sábado, 1 de novembro de 2014

O Magista Solitário





Fernando Liguori


Trecho do livro «Magia no Dia-a-Dia», em processo de publicação.


O título deste livro e o nome deste capítulo podem ser enganadores. Parto do princípio de que a magia é uma ciência e como tal ela respeita certas leis.[1] Contudo, a Arte não está somente conectada a operações mágicas intricadas ou rituais pré-elaborados. A magia se manifesta em nossa vida, no dia-a-dia, de maneira natural e simples. Ela ocorre por si mesma o tempo todo, é nossa mente que interfere nesse processo natural. E não importa quantos grupos ou ordens mágicas você possa estar conectado, na execução da magia você sempre será solitário. A magia atua através do esforço pessoal e como seres humanos nós apenas temos um universo no qual e com que trabalhar: nós mesmos. Sejam lá quais forem às circunstâncias, no ato da execução da magia ou Ato Mágico,[2] apenas você, o magista solitário, poderá executá-lo. Portanto, este livro não contém fórmulas mágicas ou rituais sofisticados, cheios de parafernália oculta, seu objetivo não é esse. Este livro tem a intenção de esclarecer e oferecer um direcionamento inicial a ocultistas no início de sua carreira mágica através de apontamentos, orientações e o relato de minha própria experiência pessoal.

Meu primeiro contato com a magia foi aos oito anos de idade. Ao passar por uma experiência espiritual que chamei de A Visão de Deus,[3] me inclinei pelo caminho da magia. Lembro-me que estava vindo da escola quando passei na frente da Livraria Vozes e um livro me chamou muito a atenção. Sua capa era verde e continha um pentagrama no frontispício. Seu nome era Dogma e Ritual de Alta Magia, de Éliphas Lévi (1810-1875).[4] Até os doze anos eu já havia consumido toda a obra de Lévi e Papus (1865-1916).[5] Nessa época me lembro de ter feito uma pergunta a mim mesmo: mas como é que vou praticar isso tudo?

Aos doze anos eu procurava por um manual que pudesse me dar os primeiros direcionamentos: como me portar, como adquirir ou confeccionar armas mágicas, como escrever um diário mágico, como construir um Templo ou uma Loja em casa para a prática da magia, como escrever meus próprios rituais etc.[6] Sem a pretensão de produzir um manual definitivo sobre o assunto, me permito dissertar nos seguintes capítulos um pouco acerca dos passos iniciais no caminho da Arte Régia.

Existe certo glamour em participar de ordens mágicas. Além do status e da promoção advindos da participação de organizações ou grupos ocultistas, é muito comum no início da jornada pensar que somente através delas poderemos avançar. Isso não é real. Para ser um magista você não precisa participar de ordem alguma. Sua escola é o Templo que construir em sua casa e você é seu próprio professor. Você mesmo pode ser uma ordem mágica. E não se engane: mesmo que consiga um tutor avançado no caminho ou adentre a alguma organização ocultista, você continuará enfrentando os mesmos obstáculos e desafios que enfrenta agora e terá de executar a magia sozinho, como faz agora. Não importa o grupo, você sempre será um praticante solitário.

É comum ao ser humano desejar fazer parte de algo, pertencer a algum grupo, em todos os aspectos da vida. O magista tem de eliminar essa aflição.[7] O grupo corrompe a identidade pessoal do magista, alienando sua busca. A imagem tradicional de um mago é um homem grisalho, barbado e de meia idade, retirado em seu templo/casa, em meio a livros, artefatos mágicos e a natureza ao seu redor. A pictografia tradicional do mago é um homem isolado em sua busca espiritual. Quando assumimos a identidade do grupo nos esquecemos de nós mesmos. Portanto, o primeiro passo, como veremos mais adiante,[8] é encontrar sua identidade e preservá-la, para que você entre no processo de realização de sua Verdadeira Vontade.

Como seres humanos, somos influenciados e afetados pelo meio e pelas pessoas que nos cercam. Da mesma maneira, nossos pensamentos e comportamento influenciam o meio em que vivemos e as pessoas com quem partilhamos. Se as pessoas ganham certo nível de iluminação e equilíbrio como subproduto de nossa realização espiritual e autoconhecimento, maravilha. Entretanto, permanecemos sós, no laboratório mágico construído em nossa casa e nosso universo são nossos livros, o cérebro e a alma.

A falta de experiência nos leva a executar rituais pré-elaborados como o famoso Ritual do Pentagrama e outros. Às vezes começamos a estudar um sistema de magia e nos afinizamos de tal maneira que assumimos a identidade daquela fórmula mágica. Começamos a executar seus rituais tradicionais e pensamos estar caminhando na direção correta. Contudo, é um erro gravíssimo pensar que iremos realizar a Grande Obra repetindo exaustivamente rituais pré-elaborados. Não é assim que funciona. Um ritual é como um organismo vivo. Sua execução muda à estrutura química e fisiológica de nosso corpo. Rituais pré-elaborados podem ser bons para o treinamento mágico, mas são péssimos para o cultivo e o desenvolvimento da consciência mágica. Para ser cem por cento funcional, o ritual deve respeitar a estrutura do mapa de sua consciência, de seu universo interior. O ritual deve ser um reflexo de sua natureza essencial e de sua evolução como ser humano. Quando não é assim, os resultados podem ser inúmeros, mas quase nunca os esperados.

