sábado, 8 de novembro de 2014

O Lado Luminoso & Sombrio do Tarot




Fernando Liguori


Texto retirado da apostila do Curso «O Tarot: Um Estudo sobre seu Simbolismo Luminoso & Sombrio», baseado nos escritos de Aleister Crowley, Israel Regardie, Paul Foster Case, Charles Stansfeld Jones, Kenneth Grant & Linda Falorio. Em preparo para ser ministrado na sede do Instituto Kaula em 2015.


Este não é um estudo comum acerca do Tarot. Ao interpretarmos o simbolismo luminoso e sombrio dos Arcanos Maiores e Menores, é impossível não tratar, com um pouco mais atenção, a Qabalah e seu glifo principal, a Árvore da Vida, um símbolo com o qual inúmeros Ocultistas e Filósofos estão familiarizados e que constituiu, em sua totalidade, um mapa do Universo por onde podemos trilhar os Caminhos em direção a Grande Obra.

O primeiro assunto que abordaremos será, portanto, a Qabalah, conforme estudada e praticada no Ocidente, de forma clara e objetiva. A este estudo, incorporamos um material adicional acerca dos aspectos sombrios e pouco conhecidos da Árvore da Vida: as forças tenebrosas conhecidas como Qliphoth, um estudo pouco abordado pela maioria dos Ocultistas. Assim, a Qabalah aqui tratada também é conhecida como Qabalah Daconiana, pois ao mesmo tempo inclui a Qabalah Hermética e a Qabalah Sethiana, quer dizer, um estudo comparativo entre a Luz e as Trevas dentro do universo qabalístico e por extensão, em nossa vida diária.

Ao empreender um estudo acerca dos aspectos luminosos e sombrios da Árvore da Vida e suas atribuições taróticas, é impossível não fazer uma comparação crítica e clara acerca do Caminho da Mão Esquerda (espiritualidade das sombras) e do Caminho da Mão Direita (espiritualidade da luz), mesmo que de maneira breve e passageira. Luz e sombra são aspectos comuns ao homem e ao universo (Yin e Yang). Embora este seja um assunto deveras complicado para mente Ocidental, viciada, intoxicada e embriagada pela jocosa ideia do mal moral, tradições Orientais como o Taoísmo, o Hinduísmo, o Budismo etc., há muito professam sua compreensão de tal dualidade tão necessária e essencial à manifestação da vida e a iluminação espiritual.

O termo espiritualidade das sombras pode assustar os leitores. Ele inclui temas como magia sexual, a busca do deus oculto, a espiritualidade feminina (culto ao sagrado feminino), a utilização de drogas e substâncias naturais psicoativas e o acesso às profundas camadas do subconsciente através de um processo conhecido como ressurgência atávica. Contudo, deve ser frisado veementemente que este termo, espiritualidade das sombras, conforme aqui tratado está isento da conotação pejorativa de «magia negra» ou «diabólica».

Ao abordar este tema, procuramos fazer um trabalho compreensível e relativamente abrangente sobre uma matéria que muito poucos tiveram acesso e menos ainda a compreenderam. Portanto, nossa abordagem foi acessível e direta, desprovida de termos incomuns ao universo de qualquer iniciante. Contudo, sendo esse nosso objetivo, existem termos impossíveis de serem mantidos fora de seu contexto original. Neste caso, fizemos o possível para traduzir seu significado em parênteses ou ao longo do texto.

Nós também podemos dizer que este estudo é de caráter filosófico e religioso, pois nele iremos abordar temas relacionados à espiritualidade e as ciências arcanas e evolutivas, com orientações e procedimentos relativamente eficazes para o pleno desenvolvimento gradual e contínuo da consciência. Procuramos fornecer neste estudo informações que enriqueçam estudantes livres de preconceitos religiosos e científicos, podendo ascender o fogo do insight interior incitando-o a refletir sobre os aspectos profundos de seu ser e sua atual e real condição perante a si mesmo e ao universo que o rodeia. Para isso, é preciso explicar a Qabalah pelo mundo e pelo modo que vivemos, bem como enxergar o mundo pelos «olhos» da Qabalah. Dessa maneira, podemos dizer que estamos diante de um manifesto qabalísta que declara a atual situação humana sob a influência das esferas sephiróticas e qliphóticas (aspectos equilibrados e desequilibrados da Árvore), transmitindo ideias para evolução da condição humana e seu aperfeiçoamento em todas as suas condições. As esferas sephiróticas da Árvore da Vida, i.e. seus aspectos equilibrados, estão obscurecidos na maioria das pessoas e pelo o que podemos observar, o aspecto desequilibrado destas esferas, as Qliphoth e os Túneis de Seth, têm infundido ação e efeito na presente onda de vida humana, eclodindo psicoses, neuroses e traumas de toda espécie no homem.

