sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Uma Nota sobre Magia




Fernando Liguori


Extrato do artigo «As Leis da Magia», no prelo.


O universo é encantado. A vida é mágica. A magia reside na própria natureza. Ela ocorre de forma natural e espontânea na natureza. É a mente que interfere nesse processo natural. A falha na identificação desse processo produz tangenciais[1] de larga escala. Portanto, a prática da magia é definida por algumas «leis» que precisam ser observadas com cuidado. Magia é ciência e como toda ciência, está sujeita a leis e a averiguação dos resultados.[2]

Através dos séculos, a Alta Magia vem desenvolvendo uma «fachada» de complexidade e dificuldade. A razão disso se deve tanto ao fato de se reter informações possivelmente perigosas das pessoas inaptas a recebê-las e porque alguns magistas têm o ego hipertrofiado, retendo informação de pessoas que consideram indignas. Ambas as razões são pífias e obsoletas. O egoísmo de magos autoproclamados que escondem informações das pessoas que consideram indignas é motivo de piada. E aquela velha conversa de que é perigoso revelar os mistérios aos incautos e despreparados, hoje, é irrelevante. Se o magista não despertar sua paranormalidade, nada disso funcionará: nenhum gesto e nenhuma palavra terá efeito real nos campos mórficos. Em outras palavras, magia só funciona por meio e através da gnose e isso é impossível de se transmitir através de palavras escritas.

No entanto, penso em apenas uma razão pela qual certas informações devam permanecer em segredo ou divulgadas de uma maneira tão complexa que seja impossível compreender o mistério. O segredo impede que pessoas tomem posse de certo conhecimento tirando-o de seu contexto original, apresentando uma informação parcial ou – na maioria das vezes – mentiras como se fossem informações precisas.

O Ocultismo nos dias de hoje tornou-se terra de ninguém. Nunca existiu na história do Hermetismo tantos livros publicados, tantos segredos revelados, tantos mistérios desvelados. Infelizmente, papel aceita tudo. Há pouco tempo tive contato com um livro de correspondências chamado Sistemagia. Eu selecionei pelo menos cinquenta erros graves no livro. O mais sério, confesso, foi ver o autor atribuir as leis do Caibalion a cada um dos sete planetas tradicionais. Afirmar isso significa dizer que o universo é aleijado. O qabalista sério – bem como o magista comprometido – sabe que as leis do Caibalion se aplicam a todas as Sephiroth da Árvore da Vida. Isso abre um leque de infinitas possibilidades em cada zona de poder da Árvore Qabalística.

Isso acontece porque os magistas modernos carecem de treinamento real. Além disso, as pessoas são imediatistas, querem tudo pronto, de mãos beijadas. Não têm foco, mente unidirecionada, persistência ou força de propósito. Alguns meses atrás fui procurado por uma pessoa. Ela se interessou pela Terapia Qabalística. Um método terapêutico que envolve a Qabalah prática. Ao me conhecer pediu para estudar magia. Mas suas condições eram péssimas: muito acima do peso, ela sofria de sérios problemas hormonais, além de apresentar depressão, pânico e uma mente completamente dissipada e desordenada. Uma pessoa nessas condições está apta a aprender magia? Não! O que eu ofereci a ela foi, antes da magia, uma terapia através da Medicina Āyurveda para curar seus desequilíbrios hormonais e um treinamento em Yoga para desenvolver suas capacidades e estar apta a praticar magia. Mas ela não quis. Preferiu dizer que sou uma pessoa desequilibrada e que iria procurar outro instrutor.

Este ano, por três semanas, recebi em minha casa uma pessoa que se dizia bruxa e taróloga. A convivência mostrou o contrário. Com um conhecimento pobre e uma mente rasa, ela esperava aprender magia sexual, feitiços, rituais etc. Contudo, se mostrou uma mulher fortemente apegada, repleta de traumas sexuais e problemas mentais, os quais ela tomava medicamentos fortes. Nessas condições foi impossível desenvolver qualquer tipo de relação, pois como no caso anterior, ela também precisava curar sua consciência antes de aprender magia. Pessoas assim utilizam a magia para fins escusos e egoístas, sempre com a intenção de atrapalhar a caminhada de outras pessoas. Seguindo o mesmo padrão psicótico de comportamento, ela preferiu dizer que sou eu o desequilibrado.

Já faz alguns anos, um aleijão se aproximou da O.T.O. para aprender magia. Ele se apresentou como um Magister Templi da A.’.A.’.. Posteriormente ele renunciou ao Grau, dizendo então ser um Adeptus Minor com pleno contato com seu Sagrado Anjo Guardião. No estudo sério de Thelema aprendemos que a conexão com o Sagrado Anjo Guardião é medida pelo nível de consciência e lucidez na vida. O Adeptus Minor é caracterizado por sua lucidez e clareza, nos pensamentos, nas palavras e nas atitudes. Como o Sol de Tiphereth, ele brilha, iluminando o caminho de todos ao seu redor. Caos e tormenta na vida, muitas vezes considerados como ordálios mágicos são, na maioria das vezes, desajustes causados por uma prática espiritual equivocada.

Portanto, uma coisa é certa: seja lá qual for à prática espiritual, se ela não levar equilíbrio e paz para mente, não pode estar sendo saudável. Qualquer tipo de prática espiritual mostra sua eficiência na vida, no dia-a-dia, no comportamento das funções da mente. Se isso não acontece, o estudante muito possivelmente está vivendo uma fantasia.

A Ordo Tifoniana Occulta pede um diário de nove meses como pré-requisito para afiliação. Isso é feito dessa maneira para que a Ordem possa ter certeza que o estudante é sério e possui comprometimento. No curso dos Graus o estudante tem uma série de desafios a serem superados. Estes desafios refletem a vida, o dia-a-dia do estudante. Portanto, é uma caminhada de transformação do material denso e pesado no sutil e transcendental.

Levando em consideração os exemplos acima, é natural que os Mistérios estejam em segredo, protegidos da profanação de pessoas baixas e de conduta execrável.





[1] Choque de retorno.
[2] Veja a definição, o postulado e os teoremas da magia por Aleister Crowley. Magick, John Symonds e Kenneth Grant, 1973.

Um comentário:

  1. Mais conhecimento demanda mais equilíbrio mais solidez e mais responsabilidade. "Me dê um ponto fixo que eu levando o mundo", logo...

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