quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Uma Nota sobre o Lado Noturno



A presente nota nasceu de uma conversa com uma aluna acerca do Lado Noturno. Para ela, a questão da ascensão pela Árvore da Vida já parecia algo complicado e as costas ou a parte de trás da Árvore, seu lado negro ou sombrio, lhe causa certo «assombro». Minha intenção é, em palavras claras, falar um pouco acerca dessa perspectiva da Árvore da Vida. Vamos começar desse ponto:

A existência nos apresenta dois lados na vida. Existe um lado luminoso onde vivemos o tempo todo, trabalhando e concluindo nossas tarefas. Mas existe também um lado negro que conhecemos na Tradição Oculta como o «lado noturno» da Árvore da Vida.

Espiões, criminosos, autoridades, predadores sexuais, políticos e homens de negócio sabem disso. Os hermetistas também. Todas as pessoas que têm um segredo e buscam desesperadamente deixá-lo oculto sabem disso.

Existe um lado negro em absolutamente tudo na vida, da política a religião. E é neste lado negro que os elementos primordiais e mais tangíveis da vida são encontrados. É a prima materia, o fons et origo. Não é possível viver com plenitude sem o conhecimento deste lado negro, sem espreitar suas profundezas, pois é no lado negro que as sementes são plantadas, onde a sustentação ocorre, onde os sonhos nascem e criam raízes nos recessos úmidos das regiões submersas da alma humana: a caverna onde reside a Besta que, segundo Lovecraft, é o próprio homem.

Na pessoa comum, podemos chamar esse lado negro de mente inconsciente, desconhecida, sem uma profunda análise de seus recessos. Mas o seu impulso pode ser sentido nos desejos mais sombrios, aqueles que não deixamos ninguém conhecer, nem a pessoa mais próxima. Psicólogos ocidentais modernos como Reich e Jung tinham conhecimento e conheciam o poder deste lado negro. Os qabalístas o chamaram de Sitra Ahra, o reino dos deuses caídos ou qliphoth.

O lado noturno está sempre conosco. Ele é muito mais antigo que o lado diurno. Antes da luz começar a brilhar, a noite já existia. Alguns pesam que estamos lidando com uma simples polaridade. Por um lado, um mundo radiante de cores e formas, mais ou menos concebível, sensato e significativo. Como a bonita imagem da Árvore da Vida, possui cidades, hotéis, restaurantes, oportunidades comerciais e os inúmeros caminhos que lhe atravessam.

Por outro lado, o mundo caótico da incerteza e dos mistérios incompreensíveis. Ambos conectados pelo vazio que os torna possíveis. Eles parecem ser simétricos. Mas quando adentramos as profundezas do lado noturno descobrimos que não existe essa simetria. O lado noturno não é simplesmente um reflexo do lado diurno como muitos pensam e espalham.

O lado diurno é uma ilha pequenina de experiência em um oceano enorme, o lado noturno, cheio de correntes, cadeia de ilhas e continentes de possibilidades e impossibilidades. Tudo e Nada estão presente em toda parte. Nossa ilha não é o oposto de um vasto mundo oceânico, é apenas uma pequenina e compreensível parte dele.

Jan Fries, Nightshades: A Tourist Guide to the Nightside


Fernando Liguori

Juiz de For a – MG

Ilustração de Alexandre Araujo

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