segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Frater Achad & o Culto Ma-Ion




Kenneth Grant
Tradução de Fernando Liguori
Cults of Shadow, Capítulo 8, Frederick Muller, 1975.


UM DOS casos mais interessantes de obsessão mágica nos anos recentes envolve o ‘filho mágico’ de Aleister Crowley, Frater Achad.[1] Um sumário do caso é dado em O Renascer da Magia, Capítulo 9, mas seus níveis mais ocultos podem ser pesquisados somente com referência ao Aeon de Ma, ou MA-ION, o qual – de acordo com Achad – começou no seu 62° aniversário, 2 de Abril de 1948.

Como é bem conhecido, Aleister Crowley foi o transmissor de uma mensagem singular de dimensões supra-humanas,[2] e Achad foi a prova viva desse fato, uma vez que ele representou na vida de Crowley a concretização das profecias inseridas no AL muitos anos antes em que ambos tivessem consciência da existência um do outro. Uma explicação detalhada concernente a este fato foi explicada nas Confissões de Crowley e alusões ao fato abundam vários trabalhos de Crowley, tanto publicados quanto não publicados. O outro lado da história, de Frater Achad, que se separou de Crowley antes de 1920, ainda deve ser investigado.

A descoberta mais importante de Frater Achad foi indubitavelmente que o número 31 – o qual na língua Caldéia é descrito como AL – era a chave d’O Livro da Lei.[3] Isso elucidou muitas de suas passagens obscuras, entretanto, nem todas. À parte de sua aplicação literária é que 31 tem um significado qabalístico importante, pois três vezes 31 é 93, o número chave do Culto de Thelema. A Inteligência que comunicou o Livro a Crowley – Aiwaz – soma 93 bem com o a ‘Palavra da Lei’, (i.e. Thelema, Vontade), e da palavra Ágape (amor), a qual é a Fórmula mágica do Aeon de Horus, inaugurado pela transmissão do AL em 1904. Noventa e três é o número da Palavra vibrada por Achad em 1926 a qual ele considerou ser a Verdadeira Palavra do Aeon; Crowley, de acordo com Achad, falhou em receber a Palavra de Aiwaz.

A principal função do Magus é a proclamação da Palavra do Aeon que ele inaugura, uma Palavra contendo dentro de si mesma a fórmula mágica inteira do Aeon. Achad sustentava que Thelema não era a Palavra pois era ela – precisamente em concordância com AL – a ‘Palavra da Lei’, não do Aeon; e também que Abrahadabra também não era a Palavra, mas sim a Chave dos Rituais. Assim sendo, nem Thelema e nem Abrahadabra preenchem os requerimentos exigidos pela tradição mágica.

Frater Achad insistia que quando o AL fora recebido por Crowley em 1904, ele não havia, naquele tempo, atingindo o Grau de Magus, 9°=2 A\A\. Ele de fato, não possuía verdadeiramente o Grau até onze anos depois, i.e. 1915. Então não é de se surpreender que Crowley realmente havia falhado em receber e proclamar a Palavra do Aeon.

Com o advento do Novo Aeon, uma nova Palavra deveria ser professada, mas antes disso, ela deveria ser recebida. Um Magus, e ninguém mais, é capaz de receber e professar a Palavra. Isso é a Tradição Oculta! Achad clamava, entretanto, ter remediado a omissão de Crowley em professar a Palavra, implicando assim necessariamente que ele considerava ter atingido o Grau de Magus em – ou antes – de 1926, quando ele vibrou ALLALA, a Palavra com valor de 93 (três vezes AL, 31), significando ‘Deus (é) Não Não’. Esta Palavra, como é evidente, compreende de maneiras variadas a Palavra Chave, AL.

Mas existe uma outra visão de todo o processo ocorrido em 1904. Crowley, durante as três horas em que AL lhe estava sendo transmitido, fora elevado ao Grau de Magus para o único propósito de receber a Lei de Thelema, e com ela a ‘Palavra’. Pelo menos era isso que ele afirmava embora no silêncio, parecesse manter algumas dúvidas sobre a questão, como será demonstrado no devido curso.

