domingo, 12 de outubro de 2014

Qabalah Draconiana #1



A Inquietante Qabalah Qliphótica & suas Interconexões Energéticas


. parte 1 .

Fernando Liguori e Antônio Vicente


Apresentação

Temos, em língua vernácula, poucas fontes bibliográficas para explorar sobre tão fascinante temática, o que nos motivou a pesquisar e a produzir o presente «inter-texto». A priori, tal tema pode nos levar a franzir a testa ou mesmo causar uma inquietante estranheza; mas, a posteriori, com a devida vivência e estudo, tal assombro fenece pois aprendemos que o lado obscuro é tão verdadeiro e útil à existência quanto o seu lado divino. Nossa mentalidade judaico-cristista – pretensiosamente cristã – pode reagir, por «pré-conceitos”, a um estudo de tal magnitude; mas compete ao verdadeiro iniciado exercer sua vontade consciente «sua magia» e vencer os grilhões do aprisionamento, do medo e da ignorância. Se nos lembrarmos do símbolo do ying-yang, compreenderemos, talvez com maior facilidade, o intercâmbio cósmico das energias: uma energia sempre nos levando em direção a seu oposto complementar. É essa mesma realidade que se expressa quando trabalhamos com o anverso e o verso da Árvore Qabalística. Um iniciado draconiano, ciente deste princípio cósmico, trabalha, alternadamente, com os dois lados da Árvore, entrando em contato com seus «anjos» e «demônios», buscando a síntese, o equilíbrio, o casamento alquímico das energias.

Antônio Vicente
SETh – Sociedade de Estudos Thelêmicos


Eu tenho sido acusado de levantar o Véu de Isis a uma altura indecorosa. Isso não é verdade. Devemos nos lembrar primeiro de que os Mistérios Arcanos sempre foram de natureza física. Mais precisamente, de natureza fisiológica, psico-sexual. Eu falo abertamente sobre os Mistérios, como a tradição antiga o fazia. Eu entrego às chaves para que a Iniciação ocorra. Mas essas chaves estão em todo lugar, elas abundam nos livros modernos de Ocultismo. Assim, é fato que estas chaves podem ser aprendidas através de livros e instruções pessoais. Mas se cada um, por si mesmo, não efetivar conexões reais nos planos internos, nenhum segredo será revelado. Portanto, não faço apologia por tornar os Mistérios Arcanos acessíveis àqueles que possuem intuição necessária.

O nosso trabalho propõe uma «evolução» nada ortodoxa na Corrente 93. É a função dos Adeptos de uma Corrente Mágica dar continuidade ao trabalho de seus predecessores. Isso significa que assumimos a postura de sermos «elos fortes» na corrente, alimentando seu desenvolvimento.

Um dos alimentos dessa Corrente Mágica «renovada» são as pesquisas com a Árvore da Morte: as Qliphoth e os Túneis de Seth, o lado negro da Árvore da Vida. Estas pesquisas estão no campo do Ocultismo Experimental e têm contribuído para o entendimento e compreensão de toda estrutura humana – e trans-humana –, pois não existe dia sem noite e o Ser só existe pela existência do Não-Ser, do qual ele é uma expressão.

As Qliphoth e os Túneis que os conectam já foram extensivamente pesquisados pela tradição rabínica e desde que a tradição ocultista começou a explorar este vasto universo, muitas controvérsias apareceram, principalmente sobre a conexão existente entre os conceitos de id e sombra de Freud e Jung com as experiências do lado negro da Árvore. Mas sobre essa questão precisaríamos de um espaço maior. No momento, nos basta lembrar das palavras iluminadores de Kenneth Grant quando diz que o reino infernal das Qliphoth, o mundo das conchas ou sombras não é nenhum outro mundo além do nosso tal como o conhecemos, sem a luz transformadora da consciência mágica. Ele continua dizendo que é apenas depois de dominar o mundo das sombras dentro de si mesmo na forma de arqui-demônios, ódio, luxúria e orgulho, que o homem pode realmente reivindicar ser o Senhor das Rodas ou Discos Brilhantes.1