Embora tratemos da Qabalah e seus aspectos ocultos, este é um estudo sobre o Tarot; mais precisamente, sobre o Tarot de Thoth, concebido por Aleister Crowley e pintado por Lady Harris. Tratar do Tarot de Thoth, por si, já é um estudo deveras profundo que pode auxiliar o leitor no aprofundamento interior e na busca da realização da Grande Obra. Contudo, paralelo aos Atus de Tahuti, procuramos tornar disponível um estudo do Tarot das Sombras.

O Tarot das Sombras pode ser entendido como um complemento contemporâneo do Tarot de Thoth. Ele nasceu do espírito visionário de Linda Falorio que, ao passar pelas terríveis experiências qliphóticas nos Túneis de Seth ou Cárceres de Choronzon, delineou a contraparte ou aspecto-sombra das cartas do Tarot. Para isso, ela se baseou em suas experiências com o lado noturno da Árvore da Vida, conhecido como Árvore da Morte ou Árvore do Conhecimento, e das instruções de Kenneth Grant (1924-2011), posteriormente publicadas no livro Nightside of Eden. Antes de entrarmos um pouco mais no universo do Tarot das Sombras, gostaríamos de tecer alguns comentários acerca das experiências dessa natureza, levando em consideração o problema do «mal» e o «lado noturno» ou «sombrio» em relação às vivências que temos testemunhado, não só no aspecto pessoal, mas na vida de alguns exploradores.

Ao longo de nossa experiência com a espiritualidade das sombras, pesadamente temos presenciado a livre associação de supostas conexões satânicas, malignas e obscuras que simplesmente não têm sentido algum quando relacionadas ao lado noturno ou sombrio da Árvore da Vida. Indubitavelmente, as associações neste caminho são difíceis de serem compreendidas e muitas vezes difíceis de serem transmitidas. Jung fez considerações profundas – mas com ressalvas – sobre o tema, principalmente aquelas publicadas na revista Gnosis, edição The Dark, mas grosso modo, é uma tarefa gigantesca caracterizar as energias do lado noturno e ainda tentar transmitir seu significado as mentes comuns e triviais.

Quando tratamos do lado noturno, sombrio ou negro da Árvore, estamos pisando no terreno de criaturas grotescas, monstros e vampiros astrais, demônios de toda sorte. Mas estes não habitam os «portais» em si, mas a rede infindável de túneis e sub-túneis que constituem a parte de trás da Árvore da Vida. A tradição ressalta que, sem o amparo da Luz do Sagrado Anjo Guardião – adquirida na experiência de Tiphereth (a esfera do sol) na frente da Árvore – qualquer investida no campo sombrio pode ser um desastre, pois o experimentador intrépido, ainda maculado pela personalidade não trabalhada devidamente, pode ser, na melhor das hipóteses, dominado; na pior, desmembrado completamente. Em outras palavras, enquanto a personalidade não for sacrificada no altar do Sagrado Anjo Guardião, é deveras perigoso se lançar a tais experiências, do contrário, o ego e as miríades de neuroses que o acompanham podem se tornar um pesadelo sem fim. A experiência que liberta também aprisiona!

É errado tentar entender estes «locais», os túneis sethianos, nos termos euclidianos. Não há modo de perscrutar ou olhar o túnel de alguma entrada. Não só para «baixo» fica difícil de entender (e também «para cima»), mas estes túneis não são de modo algum acessíveis como um corredor. Cada curva e volta (usando um enquadramento euclidiano por conveniência) são únicos nos caminhos obscuros.

A «sombra» de Jung talvez seja o cognato mais próximo do lado noturno na literatura da psicologia, mas isso é muito pessoal – indiferente aos arquétipos junguianos construídos – ou individual no sentido em que concebemos o lado noturno, amarrado demais à personalidade. A persona-lidade pode viajar pelos Túneis de Seth, e talvez isso seja imprudente, como mencionado acima. O «id» de Freud – uma concepção bem menos completa que a visão de Jung – é ainda menos possível de se conectar ao lado noturno. De qualquer maneira, é perturbadora a ideia de se conectar o mal a escuridão, e isso é muito comum na literatura do ocultismo em geral bem como nos intérpretes de Jung.