Em 1906, Crowley atingiu o Grau de Mestre do Templo[4] e tornou-se o que é conhecido em terminologia mágica ‘um habitante da Cidade das Pirâmides sob a Noite de Pã’. Isso é demonstrado na A\A\ pela terceira Sephira, Binah, a zona de poder cósmico de Saturno, a representação planetária do Deus Seth.[5] Na A\A\, a qual depende sua existência de uma estrita hierarquia ‘Externa’, nenhum Grau poderia ser atingido ou clamado por um Adepto que não estivesse no Grau imediatamente superior ao atingido por seu chela.[6] Em outras palavras, até que Achad estivesse preparado para tomar o lugar de Therion na Cidade das Pirâmides, Crowley não estava em condições para reivindicar o Grau de Magus e professar a Palavra do Aeon. Afim de que Crowley o pudesse fazer, Achad deveria assumir a mais séria responsabilidade possível para qualquer mortal no Caminho da Consecução Mágica, i.e. ele deveria fazer o Juramento do Abismo[7] e cruzá-lo de maneira bem sucedida. Mas isso Achad alcançou, e tal era o seu empenho e integridade espiritual que ele não apenas declarou ter aceito o desafio para que Crowley pudesse avançar ao Grau de Magus, mas também declarou que havia permanecido no Abismo – com todo o terror que isso implica – por um inteiro ciclo Saturnino, i.e. 29 anos![8] Mesmo assim Crowley manteve-se no silêncio, não recebera nenhuma Palavra. Achad escreveu em uma carta datada de 1916: ‘Logo depois que ele [Crowley] descobriu que eu pulei no Abismo por sua causa para que pudesse obter toda a consecução do Grau de 9°=2, o qual ele clamava possuir, me escreveu dizendo: “Eu ainda me encontro nas profundidades. Escrevi um ensaio sobre todo o sadismo de Deus dois dias atrás, e ontem passei por uma cerimônia mágica, mas nada parece me reviver. Eu não consigo aprender a esperar pela Palavra apropriadamente. Acredito que se eu fosse capaz de fazê-lo apenas por dez minutos a Palavra viria”.’

Mas de acordo com Achad a Palavra não veio a Crowley, e em 1926, durante uma série de Ordálios que continuaram intermitentemente até 1945, o próprio Achad a recebeu. Durante esse período Achad tentou por diversas vezes comunicar a Therion o sucesso de suas prolongadas iniciações, mas era sempre repelido com as indicações de Crowley para que ele avaliasse todo o processo com a devida atenção. Isso ocorria porque Crowley estava sempre com a idéia fixa de que Achad estava sofrendo a privação dos Ordálios do Grau de Mestre do Templo. Conseqüentemente Crowley nunca dava atenção necessária às missivas de Achad. A atitude de Crowley em relação a essa situação está registrada em uma carta a Frater O.P.V. (Norman Mudd), datada de 1925:

Estou tratando Achad como se ele estivesse no meio de um longo ordálio, e assim quase cego, embora em um aspecto 8°=3. Assim, [cuidado para] não lhe dar uma cotovelada – na esperança de que ele venha a superar isso.

Foi em 1948 – 2 de Abril as 1:11 p.m., para ser preciso – em Deep Cove, B.C., Canadá, que Achad anunciou a chegada de MA-ION, exatamente quatro meses após a morte de Crowley na Inglaterra, e 44 anos após o advento do Aeon de Horus anunciado por Crowley em 1904. Achad também sustentava que em 2 de Abril de 1948, fora o verdadeiro início da Era de Aquário. Este evento foi proposto por ele em seu livro Q.B.L., ou The Bride’s Reception, privadamente publicado por ele em 1922.[9]


Tendo descoberto que a chave d’O Livro da Lei era LA ou NÃO, simbolizada pela deusa Nuit, Achad procedeu sua descrição[10] da expressão Não Falada. Ele demonstra que ‘Não Falada’ ou Alalia ‘refere-se que nem Jesus e nem Crowley levaram em consideração o verdadeiro simbolismo de si mesmos: O Homem-Macaco Primitivo hipotetizado por Haeckel, do qual o nome Grego Alalus provem [...]. Tal ser era incapaz de proferir uma palavra. Talvez isso fora feito através de um ministro (veja AL I:7)[11] e que, enquanto se transformava em um Magus fora completamente incapaz de proferir sua própria Palavra Mágica – a Besta 666. Mas de acordo com Liber Legis [O Livro da Lei] a Palavra deveria ser proferida por aquele que tivesse passando pelas iniciações do próprio Liber Legis [...].’

Em um certo sentido Achad estava correto, entretanto não da maneira que ele supôs. O reflexo mágico do Aeon de Horus é Hoor-paar-Kraat (Harpocrates), o deus do Silêncio ou a Fala no Silêncio. O ‘ministro’ deste deus é Aiwaz. Hoor-paar-Kraat é uma forma particular do Deus Seth, e sua Palavra é vibrada no Silêncio, como demonstrado mais à frente. Este mistério de Seth é revelado em Liber A’ash vel Capricorni Pneumatici:

Horus salta triplamente armado do ventre de sua mãe. Harpocrates, seu gêmeo, está oculto dentro dele. SET é a sua aliança sagrada, que ele deverá exibir no grande dia de M.A.A.T., que está sendo interpretada o Mestre do Templo da A\A\, cujo nome é Verdade.