À menos que o ocultismo se torne criativo no sentido de abrir novas abordagens, modificando e desenvolvendo conceitos tradicionais e revelando de modo geral um pouco mais sobre aquela Deusa Suprema cuja identidade está oculta por trás do véu de Isis, Kali, Nuit, ou Sothis, haverá estagnação no pântano de crenças tornadas inertes pela recente e rápida aceleração da consciência humana, que pouco sente falta do miraculoso. Se não quisermos que a ciência do imanifesto permaneça fundamentada num estágio pré-pubescente, enquanto as ciências manifestas sobem ao espaço, o ocultista maduro deve por de lado os brinquedos da superstição e encarar sem temor as Árvores da Eternidade cujos troncos e ramos brilham com o fogo solar, mas cujas raízes são nutridas na escuridão.2

Fernando Liguori
Ordo Tifoniana Occulta


A Qabalah Draconiana

A Tradição Draconiana é muito antiga, havendo vestígios de sua presença na Suméria bem como no Egito pré-dinástico. Assim, deste priscas eras, o contato com as entidades do lado oculto «ou reverso» da Árvore da Vida nunca foi ignorado por esta via.

A Árvore da Vida é um sistema simbólico e místico da Qabalah que visa a representar todas as forças e elementos tanto da Natureza quanto do universo. A Árvore é um diagrama com 11 esferas chamadas de Sephiroth e que se ligam umas às outras por meio de 22 caminhos ou Túneis de Hórus.

É ponto pacífico, na Tradição Draconiana, que tal Árvore contenha outro lado «o lado oculto» que é chamado de Árvore da Morte. É neste lado não luminoso, temido por uns, ignorado por outros, que o draconiano também trabalha. Na atualidade, Kenneth Grant resgatou esse antigo princípio e afirma que essas forças sombrias estão, cada vez mais, infiltrando-se em nossa dimensão e transformando o planeta de uma forma estranha e assustadora.

Tal processo foi logo identificado e recebeu diferentes nomes: é o Novo Aeon de Crowley; o Apocalipse bíblico; a Era de Satã de La Vey e o Ma-Ion «era de Maät» de Grant. Independentemente do nome que receba, o fato é que há uma mudança no ar, uma alteração na consciência, uma nova ordem planetária. Nesse particular, Crowley escreve:

Observem por si mesmos a decadência do senso de pecado, do crescimento da inocência e da irresponsabilidade, a estranha modificação do comportamento sexual que tende para uma «bissexualização» crescente, uma pueril confiança no progresso concorrendo com o pesadelo e o medo de catástrofes e hecatombes diversas.3

A Árvore da Morte é formada pelas Qliphoth, uma estrutura reversa das Sephiroth, sua antítese. É o mundo das «conchas», o «escudo de Satã», a grande «prostituta» ou a «mulher indecente». Todos estes nomes designam a natureza dessa região, representando seu significado. É aqui que se processa a degeneração humana, a involução da consciência. Um lugar povoado por criaturas das sombras, forças sinistras e caóticas que se perderam na noite dos tempos, antes da consciência humana ter evoluído. Os tibetanos as identificam pelo nome de tulpas e nas tradições indígenas da América do Norte elas são os avatares do coiote. Tais criaturas, demônios com suas legiões de entidades menores, representam em um sentido experiências «não-humanas», «extra-terrenas», soterradas sob os escombros do inconsciente mais profundo. No não iniciado, estas forças agem por si mesmas, induzindo-o a fatalidade da ação que compromete sua existência em um ciclo de vida e morte, até que não haja tempo de uma evolução verdadeira. Solapado por seus instintos e alimentado os seus desejos pelos desfrutes dos sentidos desgovernados, o homem tem se mostrado tateando as cegas na ignorância «avidyā», a falta de conhecimento espiritual. Por processar a vida através da lente turva da ignorância e cegueira espiritual, o ser humano vive preso no cárcere da dispersão,4 o que limita sua ação em relação a si mesmo e portanto em relação ao universo. No Adepto, essas forças não operam às cegas. É por meio de sua Vontade dirigida, forjada pela disciplina espiritual, que estas forças qliphóticas são colocadas a favor da evolução e o despertar da consciência.