Magia é um processo natural, uma jornada passo a passo autodirigida em direção à evolução pessoal. Este processo ocorre seja lá qual for à oportunidade, obstáculo, restrição ou destino que as circunstâncias da vida nos proporcionam. Portanto, seja qual for à situação, uma vez que você tenha descoberto o magista que é, será impossível tirar a magia de todos os aspectos de sua vida. O que faz para viver não será apenas um trabalho, será um trabalho mágico. Suas relações serão com seres mágicos. Seu hobby e o amor de sua vida será a magia. Seus gostos, desgostos, medos, aflições, sonhos, ambições, defeitos e vícios serão mágicos. Tudo na sua vida será magia porque você é um magista.

Este livro não traz nada de novo. Nele, através da partilha de minhas próprias experiências, tento demonstrar como a magia faz parte integral de minha vida. No entanto, mais importante que isso, ofereço lampejos sobre como interpretar cada evento aparentemente mundano do dia-a-dia como uma aventura mágica de grandes proporções.

A jornada se inicia quando acordamos pela manha do sono que obscurece a consciência. Todos nós acordamos pela manha, mas o que nos diferencia dos nossos vizinhos? Como magistas, estamos preparados e dispostos para o processo do despertar interior. Com propósito de continuidade nós despertamos do sono que obscurece a consciência e replicamos aos deuses: «Estou desperto e alerta! Que a jornada comece!»





[1] Veja Capítulo 2: As Leis da Magia.
[2] Idem.
[3] Essa experiência é relatada no Capítulo 4: O Nome Mágico.
[4] Éliphas Lévi, nascido Alphonse Louis Constant, é considerado o maior mago e ocultista do Séc. XIX. Assumindo um nome mágico de origem hebraica para escrever seus livros, Lévi aproximou-se dos qabalístas tradicionais e essa é uma marca indelével de sua obra. Aleister Crowley, apontado como o maior mago e ocultista do Séc. XX, dizia ser sua reencarnação. Kenneth Grant, o mais destacado discípulo de Aleister Crowley, aponta Lévi como adepto da Fraternidade Hermética da Luz. Veja O Renascer da Magia, Madras, 1999.
[5] Gérard Anaclet Vicent Encausse foi um grande mago, ocultista e hábil hipnotizador que fundou a Ordem Martinista moderna, cofundador da Ordem Kabbalística Rosa Cruz, membro destacado da Fraternidade Hermética da Luz e do templo da Golden Dawn em Paris. Deixou uma vasta obra sobre os mais variados temas no Ocultismo e entre elas destaca-se o formidável Tratado Elementar de Magia Prática.
[6] Conversando com um irmão mais velho naquela época, amigo de minha mãe e membro atuante da Sociedade Brasileira de Eubiose, nasceu uma conversa curiosa. Ele possuía uma biblioteca ocultista fenomenal e me lembro de pedir a ele um livro que contivesse rituais e operações mágicas. Ele me respondeu: «você deve escrever seus próprios rituais». Eu me exaltei, típico do adolescente: «você ficou doido?» Serenamente ele respondeu: «qualquer ritual elaborado por você será muito mais forte que qualquer ritual contido nesses livros; o que você precisa é treino e conhecimento, é muito jovem ainda». Aquilo ficou anos em minha mente e foi uma das alavancas que me impulsionou a estudar e conhecer profundamente o organismo por trás dos rituais e operações mágicas.
[7] Patañjali em seu Yogasūtra, obra que inaugura oficialmente a disciplina do Yoga, destaca cinco aflições «kleśas» que obscurecem a consciência humana, produzindo dor, angústia e sofrimento. Os kleśas são: avidyā «ignorância, falta de conhecimento espiritual», asmitā «sentido de egoidade», rāga «atração», dveṣa «repulsa» e abhiniveśaḥ «medo da morte, apego a vida». Desde o primeiro comentário sobre o Yogasūtra produzido por Vyāsa, por volta do Séc. V, abhiniveśaḥ tem sido traduzido como «medo da morte» ou «apego a vida». Mas essa tradução é incorreta. A tradução literal do termo é «desejo de fazer parte». O desejo de fazer parte de um grupo obscurece a verdadeira identidade do yogī. Quando entramos para um grupo assumimos a identidade dele, nos esquecendo de nossa própria identidade. O yogī preza sua identidade pessoal, sua Verdadeira Vontade. Por essa razão, se mantém retirado, eliminando o desejo de fazer parte do grupo.
[8] Veja Capítulo 3.

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