Achad sugere que a Besta faz referência ao Macaco e não ao Leão com o qual Crowley se identificava, ou com o Cordeiro identificado com Cristo. Achad cita R.M. Bucke cujo livro contém diagramas de certas faculdades de fases pré-humanas de consciência. As faculdades mais desenvolvidas tais como vergonha, remorso e etc., são derivadas do macaco antropóide e do cão, este último – de acordo com Achad – era ‘o veículo escolhido mais elevado’. Estas bestas são conjugadas na imagem do cinocéfalo ou macaco-com-cabeça-de-cão que representava um importante papel no antigo Egito.[12] É o cinocéfalo que aparece no desenho da Chave do Tarot de Crowley que recebe o nome de Magista.[13] O comentário do The Vision and the Voice, citado no Capítulo anterior, é a verdadeira descrição da undécima carta do Tarot, (Luxúria), na qual a Mulher e a Besta estão conjugados em um simbólico congresso sexual. Concernente ao macaco antropóide, Achad nota a seguinte passagem de Cosmos, Man and Society, por Edmond Szekely:

Com o aparecimento da posição vertical (bípede) duas importantes mudanças são encontradas na evolução da humanidade: o desaparecimento progressivo da pineal no homem e o aparecimento progressivo do hímen na mulher.

Achad usa este conceito para esclarecer o antigo simbolismo mítico da mulher conjugada com a besta simbolizando a undécima chave do Tarot:

Até o ponto da evolução natural – de acordo com o Grande Propósito de que o corpo de algum macaco antropóide foi adaptado para isto, o Logos [i.e. a ‘Palavra’] desceu e habitou seu corpo, i.e. para dentro do corpo de um animal incapaz de pronunciá-la [...].
O desenvolvimento do poder para proferir a ‘Palavra’ abrangeu um grande período de tempo e esforço, mas quando ele veio, o verdadeiro homem viveu sobre a terra, e seu ‘elo’ agora se encontra ‘perdido’ – ou em danação.
Neste mesmo ponto [...] no primeiro macaco antropóide feminino havia se formado um hímen, assim deu-se à verdadeira virgem. Essa ‘aflição’ incomum deve tê-la preocupado. Ela, portanto ‘sentou-se’ sobre a besta [...] recebendo assim a semente bestial do Logos, e neste sentido se transformou na Grande Prostituta que recebeu em sua ‘taça’ o resultado da fornicação do reino animal.[14]

Foi desta maneira que a Palavra foi vibrada no aether astro-erótico dos atavismos primais transformando-se no homem, e não em um sentido meramente artificial de um individuo histórico pronunciando a palavra de número 93 com suas qabalísticas equivalências.

Crowley não proferiu nenhuma Palavra porque o Aeon de Horus, sendo o Aeon da Besta conjugada com a Mulher no vibrante Silêncio tipificado pela fórmula psico-sexual de Seth, não possuía uma mera forma verbal. O ato em SI é a Palavra, ou, ainda sim, o ato cria um stress no aether que o Adepto pode moldar com a imagem de sua Vontade.

É neste sentido que nós devemos compreender a sucessão mágica dos aeons, atavismos, ou ‘palavras’. Também é neste sentido que devemos pesquisar os enigmas de Achad em relação à palavra MA-ION, e sua abstrata interpretação do ion.[15] Achad baseou o Culto Ma-Ion na revelação que teve concernente ao último verso do primeiro capítulo de AL: ‘The Manifestation of Nuit is at an end.’ Observando as considerações de Achad, o fim (i.e. ambos os fins) da palavra Manifestation produzem em conjunto a Palavra MA-ION, que ele clamou ser o verdadeiro nome do Aeon de Ma ou Maät. Embora ele use considerações qabalísticas para estabelecer a Manifestação do Culto Ma-Ion, o fato não implica virtualmente nada em termos de magick prática. Suas observações sobre a palavra ion demonstram que ele chegou muito perto de comprovar a realidade de suas premissas. Ele reconheceu que a palavra ion tinha um sinônimo qabalístico com a palavra aeon. ‘Ir’ foi a característica principal dos deuses do antigo Egito; ainda, ir foi tipificado como a alça da sandália ou a forma da crux ansata. Ion, ainda tipifica o nome do deus Hermes – o deus da magick – idêntico a Thoth, portanto, idêntico ao cinocéfalo simbolizado por Thoth como o proferidor da Palavra em Silêncio.[16] Com relação a palavra ion referente a física Achad verificou que:

A partícula elétrica foi quebrada na Era Atômica, mas Nuit diz (antes que a palavra fosse modificada em Liber legis): ‘And the sign shall be my ecstasy, the consciousness of the continuity of existence, the unfragmentary non-atomic fact of my unmolestability’.[17] Assim a Virgindade do Aether permanece intacta, pois nele foi depositado o Logos espermático pelo Plenum do começo da Manifestação deste Universo finito.