No presente, essas forças estão em ebulição no ambiente astral da Terra, um campo de energia protoplasmática que se divide em níveis de densidade. Segundo Kenneth Grant, a corrida atômica iniciada na Segunda Guerra Mundial abriu fissuras no ambiente astral do planeta, o que possibilitou a maciça incursão de entidades praeter-humanas e que resultou no que hoje conhecemos como Fenômeno Ufo. De acordo com a compreensão de nossa Ordem, essas forças são «extra-terrenas», além do universo conhecido e que estão tentando conosco se comunicar para completarmos nossa evolução, unindo o lado luminoso com o não iluminado. Em outras palavras, é o processo de abertura de nossa mente consciente para as profundezas primordiais de nosso inconsciente. Um draconiano sabe que deve conhecer suas forças abissais inconscientes mas também sabe que deve mantê-las sob controle de sua Vontade.

Neste reino do inconsciente, jaz adormecidos os instintos há muito esquecidos pela humanidade, bem como as representações de encarnações prévias que são magicamente revitalizadas pelas Qliphoth. Esses instintos podem ser atualizados pelos ritos licantrópicos «a transformação do homem em lobo, tigre ou hiena etc.» e também pelas práticas que utilizam a sexualidade e o êxtase para que a consciência dê passagem às forças qliphóticas, a Luz que é Não ou ausência de limites.

Há uma antiga crença de que um dos caminhos para se chegar à Divindade é através do princípio animal. Isto pode ser visto nas representações zooantropomórficas dos deuses egípcios e sumérios. Nos tempos modernos, podemos encontrar conceito similar nas obras artísticas do feiticeiro inglês Austing Osman Spare bem como nos mais variados rituais tântricos do vāmā-mārga, i.e. Tantra da Mão Esquerda. Nelas, é possível perceber a técnica de se utilizar da bestialidade para se aproximar da Divindade. Spare acreditava no poder da ressurgência atávica na qual o iniciado retira poder de um símbolo ou sigilo feito para representar um determinado animal para, finalmente, adquirir as qualidades do mesmo. Este é um método de se contatar a Divindade, na qual, ao invés de se «elevar» espiritualmente até Ela, o Adepto «desce» Nela, bestialmente. Sendo a Divindade o «Todo», se você se «eleva» ou «desce» não vem ao caso. O resultado é o mesmo. Isso é pura filosofia tântrica. Grant afirma:

É evidente que aqueles que contatam as forças qliphóticas devem assumir a Máscara da Besta. Não é de se estranhar, portanto, que o amplo espectro das assim chamadas anormalidades e luxúrias foram exploradas na tentativa de transmitir as vibrações extra-cósmicas ou, pelo menos, as forças extra-terrenas.5

O acesso para as Qliphoth é através da Sephira oculta, Daäth. Daäth está no meio do Abismo, a esfera que separa a consciência humana comum da Tríade Superior ou Divina. Daäth funciona como um portal para outras dimensões ou Universo B «em oposição ao lado que conhecemos e que é chamado de Universo A, na terminologia draconiana». É lá também que estão os Túneis de Seth no qual residem as Qliphoth.

Kenneth Grant e Michael Bertiaux com frequência ventilaram o uso da magia sexual como técnica propulsora para se obter conexão com as Qliphoth. Tal técnica engloba o uso da estimulação sexual licantrópica, a assunção de formas monstruosas durante o rito, dentre outros. Na gnose draconiana, o sapo ou a rã simbolizam aquele que salta ou pula no lado negro da Árvore. Ao invés de atravessar todos os Túneis Sethianos, o mago assume a forma de uma rã e salta de uma vez na Árvore da Morte. Esta técnica é empregada no Culto da Serpente Negra, na qual Hécate «a deusa da cabeça de rã» é a deidade central. Ela é uma das figuras mais importantes no culto draconiano, sendo o agente símbolo de transformação do aquoso «ou existência astral» para o terreno «existência tangível», nos informa Grant.6

