retrato de Lam até que a sonolência sobrevenha. Com o olhar fixo naturalmente se concentrará nos olhos; eles parecerão alargarem-se e absorverão sua consciência. Neste momento você sentirá uma estranha sensação de que se encontra dentro da cabeça de Lam. Dois caminhos estão agora abertos: um para cima, outro para baixo. Se for para baixo a descida será acompanhada por uma sensação aérea que pode chegar à força de um furacão. Uma profunda escuridão vai engolfar a mente na medida em que entra no escuro túnel atrás da boca de Lam. Nesta quietude o contato pode ser estabelecido com a rede de túneis que se ramificam para baixo em direção à base de Lam. Estes transportam a mente para dentro de um violento vórtice e a consciência parecerá difusa em uma variação de formas que são transportadas rapidamente para cima se fundindo em uma única forma. A fusão ocorrerá entre os olhos de Lam, na região do ājñā-cakra. O mantra Ipsoslam ou Lamipsos deve então ser vibrado conforme forem os túneis para cima ou para baixo.

Ipsos é a Palavra do Aeon de Maat enquanto que ipsoslam é um mantra para invocação de Lam. Através dessa técnica de projeção e visualização, eu utilizava Lam como um Portal. As cartas do Tarot das Sombras eram as chaves que abriam o portal para minha jornada nos caminhos da noite.

O Culto de Lam no Soberano Santuário da Gnose

Demônios, Anjos, Deuses e Inteligências cósmicas são partes de uma realidade subjetiva para muitos ocultistas e gosto de pensar que as fronteiras entre as realidades subjetivas e objetivas não estão fixas. Talvez o exemplo mais familiar nos tempos modernos de um contato real com Inteligências extraterrestres seja a recepção d’O Livro da Lei via uma entidade poderosa e desencarnada conhecida como Aiwass. Mas esse tipo de contato sempre foi negligenciado pelos thelemitas que se focam apenas na busca e nos significados ocultos d’O Livro da Lei e as soluções para seus muitos mistérios. As Chaves deste grimório mágico só podem ser decifradas sob a «influência» de uma inteligência praeter-humana. Em minha experiência com o Culto de Lam aprendi que é de importância primária estabelecer este tipo de contato. A O.T.O. desenvolveu métodos efetivos para este trabalho excitante, embora perigoso. Um deles é baseado no controle onírico através da magia sexual. O método envolve o congresso sexual com entidades supramundanas através de uma técnica que nos induz ao sonho lúcido. Aqui, o fator crítico é o estado de gnose do magista que, durante a operação mágica deve estar com o subconsciente completamente aberto, em um estado nem desperto ou completamente adormecido. Esta técnica de controle sexual onírico foi formulada a partir do sistema de sigilização de Austin Osman Spare[4] e do sistema de lucidez erótica-letárgica da O.T.O.[5] Antes de cair adormecido, o magista deve praticar karezza[6] (estimulo sexual que não culmina na ejaculação), enquanto visualiza vividamente um sigilo[7] especialmente elaborado para simbolizar o objetivo desejado da operação. A libido é desta maneira impedida de se expressar imediatamente, buscando sua satisfação no mundo dos sonhos. Quando a técnica é dominada, o sonho torna-se extremamente intenso e é tomado por um súcubo «mulher-sombra» ou íncubo «homem-sombra», com quem o congresso sexual acontece espontaneamente. Mesmo com um grau moderado de proficiência, o magista estará consciente da contínua presença do sigilo. Ele deve manter o sigilo sobre a Sombra «súcubo ou íncubo» a todo o momento, inclusive com profunda visualização durante o intercurso sexual. O sigilo torna-se carregado pela energia gerada pelo rito e no devido curso o objetivo da operação se materializa.

Em uma instrução intitulada Os Amantes de Nuit para o Soberano Santuário da Ordem, Frater Asvk apresentou um conjunto de técnicas sexuais atualizando o Culto de Lam para os Graus VIIº, VIIIº e IXº O.T.O. As técnicas envolviam a visualização de Lam como a kuṇḍalinī tanto nos rituais de magia sexual monofocal do VIIº, magia sexual duofocal do VIIIº ou magia sexual polifocal do IXº.

Na minha prática pessoal, realizava um trabalho com os cakras visualizando Lam como a Serpente de Fogo. Diferente da técnica publicada pela Starfire,[8] o método empregava a excitação sexual sem culminar no orgasmo. Às vezes eu utilizava a maconha para o aumento da gnose, quando a experiência ganhava outros patamares. Tentei utilizar ayahuasca uma vez, mas o estado de transe que a planta proporcionou me tirou completamente da realidade e foi impossível adicionar a gnose sexual.

Ainda estou esperando por novas instruções...





[1] Embora o sistema seja o mesmo, i.e. a tradição Draco-Tifoniana, não existe relação entre a extinta O.T.O. Draconiana e o atual trabalho do Círculo Tifoniano.
[2] Isso permitiu o desenvolvimento de um «culto» distinto dentro da O.T.O.
[3]Um pioneiro nas experiências com o Culto de Lam foi o fundador da Associação Psicotrônica na Iugoslávia, Zivorad Mihajlovic-Slavinski (1937). Bispo da O.T.O. Antiqua de Michel Bertiaux e Xº Grau da O.T.O. Tifoniana, Zivorad publicou livros importantes como Yoga: Treinamento Psíquico [Yoga: Psychic Training], As Chaves da Magia Psíquica [The Keys of Psychic Magic] e muitos outros, além de uma novela intitulada A Aurora de Aiwaz [The Dawn of Aiwaz]. Ele é Fundador da Ecclesia Gnostica Alba (EGA), uma comunidade de iniciados com muitos afiliados. Em uma de suas experiências, ele relatou: «Eu pude perceber Aiwass-Lam agindo através de outra Inteligência que se identificou como Tesla. Em uma incursão mágica através do Culto de Lam eu travei contato com a consciência da corrente energética de Aiwass. Na ocasião recebi uma distinta mensagem: «Sim, eu ajo através de Tesla: seu nome contém a prova!» Durante meses essa mensagem me perseguiu, pois não conseguia decifrá-la. Mas um dia me vi brincando com minha mente quando percebi que Tesla podia ser lido como AL-SET. AL é naturalmente uma referência a O Livro da Lei, enquanto Seth refere-se à Aiwass.»
[4] Culto Zos Kia «C.Z.K.».
[5] Lucidez erato-comatosa, técnica formulada por Ida Nellidof para o VIIº O.T.O. Crowley teceu um comentário sobre o tema em Liber 414: De Arte Mágica.
[6] Os ensinamentos da magia sexual monofocal do VIIº O.T.O. incluíam o linga e yoni-pūjā, técnicas tântricas de adoração ao falo e a vulva.
[7] Neste Grau é requerido que o magista tenha uma capacidade de visualização firme, constante e estável. Para isso é necessário uma mente unidirecionada. Veja os artigos A Concentração & sua Importância e Manaskriyā, partes #1 e #2, por Fernando Liguori.

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