A filha é o aspecto vigem, i.e. aquela entidade despertada pela Besta ou cinocéfalo quando ele vibra sua ‘palavra’. Ela também é a ‘Criança Coroada & Conquistadora’, a Filha-Escuridão (Nuit), complemento do Filho-Sol (Hadit). Assim o Aeon de Ma, a Filha, ocorre paralelamente ao Aeon de Horus, o Filho.

Achad descobriu o nome do deus e sua fórmula,[18] mas ele não foi capaz de aplicá-la em conjunção com a Palavra correta. A palavra não é aquela da Manifestação a qual é sem significado em um contexto geral pois todos os aeons em todos os tempos sempre se dão através da manifestação; se assim não fosse, eles não seriam a expressão do kala (Tempo); eles permaneceriam latentes em um estado potencial de eternidade do Noumeno – distinto do estado dinâmico ou ativo das aparências manifestas, i.e. Fenômeno.

A Palavra que satisfaz mais do que os requerimentos teóricos e qabalísticos e que de fato contém uma fórmula mágica de grande potência é SECRETION;[19] e o secret ion[20] é na verdade a manifestação de Nuit, que verdadeiramente ‘está no fim’, não somente no sentido de finalização da palavra (i.e. secret-ion), mas também que ela é latente no fim (cauda) da Deusa como o último kala da manifestação.

A palavra ‘secret’ é mencionada 21 vezes no AL, e ‘não somente em Inglês’, pois ela aparece também de maneiras ocultas e qabalísticas. O que é de importância, contudo é que a palavra Inglesa ‘secretion’ possui o valor de 365, que é um número de um ciclo completo de manifestação, simbolizado pelo ano de 365 dias. Esta é a menor manifestação do Ciclo do Tempo, o Ciclo de 360° no Espaço e os cinco dias restantes – como explicado previamente[21] – sendo os degraus especiais da Deusa e seu mecanismo de manifestação.

Crowley tinha uma vaga interpretação da palavra ‘secret’. Em uma carta a Frater O.P.V. datada de 30 de Outubro de 1923, ele escreve: ‘Eu duvido que a palavra ‘secret’ é usada no AL em um sentido vulgar. Eu a assimilo com a idéia de secretion.’ Este é o real significado da palavra que Frater Achad esteve tão próximo de descobrir.

É provável que se não fosse a marcante antipatia de Achad pelo AL – que profetizara a ‘criança’ e herdeiro mágico da Besta – ele seria capaz de ver além de suas implicações e interpretações pessoais dos Mistérios contidos no AL. Mas Achad glorifica e personificava nele mesmo os Mistérios, e tal era sua obsessão em ser a ‘criança’ profetizada no Livro que ele via a si mesmo sob a aura de um novo Messias potente o suficiente para redimir o homem das calamidades do Aeon de Horus contidas nos versos do AL – conforme indicado em suas correspondências privadas – as quais ele atribuiu as ‘malignas maquinações de Aiwass’.

A mania de Achad de inverter tudo o levou a inverter de cabeça para baixo a Árvore da Vida![22] Ele considerava que a ordem natural dos caminhos havia se tornado obsoleta em relação ao Novo Aeon de Ma ou Maät o qual ele anunciou em 1948. Crowley alude com sarcasmo o novo arranjo dos caminhos feito por Achad em Magick. De maneira similar Achad reverteu para Malkuth, 1°=10[23] após ele ter aspirado sua iniciação em Kether, 10°=1[24] após transcender de maneira bem sucedida o Ordálio do Abismo. De maneira semelhante ele reverteu seu mote V.I.O.O.I.V[25]. para O.I.V.V.I.O., e usou a mesma técnica de inversão ou reflexo a palavra AL (Deus), para LA (Não), a qual provou ser infinitamente produtiva quando aplicada ao Livro da Lei.[26] Através desta técnica de inversão ele descobriu sua ‘Palavra’ – ALLALA.

Em um acesso de ódio contra Crowley, Frater Achad escreveu a um ex-discípulo da Besta:

A Palavra final, naturalmente, significando ‘Deus é Não Não’ [ALLALA=93] simplesmente vem mostrar que AL SHADAI[27] não deve ser manipulado com fins imbecis e não deve ser tentado colocar em seu lugar o ‘93’ ou algo como Aiwaz. Ele [i.e. AL SHADAI] testifica a Natureza incerta e repudia as forças satânicas. Finalmente eu esclareço todas as dúvidas quanto ao inimigo da humanidade [i.e. Aiwaz] que tem causado tantos problemas desde o início deste século. Este negro círculo mágico de iniciados deve ser definitivamente expurgado, entretanto isso não pode ser feito pelas mãos humanas; nós apenas somos testemunhas e registradores dos fatos observados.