Mais relevante ainda é a visão desenvolvida de que o lado noturno seja um repositório ou inventário – um tipo de depósito – de todas as porcarias da espécie humana, sendo ele habitado pelos impulsos e atos humanos como o estupro, o assassinato e tudo aquilo que nós do Século XXI pensamos ser coisas desagradáveis até mesmo de se pensar. Talvez seja o cristianismo misturado com alguma psicologia popular de Almanaque Abril e pensamento religioso dogmático.

Não existe nada de satânico ou mal no lado noturno. Tais concepções simplesmente não têm significado nesse domínio. Elas são estritamente diurnas, estritamente humanas. Sim, o Brasil produz 20.000 assassinatos por ano, incontáveis estupros e mais incontáveis ainda atos de brutalidade insensata e doentia. Quantos foram mortos – e continuarão a morrer – nos conflitos do Oriente Médio, África do Sul, Libéria, El Salvador, Guatemala etc.? Poderíamos dizer quantas crianças foram abusadas, que mais de 20% delas vivem na pobreza, mas isso é muito claro ao leitor «atento». Todo este horror existe no lado diurno, no mundo humano. A recognição de tudo isso é tão nociva para a integridade da personalidade que poucos estão realmente dispostos a ver, abrir os olhos, corações e mentes para seu próprio fedor e mesquinhez como uma espécie do mundo diurno.

Por que praticar magia? Escapar é uma resposta viável, mas não o suficiente para nós. Como escuridão e sombra se encaixam em tudo isso? O Tarot se encaixa nisso? Se as porcarias que as pessoas querem atribuir ao lado noturno realmente «pertencem» ao lado diurno, então por que eles estão tentando atribuir isto ao noturno? Como dissemos, todo esse caos é inaceitável ao nível físico mais básico, especialmente aos tipos sensíveis. Policiais e outros, a fim de sobreviver, devem estar insensíveis a um ponto onde isso seja aceitável. Talvez seja onde as teorias dos renomados psicólogos possam ajudar em nosso entendimento. Na teoria psicanalítica, o que em si mesmo é inaceitável, como o impulso para matar, por exemplo, é «projetado» para algo percebido como o outro ou não-eu. Outro personagem ou uma ideia conceitual como Satã são alvos prováveis da projeção. Para Freud e seus seguidores esta projeção é precedida pela «repressão» das coisas ruins pela «defesa do ego», voltando ao «subconsciente» onde não será mais avistado.

Aqui então vemos a origem possível da confusão. Tanto o «subconsciente» freudiano – como um repositório – como o «id» - como uma fonte de coisas desprezíveis – estão ocultos na luz ou em nossa mente consciente, tal como o lado noturno em circunstâncias normais. Pode ser possível confundir os obscuros Túneis de Seth com a «subconsciência» freudiana. Jung expande muito além de Freud de forma a postular o «inconsciente coletivo» e a «sombra» como sendo de muitas maneiras uma parte pessoal e particular do inconsciente. Sua Psicologia Analítica teve como objetivo declarado à reintegração da «sombra» para a completude da personalidade. Novamente, isto é incluído sob nossa concepção de personalidade diurna. Algumas são mais integradas que outras. Mas ainda todas as coisas de «sombra / inconsciência / id / subconsciência» pertencem à personalidade diurna ou pelo menos ao Self humano. Nosso lado noturno, o Nighside of Eden de Kenneth Grant, são claramente os domínios de experiência não-humana e não está vinculado a nenhuma concepção de pessoa ou personalidade.

Entretanto, as pessoas negam estes domínios e energias do lado noturno; por vários anos e gerações, as coisas do lado noturno foram apartadas de nós enquanto pessoas e espécies. Então nós não podemos usar – ou somos impedidos – estes túneis e suas entidades e energias que vivem em nosso ser.

O obscuro tem muitas ferramentas que permanecem adormecidas para nos auxiliar, mesmo que elas não sejam «de nós» - como o «id» de Freud e a «sombra» de Jung. Anaïs Nin, na Sedução do Minotauro, descreve como o lado noturno pode operar. A história é de uma mulher em uma jornada de auto-descoberta que a leva para o México. Quando retorna no avião, ela teve a seguinte experiência, elucidando não só como o lado noturno pode trabalhar para nós, mas também algo relacionando o pessoal – o «Minotauro» – à escuridão impessoal ou transpessoal:

