sábado, 11 de outubro de 2014

Um Nota sobre a Redescoberta da Tradição Sumeriana



A presente nota é um extrato do texto «A Redescoberta da Tradição Sumeriana», por Fernando Liguori. O Texto será publicado na Revista A Lança de Seth, Vol. I, No. 2.


Thelema é uma nova religião e no âmago dessa religião reside uma escuridão profunda. Para alguns aderentes, Thelema representa uma religião solar conectada a antigas deidades egípcias como Osíris, Ísis, Hórus, Thoth e Sekhmet.

Mas não é!

Como toda religião, Thelema possui um ritual público, designado a transmitir ao mundo sua mensagem. Esse ritual é a Missa Gnóstica, cujo credo exalta um deus chamado Caos e Caos é um epíteto para o deus Seth.

Thelema é uma palavra grega que significa vontade e fora utilizada por Aleister Crowley (1875-1947) para se referir a sua nova religião, desenvolvida através da prática da magia[1] e estabelecida sobre o conceito de que o mundo está entrando em uma nova fase evolutiva que ele denominou Aeon de Hórus. A era anterior foi conhecida como Aeon de Osíris: o deus morto e ressurreto que prefigurou os mitos de Mitra, Jesus e outros. Antes disso, a era matriarcal imperou como o Aeon de Ísis. O presente Aeon de Hórus é a era da Criança, o descendente de Ísis e Osíris, portanto, sua Criança Mágica.

O texto seminal desta nova religião chama-se O Livro da Lei ou Liber AL vel Legis como é mais conhecido. Essa escritura foi recebida por Crowley em uma série de operações que se sucederam no Cairo, Egito, em abril de 1904. A fim de promulgar sua nova fé, Crowley se afiliou a uma sociedade secreta germânica chamada Ordo Templi Orientis ou Ordem dos Templários Orientais, O.T.O. Atualmente, essa Ordem existe de diversas formas em quase todos os continentes. Ela compreende uma série de graus iniciatórios e seus membros são conhecidos como thelemitas. No tempo em que Crowley foi o líder da Ordem, de 1925 até sua morte, os rituais de grau eram baseados na ideia de que os Cavaleiros Templários do período das Cruzadas formaram uma aliança com uma sociedade secreta mulçumana, da qual eles obtiveram iniciações. De fato, essa suposta influência mulçumana ainda se faz presente nos rituais da seção norte-americana da Ordem, conhecida como Califado, uma palavra utilizada no Islamismo para descrever o sucessor legítimo do profeta Maomé.

Isso não é tão estranho quanto parece. É um fato amplamente conhecido que inúmeros ocultistas e místicos europeus estiveram no Oriente Médio a fim de obter «conhecimentos secretos» e isso pode ser rastreado até a origem da lenda dos Rosa Cruzes: Christian Rosenkreutz, seu fundador putativo, viajou ao Oriente Médio em busca de sabedoria. O suposto fundador da Ordo Templi Orientis, o hermetista e yogī Carl Kellner (1850-1905), viajou a terras mulçumanas e obteve «secretas iniciações».[2] Helena Blavatsky, a fundadora da Sociedade Teosófica, estabeleceu conexões com a Irmandade de Luxor, uma sociedade secreta de cunho kemético. Essa é uma tradição dos ocultistas europeus de longa linhagem.

O grimório mágico conhecido como Necronomicon vem dessa linhagem. Segundo H.P. Lovecraft (1890-1937), o livro foi escrito por um árabe louco em meados do Séc. VIII d.C. Ele contém a doutrina e as invocações herdadas da tradição sumeriana: a mesma tradição que Crowley proclamou ter redescoberto. O Liber AL vel Legis[3] possui suas origens no Egito, o Necronomicon na Mesopotâmia.

O Oriente Médio é o berço de três grandes religiões monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Elas são às vezes chamadas de «religiões abraâmicas» pois compartilham um ancestral em comum: Abraão. Más é lá também o berço de nascimento de uma das religiões mais antigas do mundo, milênios antes do nascimento de Miosés, o fundador da fé judaico-cristã: eu me refiro à religião egípcia, pletora de deuses e deusas, a religião da Suméria, Acádia e Babilônia.

A insistência nessas origens ancestrais é um fator predominante nas Trilogias Tifonianas de Kenneth Grant (1923-2011). Na verdade, Grant não se satisfaz com a antiguidade dessas religiões. Ele aponta para uma tradição mais antiga, distante. Mesmo a tradição kemética do Egito não é antiga o bastante. A tradição mais antiga, segundo a cronologia de Grant, é a do Necronomicon associada à tradição sumeriana. Para Grant, bem como Crowley, a tradição que serve como pano de fundo para Thelema é a tradição sumeriana. Ela tem sua origem na Suméria e de lá foi transportada ao Egito e posteriormente chegou a todos nós através das deslumbrantes comunicações com uma entidade praeter-humana[4] que ocorreram no Cairo em 1904.

O que Grant diz, em poucas palavras, é: todas as religiões, principalmente os cultos antinomianos, têm origem em um único culto cujas origens não estão na terra, mas nas estrelas. A crença nessa doutrina está oculta em muitos escritos de Crowley.[5]


Fernando Liguori
Juiz de Fora, Equinócio de Primavera de 2014 e.v.




[1] Com a idade de dezoito anos, Crowley decidiu definir a magia sobre uma base sólida e científica. Ele explica que adotou a arcaica forma inglesa de se escrever – magick«a fim de distinguir a Ciência dos Magi de todas as suas deturpações»; através desta ortografia ele também pretendia indicar a natureza peculiar de seus ensinamentos, que possuem uma afinidade especial com o número onze. Veja Magick in Theory and Practice, Parte II. Neste texto utilizo o termo «magia» e não «magick», pois em português magia tem um significado distinto de mágica. No idioma inglês as palavras são intercambiáveis.
[2] Carl Kellner teria fundado, de fato, um grupo que seria a celula matter da O.T.O., não a Ordem em si que foi fundada, originalmente, por Theodor Reuss (1855-1923).
[3] Daqui em diante referido pelas como AL.
[4] Além da condição humana.
[5] Essa doutrina está de acordo com as ideias de Lovecraft acerca de uma raça alienígena que uma vez colonizou o planeta e que um dia retornará. Uma raça cuja religião é a mãe de todos os cultos.

0 comentários:

Postar um comentário

Ola, seja bem vindo para comentar. Utilize o bom-senso, seja profundo.