A referencia quanto a Natureza for testificada em termos ‘incertos’ se relaciona a vários fenômenos meteorológicos os quais tinham resultado em fortes tempestades sobre a Columbia Britânica, perto do lugar onde Achad residia. Ele observou que durante as fases principais de sua iniciação, particularmente em 1917, 1935 e 1948, um lugar chamado Chilliwack havia sido o foco de furacões remanescentes de distúrbios cósmicos registrados por H.P. Lovercraft e os raros fenômenos meteorológicos registrados por Charles Fort.

Foi durante uma das maiores iniciações de Achad que o primeiro mecanismo de inversão lhe ocorreu. Ele descreve a experiência no Liber 31,[28] livro no qual ele escreveu sua conhecida descoberta sobre a Chave do Liber AL.

A língua inglesa [i.e. o alfabeto] é escrita sempre da esquerda para direita, o hebraico é invertido e isso é um grande mistério iniciático...

Achad viajou no tempo-espaço:

Subitamente uma NOVA CRIAÇÃO. Ele viajara ao começo e a partir dos elementos que encontrara na fonte ele formou um novo projeto, um novo desenho, com o mesmo material, mas em Ordem diferente.

‘O mesmo material, mas em Ordem diferente’; isso descreve precisamente o Culto Ma-Ion de Achad em relação ao Culto de Thelema de Crowley; não uma nova criação mas uma reorganização do Culto já existente.

A doutrina subjacente ao Culto Ma-Ion está latente na fórmula mágica do IHVH ou o Tetragrammaton, o Nome Impronunciável. Para se compreender esta fórmula é necessário uma compreensão das formas-divinas Egípcias de Isis, Osíris, Horus e Seth, onde será visto que existem várias interpretações do Tetragrammaton.[29]

Interpretando-o microcosmicamente como o fez Crowley, ele assume uma significação sexual. Interpretado-o macrocosmicamente ele envolve a transformação do corpo no espírito, e a futura manifestação do espírito na matéria. Tomando a fórmula macrocosmica primeiro, seu mecanismo é o seguinte: Isis é o corpo da terra ou matéria. Com sua morte ela se transforma na múmia, símbolo de Osíris: o corpo-espírito em Amenta. Os Egípcios sustentavam que a primeira parte da múmia a renascer após a morte era o falo, significando com isso que a criativa força fálico-solar ou ‘espírito’, ascendia de Amenta e Osíris era transformado em sua dupla imagem eterna ou filhoHar (i.e. Horus, a criança). Ao passo que Osíris é a alma ou duplo em Amenta, Horus é o Criativo Espírito exaltado e ressuscitado no mundo do espírito, ou nos eternos ciclos repetitivos do tempo. Horus, a criança, permanece no mundo do espírito até que um processo posterior – o processo de reencarnação ou re-manifestação na matéria – ocorra. Isso constitui a ‘segunda vinda’ ou o nascimento da criança na matéria, simbolizado por Seth, o irmão gêmeo ou duplo de Horus. Har ou Hor significa ‘criança’, isso significa o espírito de Osíris reproduzido no mundo do espírito, e o verdadeiro nome daquela criança, Seth, representado pelos egípcios com a estrela Sothis, a Luz na Escuridão ou uma estrela à vista e manifestador, não de Osíris o pai, mas de Isis, a Mãe. Os Hebreus representaram este processo mágico pelo nome sagrado IHVH, o nome ou ‘Palavra’ impronunciável. Isso pode ser melhor compreendido pela fórmula sexual. I ou Yod é a semente secreta latente no corpo (Isis); , ou H é a matriz ou receptáculo da semente comunicada pelo ato de copulação representado por V, ou Vau, o Filho; i.e. Seth, ‘que formulou seu pai e tornou fértil sua mãe’. A manifestação resultante é representada pelo final – a filha – que manifesta novamente o corpo original (Nuit-Isis), mais a experiência espiritual resultante da integração de todo o processo.