Lillian estava viajando de volta para casa. Os desvios do labirinto não expõem as desilusões, mas dimensões inexploradas. Arqueólogos da alma nunca retornam de mãos vazias. Lillian havia sentido a existência do labirinto sob seus pés como corredores escavados abaixo da Cidade do México, porém ela teve medo de entrar e encontrar o Minotauro que a devoraria. Contudo ela estava agora face a face com ele, o Minotauro lembrava alguém que ela conhecia. Não era um monstro. Era um reflexo no espelho, uma mulher mascarada, a própria Lillian, a parte de si mesma ocultada pela máscara lhe era desconhecida, que havia dominado seus atos. Ela estendeu sua mão para este tirano que já não poderia feri-la. Ele deitou sobre o espelho vigiando as voltas do avião, viajando através das nuvens, rostos fugazes, ela mesma. Claro e definido somente quando a escuridão chega.

Acreditamos que a perda coletiva dessas ferramentas é amplamente responsável pela incapacidade de nossa espécie em lidar com as mazelas internas que são partes de nós. Portanto, a concepção de escuridão vai muito além de qualquer teoria psicológica moderna, incluindo a psicologia do ego, sistemas teóricos, psicologia fisiológica etc.

Na apresentação deste trabalho, tivemos uma introdução a concepção do Tarot de Thoth, quem sabe o mais completo e enigmático Tarot já produzido. Paralelo a este estudo, como dissemos anteriormente, apresentamos também uma outra versão das cartas até o presente difundidas entre os ocultistas e as sociedades iniciáticas, o Tarot das Sombras.

As cartas do Tarot das Sombras representam nossas energias sombrias: instintos e emoções de uma época remota onde o Feminino mantinha o poder, quando humanos realizavam diálogos com o Reino Obscuro de Ereshkigal, e todo tipo de seres mágicos que existiam no planeta.

Com os nomes antigos na parte de baixo e seus números correspondentes acima (subtraindo 11, pois são os números dos Arcanos Maiores nos Tarots mais tradicionais), cada carta abre um portão ao território inexplorado da psique. As imagens facilitam o acesso ao espaço psíquico, proporcionando a entrada à escuridão de nossa essência, à escuridão dos instintos de um passado arcaico, à nossa herança de força sugada das entranhas da Terra.

Aqui está o sinal do abutre, o pássaro de Maat, a Dupla Baqueta, Filha das Trevas, o alto poder da Lua, a Lua Negra ou Lua de Sangue. Aqui está à entrada para o reino de Plutão-Ereshkigal, o Reverso ou o lado noturno da Árvore.

Enquanto que nas cartas dos Tarots «tradicionais» é descrito o mundo familiar do complexo ego-consciência, no Tarot das Sombras cada sigilo evoca antigas forças sombrias interdimensionais. Cada pintura fornece um meio de integração positiva e aceitação do material obscuro potencialmente explosivo e corrosivo dentro da personalidade sem destruir seu frágil receptáculo.

O método de produção das imagens deu-se a partir dos antigos sigilos mágicos – provavelmente de origem sumeriana ou mais antiga, restaurados por Crowley em Liber CCXXXI – das Qliphoth de cada Caminho diurno. No processo, Linda Falorio mergulhava nestas energias por semanas ou meses através de técnicas meditativas e práticas mágico-sexuais.

Ao invés de ascender pelo caminho de Malkuth como nas explorações diurnas usadas pelas técnicas da Golden Dawn, com este Tarot explora-se os túneis subjacentes pela projeção da consciência através de Daath – «o portal da manifestação da não-manifestação» – a entrada para o lado noturno da Árvore da Vida.

Kenneth Grant aperfeiçoou o processo e o publicou em seu livro Nightside of Eden, inspirado no Liber CCXXXI, «Os Gênios das 22 escamas da Serpente das Qliphoth» de Aleister Crowley, falando dos Túneis de Seth, «uma rede de células oníricas na mente subconsciente», o «reverso» da Árvore da Vida: o «lado noturno» da consciência em oposição à realidade «diurna» ou «luminosa».

Dessa maneira, começamos a integrar os atavismos arcaicos, o mundo do lado noturno da Árvore ou o mundo da sombra através de insights que emergem daquilo que nós como humanos devemos nos tornar através da alquimia interior, alcançado pelo trilhar no Caminho do Xamã para dentro da Terra – os Túneis de Seth – para ter nossos ossos substituídos por ossos de ouro, prata e aço.

A evolução máxima da consciência humana individual à consciência de alinhamento planetário, a própria sobrevivência de nossa onda de vida, depende de nossa entrada à consciência noturna e a integração positiva com ela, readmitindo estas energias potencialmente explosivas e corrosivas em nossa psique.