A expressão anterior desta fórmula foi codificada triplamente, pois os Egípcios omitiram a fase de manifestação final deixando assim o espírito em seu próprio reino. Essa foi a primêva fórmula IAO. I (Isis) o corpo que se submete à morte (o ‘A’ ou estágio de Apófis), antes que pudesse alcançar o estado ‘eterno’ tipificado pelo ‘O’ ou estágio de Osíris, a múmia.[30]

As deidades Isis, Osíris, Horus, relacionam-se a duas diferentes dimensões e um cuidado deve ser tomado para manter o simbolismo dos distintos planos. Isis sendo matéria ou natureza representa o Tempo; Osíris, a múmia, representa a Eternidade (i.e a Temporalidade). Mas Isis (como Nuit) representa o Espaço, e Osíris (como a múmia) representa a Duração. Esta é a identidade do Espaço-Tempo ou sua realização, que gera a consciência que ilumina o ‘universo’ mostrando sua fenomalidade – uma mera aparência na consciência – porque não existe nenhum sujeito em relação a qualquer objeto que possa existir. Esta mística interpretação é análoga àquela do Budismo Cha’an onde montanhas e lagos são primeiramente vistos como fatos objetivos, depois eles não mais os são pois novamente eles são vistos como montanhas e lagos, não mais em si mesmos, mas tão somente como aparências na consciência. No intervalo vazio uma iniciação ocorre, análoga àquela a qual ocorre no estágio de Apófis na fórmula Egípcia IAO. Neste vazio ou ausência, que deve ser iluminado antes da Nova Isis, a Filha, a visão recém criada e sempre virgem da não-objetividade pode ser adquirida. É nisso que se reduz a fórmula de Seth-Horus em última análise.

A aparência da filha não deve ser confundida com a re-aparência da ‘mãe’ original, o corpo que iniciou o processo. Frater Achad deu-se conta da natureza desta fórmula em um sentido técnico aplicada ao Iniciado em seu trabalho no Templo, mas ele confundiu o processo fazendo com que na fórmula macrocosmica a filha fosse saudada de uma maneira ultra-cósmica, anunciando assim o Aeon de Ma ou Maät. O Aeon de Horus é uma fase transitória neste processo de regeneração o qual não passará para fase manifesta até a humanidade ter transcendido o ordálio da morte física pelo cultivo da continuidade da consciência.

Para recapitular: I (a semente); primeiro H (a matriz); V (o ato); H final (a manifestation). Esta interpretação do Tetragrammaton revela a identidade da Postura da Morte com a múmia; a primeira parte da qual há de ser revivida é o Espírito Criativo, o Har ou filho que é Seth – o Filho da Mãe Isis ou Nuit. Seu ressurgimento do Amenta na carne é simbolizado pelo advento da filha, o reflexo ou manifestação da Mãe. O grande mistério é que não existe nenhum componente masculino em nenhuma fase do processo, pois a ação aparente da copulação pelo Filho-Sol é um mero estímulo dos kalas ou essências ocultas na matriz, a mulher. Apesar de tudo, o processo não indica uma reversão da tradição pré-solar ou estelar, porque a fase mediana ou solar era uma fase ilusória, e um véu de confusão foi o resultado da má interpretação da natureza de Osíris. A múmia deitada horizontalmente simboliza Osíris ativo em Amenta; mas quando a múmia é colocada na vertical, ereta, i.e. quando aquele estado da fórmula foi alcançado onde os Sacerdotes mantinham de pé a múmia,[31] a alma tornou-se o espírito, Har ou criança foi elevado ao lugar de maior iluminação. Ele não reencarnou, mas usou a múmia como uma base física quando ‘ela tomou seu prazer entre os vivos’. Com a mudança do Aeon, Osíris transformou-se em Horus ou criança, e não sofreu nenhuma quebra de continuidade na morte e foi capaz de assumir um novo corpo para sua manifestação na terra. Disso que neste Aeon de Horus existe infinitamente mais corpos mortais na terra do que em aeons precedentes.

Quando o Aeon de Ma suplantar o presente Aeon da ‘criança’ (ou a contínua re-manifestação), o homem terá alcançado o estado de sexualidade bi-una representada – não propriamente como entidades andrógenas como Zeus, Baphomet, Baco e etc., mas – como a Nova Isis, a Filha ou reflexo da Mãe (Maät). Somente assim ocorrerá a apoteose do Culto das Sombras.

Não existe assim nenhum elemento masculino na criação, somente o sol, filho, ou homem, sendo a Luz da Consciência em si mesma.[32] Os Vaishnavs da Índia – pelo que sei – são os únicos a expressarem essa concepção precisamente na doutrina de Krishna (Consciência) com um único elemento ‘masculino’ em uma conjunção de forças que são inteiramente ‘femininas’, e portanto fenomênicas, receptivas de Sua Luz somente. Ele é o único sujeito de todos os objetos. Krishna é a Escuridão-Una, Seth, o ‘filho’ da Mãe.