Longe de ser «negativo» ou «negro» em qualquer senso pejorativo, anos de trabalho com os conceitos e energias desses túneis labirínticos mais do que belos, trazem a realização de pensamentos amplamente inconfessados, há muito culturalmente reprimidos, o lado sombrio da vida profundamente instintiva onde permanece uma fonte de força vital tremenda.

Quando de posse das partes mais relevantes, vivas, completas e sagradas de nós mesmos, estas energias vitais básicas mais «obscuras» podem ser maravilhosamente «daimonicas», nos transformando em seres humanos vibrantes, criativos e completamente atualizados. Somente quando negamos, apartamos, repelimos, reprimimos estas energias que elas se tornam demoníacas, perversas, uma destruidora explosão na consciência, atolando a racionalidade do ego em uma massa psicótica e no pequeno horror diário que nos assola.

Porém os trabalhos no domínio das sombras não devem ser empreendidos levemente. É desaconselhado mergulhar nessas imensidões geográficas internas até que a consciência diurna do magista esteja totalmente integrada, as fronteiras do ego fortalecidas, pois este reino dos Antigos é cheio de terror, cheio de poder, e Ela, a Deusa sem Face, a Sem Rosto, a Portadora do Sangue, é o repositório negro dessa massa de instintos primordiais sempre ocultos atrás de nossas ilusões criadas pelo ego da humanidade individual.

Emergindo da psique disfarçada como sonhos arquetípicos, pesadelos fantásticos, nossos deuses e demônios são memórias profundas de uma época remota quando os humanos perceberam diretamente os Antigos – aqueles grandes Seres cosmológicos interdimensionais que são a essência do Universo. Esta venerável compreensão precipitando como um maremoto através da jovem mente da humanidade e o senso de autoconsciência recém-desenvolvido, choca a consciência que se retira dos mistérios grandiosos demais para estarem contidos dentro da psique nascente.

Através da ruptura da mente bicameral e o isolamento das funções do cérebro direito e esquerdo permitido pelo desenvolvimento tecnológico e a civilização da vida instintiva, os deuses há muito tempo não falam diretamente conosco como fizeram antes. Há muito tempo nós trancamos o portão contra o conhecimento do universo vasto cuja Inteligência pouco se importa com nossas amenas preocupações mamíferas.

A consciência voltou-se para dentro, remetida a adorar seguramente as estrelas distantes. Locais sagrados foram alinhados ao foco da luz de uma estrela solitária sobre altares internos obscurecidos. A grande estrela Sirius foi vista a elevar-se com o Sol no antigo festival de Lammas e põem-se com o sol em Candlemass, enquanto as plêiades põem-se com o sol em Samhaim, levantando-se com o sol no festival de Beltane. Assim o Zodíaco brotou no ser como o padrão universal da Alma.

Conforme a consciência evolui, e o foco alterado, o calendário sagrado foi calculado pela lua e as principais deidades eram femininas; a Grande Deusa em sua miríade de aspectos reverenciada acima de tudo. A mulher foi à origem da vida, o legado de sangue, abrangendo através da linha matriarcal a aurora da humanidade.

A consciência solar fálica patriarcal revela-se como um equilíbrio necessário e um degrau evolucionário além do domínio matriarcal e a respectiva selvageria das formas femininas-lunares. A herança de sangue passou através da linha paterna e um grande estado nasceu. A consciência solar-fálica tornou-se exaltada acima das formas instintivas femininas-lunares, a natureza existiu para ser domesticada, ser explorada, o Feminino em todas as suas formas controlado, a vida terrestre instintiva sacrificada à cobiça desalmada da tecnologia cega.

Na dialética da balança, o pêndulo mais uma vez está oscilando e a consciência promovida na espiral evolucionária. Nossa sobrevivência como raça civilizada capaz de alcançar o auge da consciência psíquica e espiritual, e a transcendência depende de nossa mudança além da massa instintiva da consciência enraizada na tribo, no clã, o sangue sagrado: Sangraal.

Nós espiralamos de volta para requerer as forças potentes que formam nosso âmago humano vital. Procurando recapitular antigas formas femininas do cérebro direito, na realidade estamos em processo de criar uma síntese de ordem superior.

Por redefinição destas energias primitivas da consciência, acessamos e utilizamos os poderes primordiais emaranhados dentro de nosso DNA, realizando uma mutação voluntária das espécies à consciência plena, participação pessoal e identificação com a Gaia planetária.


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