Frater Achad formulou – de sua maneira – este padrão de desenvolvimento aeônico, mas ele errou na medida em que condensou o processo no tempo, e imaginou que havia, a partir de seus preceitos, acelerado a evolução humana e estabelecido à consciência solar na terra. Isso se deu porque ele não entendeu uma parte do Mistério e através de suas próprias iniciações cometeu o erro de supor que a humanidade estava pronta – ou havia feito – a transição. Alguns discípulos de Achad declaram que uma transição similar deste estágio foi alcançado ou que ela é eminente, e que eles têm tentado conectar os Graus mais altos da O.T.O. com este processo. Mas eles não conseguiram compreender que estes Graus são especificamente microcosmicos, e que a O.T.O. como o AL vel Legis se aplica unicamente à fase transitória desta fórmula.

No Capítulo 4 de Aleister Crowley and the Hidden God foi demonstrado que o Aeon de Horus se refere à fórmula da Desintegração & Análise, o estágio transitório que precede o Aeon de Maät onde a reintegração final ou síntese ocorrerá. E no Capítulo 5 daquele livro o leitor verá: ‘Ao passo que a A\A\[33] provê o último e eterno aspecto espiritual da evolução durante um ciclo cósmico maior, a O.T.O. relaciona-se exclusivamente com o ciclo aeônico menor, o de Horus, e de sua fórmula mágica – LAShTAL.’ Já foi largamente demostrado como Frater Achad interpretou o AL e LA nas fases da fórmula de ShT (Seth).

O Aeon de Horus é verdadeiramente a seret ion, e a ‘Manifestação de Nuit’ está verdadeiramente ‘no fim’, como Achad indagou; mas não na palavra ‘Manifestation’ e sim na palavra ‘Secretion’ que é o último ion ou kala final ocultado por Aiwass – ‘& not only in the English.’ É interessante notar que em Hebraico a palavra svd (sod) significa ‘secreto’, e que a nona Sephira – Yesod – é o Lugar da Ultima Secreção ou kala. Yesod é a Sephira da Lua e o Secreto Santuário dos Yesidis da Mesopotâmia que adoram Seth na forma de Zivo ou Aiwaz. OIVZ (Aiwaz) e ZIVO são idênticos a 93.

Os Aeons da Mãe (Isis), e do Pai (Osíris), abriram caminho para o Aeon da Criança Coroada & Conquistadora: Horus em uma fase, Seth em outra. A fórmula de Horus é Ra-Hoor-Khuit; a de Seth é Hoor-paar-Kraat, o ‘ministro’ de Aiwaz (Zivo). Horus e Osíris são um; Seth e Nuit são um. O produto destas forças gêmeas é o secreto ion que é a prova da manifestação de Nuit, a qual ocorrerá ‘no fim’ (do Tempo). Tempo é um sinônimo de Kali, o último kala, o ‘ion’ no fim, que culmina no 16° ou a última digitaria da Lua. Este ion será manifestado pela Filha, a Nova Isis (Nu-Isis)[34] – ‘a filha coberta-de-azul do Ocaso’ – mencionada no AL.

A adumbração deste ion ou aeon, de Maät, pode ser pressentida agora e manifestada atrás daquilo que conhecemos popularmente como o movimento de libertação feminista, pois é a mulher que contém dentro de seu complexo corpo-mente os verdadeiros kalas, ions, ou aeons e somente ela pode manifestá-los – uma vez que ela tenha sido impregnada, em um sentido mágico, pelo Sacerdote de Horus. Isso foi simbolizado no Livro das Revelações pela mulher vestida com sol tendo a lua em seus pés.[35]

Mas por todos os ordálios iniciáticos clamados por Achad tendo sido transcendidos com sucesso por ele, uma ‘Palavra’ havia sido recebida e a maligna corrente de Aiwass havia sido repelida pela sua suprema iniciação e o nascimento de seu Culto Ma-Ion que, infelizmente, fora plantado em uma terra sem capacidade para gerar seus frutos. Ao invés de revelar uma chave prática para os mistérios contidos no AL, ele fez trocadilhos e brincou com cifras qabalísticas que sempre acabam em um único lugar chamado lugar algum.

Achad e seus escritos então é subtraído do Culto de Thelema. No Aeon de Horus em que Crowley sofreu para registrar e preservar inúmeros ordálios mágicos, visões e comunicações com entidades extraterrestres, não houve, realmente, um ‘Filho Mágico’ da Besta que fosse capaz de proferir uma ‘Palavra’.




[1] Charles Robert John Stansfeld Jones, 1886-1950.
[2] O Livro da Lei. Singular no sentido que ele é provavelmente o único documento que contém uma inegável evidência de origem trans-humana.
[3] AL e LA, respectivamente significando Deus e Não. No alfabeto Hebraico e Caldeu as letras também são números uma vez que nestes alfabetos não existem uma cadeia numérica a parte das letras.
[4] Um Mestre do Templo é designado pela fórmula 8°=3 no qual é compreendido que as energias mágicas de Mercúrio e Saturno (i.e. Thoth e Seth) estão envolvidas neste processo. A iniciação de Crowley neste Grau foi cerimonialmente confirmada em Bou Saada em 1909, quando ele assumiu o mote V.V.V.V.V. (Vi Veri Vniversum Vivus Vici – ‘pelo poder da verdade, eu, enquanto vivo, conquistei o universo’).
[5] Seth é a forma Egípcia de Pã.
[6] Aquele que se prepara para a aquisição de um Grau espiritual.
[7] O ‘Abismo’ separa o Mundo das Supernas (Kether, Chokmah e Binah) da manifestação das sete Zonas de Poder (veja diagrama da Árvore da Vida). O Juramento do Abismo é o Juramento do Mestre do Templo que é ‘Interpretar todo fenômeno como um trato particular entre Deus e minha Alma’. O Adepto deve aniquilar todo seu ego antes que possa adentrar a Cidade das Pirâmides, i.e. Binah, a Zona de Poder Cósmico de Seth-An. Seth e o Thoth Mercurial ou An, formam o protótipo de Seth-An, posteriormente Satan – o Opositor ou Destruidor do Ego no homem.
[8] De 1916 a 1945.
[9] Ele foi reimpresso por Samuel Weiser em 1969.
[10] É dito que o primeiro capítulo d’O Livro da Lei contém as palavras de Nuit.
[11] ‘Vê! isto é  revelado por Aiwass, o ministro de Hoor-paar-kraat.’
[12] Veja Capítulo 3.
[13] O desenho desta carta, executado por Lady Frieda Harris, foi rejeitado por Crowley por ser muito explícito. Ele foi, contudo, descrito quanto publicado em uma edição brochura na Exibição de Pinturas de Tarot realizado em Oxford, 1941. Veja também Man, Myth and Magic, no. 20, para outra versão desta Chave.
[14] Cf. o undécimo Atu – a Mulher e a Besta unidos. Aleister Crowley and the Hidden God, Figura 8.
[15] O termo Ion, uma forma de aeon, é o nome de Hermes, o Thoth Egípcio cujo veículo era o cinocéfalo.
[16] O macaco era um ‘falante’ primordial antes da evolução da comunicação.
[17] Achad está errado aqui. Consultando a cópia original do manuscrito do AL vemos que o correto é: ‘the unfragmentary non-atomic fact of my universality’. Veja The Magical & Philosophical Commentaries on The Book of the Law onde o manuscrito do AL aparece por completo. Veja particularmente p. 10 e p. 111 para explanação de Crowley do porquê da mudança.
[18] I.e. Manifestação através da filha, Ma, unida a Palavra Ion (Alalus, ou cinocéfalo). Mas ele não – talvez não se arriscou – seguiu suas próprias premissas a fim de chegar a uma conclusão lógica. Veja as observações sobre a fórmula do IHVH (Pai-Mãe-Filho-Filha) adiante.
[19] I.e. secreção.
[20] Secreto ion.
[21] Veja Capítulos 1 e 4.
[22] Veja The Anatomy of the Body of God e Q.B.L.
[23] A mais baixa Sephira que tipifica a consciência mundana.
[24] A mais alta Sephira que tipifica a Consciência Cósmica.
[25] Unus In Omnibus Omnia In Uno, ‘Um em Tudo, Tudo em Um’.
[26] Uma outra resultante inversão envolve o número do mote de Achad – AChD=13 – que por permutação qabalística forma 31. A série de números de 13 a 31 totalizam 418, o número de Abrahadabra, a Grande Obra.
[27] A forma Caldéia do deus Seth. Achad fez uma importante descoberta enfatizando ser este o nome do ‘Senhor da Iniciação’ – o Candidato no Novo Aeon, Hoor=345 – é equivalente a AL ShDI (Al Shadai), também 345. ‘O Senhor da Iniciação’, i.e. Hoor, é o deus Seth. (Veja O Livro da Lei, I: 49.)
[28] Publicado em Sothis, a revista do Novo Aeon editada por Bailey, Magee e Hall, Londres, 1974. Volume I, no. 3.
[29] Veja Aleister Crowley and the Hidden God, Capítulo 10.
[30] Cf. a fórmula da Postura da Morte de Austin Spare.
[31] Note que este duplo processo formula a imagem da Cruz ou cruzamento para o mundo do espírito. Veja Capítulo 2.
[32] A LVX da Gnosis.
[33] I.e. A Ordem da Estrela de Prata (Argenteum Astrum).
[34] Veja Aleister Crowley and the Hidden God, Capítulo 10.
[35] Cf. ‘The Manifestation of Nuit is at an and’; os pés, neste caso, estão simbolizados pelo ‘fim’ (end) ou último ion. Veja a explicação do simbolismo do ‘pé’ no Capítulo 10 de Aleister Crowley and the Hidden God.

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