Já que estamos falando de ícones draconianos, vale a pena mencionar a teia da aranha. No lado negro da Árvore, a teia que a aranha tece simboliza a rede de túneis que conduz a outras dimensões. O que parece ser um mero interstício de fios entrelaçados, quando a aranha emerge de usa toca – nas profundezas da terra – na verdade, surgem dimensões tempo-espaço de imensidades cósmicas. Mais simplesmente, a teia da aranha é utilizada imaginativamente como um meio de acesso a vários reinos «encantados» do inconsciente. Mas há um preço. O magista, nestes trabalhos, perde um pouco de seu ojas «energia mágica» quando entra em contato com tais seres. Caso esteja totalmente despreparado, pode se defrontar com a insanidade, a destruição e «perder» sua alma como resultado desses encontros. Grant nos adverte: A força requerida para experimentar o sonho e continuar depois coerente é uma tarefa que poucos podem suportar.7

Como foi demonstrado acima, a maneira de adentrar a este Universo B, as Cavernas de Choronzon, é pelo portal de Daäth, guardada pelo próprio Choronzon. Aqui, Choronzon encarna o fantasma da dispersão, da confusão e instabilidade para aqueles que não conhecem sua verdadeira natureza. A fórmula mágica para se compreender a natureza de Choronzon foi perfeitamente propagada pela tradição tântrica e repousa como um relicário sagrado no Soberano Santuário da Gnose, O.T.O. Essa é a Fórmula do Jardim do Éden, a fórmula do amor sob vontade. Éden «ODNH» soma 129. Este é o número de «OITM», que significa um lugar de criaturas vorazes. Esse é um dos nomes que designam a «função» de Choronzon como guardião do portal de Daäth, o portal da morte. O simbolismo é significante. «ODNH», Éden, significa prazer. O local de prazer e aniquilação – ou morte pelas criaturas vorazes – foi identificado como uma caverna ou um santuário oculto tipificado pelo útero ou pela vulva, quer dizer, o Jardim do Éden. Da mesma maneira que a semente solar é aprisionada na caverna negra do útero para ser reificada na matéria, o Santuário Oculto de Choronzon é o local da aniquilação – morte – ou transformação para uma vida futura, cuja consciência é mágica.

Choronzon soma 333. Ele é a metade feminina d’A Besta 666. Sua metade masculina é Shugal, que soma 333. Unidos eles são Choronzon-Shugal e somam 666. Representam a interação entre sacerdote e sacerdotisa nos Arcanos do IXº O.T.O., um dos portais mais efetivos para a experiência não-humana nas Qliphoth e Túneis de Seth. A Besta é o Dragão do Abismo, Leviathan, o «Senhor das Conchas», «Rei dos Demônios». Leviathan é a serpente que veio até a mulher e sobre ela derramou sua impureza de forma que ela pudesse se transformar em sua habitação – habitaculum – maligna. Seu número soma 440, equivalente a «LBBVTh», placentae ou bolo, uma referência a sua impureza, seu excremento, o que forma a base do XIº O.T.O., o elixir rubeus. A raiz de Leviathan é «ThN», Tanith, o Dragão das Profundezas que se manifesta no Ofício de Babalon, a sacerdotisa consagrada a Corrente Draconiana. Portanto, a O.T.O. é guardiã das chaves que abrem o portal de Daäth, pois através da Fórmula do Jardim do Éden, Babalon «Leviathan-Lúcifer-Choronzon-Tanith» oferece o fruto da Árvore do Conhecimento e possibilita a iniciação. É dessa maneira que a kuṇḍalinī encarna no papel de Babalon como a serpente que provê a Luz.

A Natureza dos Kālas ou Túneis Sethianos:

Também são em número de 22 os caminhos reversos do Tarot na Árvore da Morte. Esses caminhos sombrios foram inicialmente explorados por Crowley e, oportunamente, revisitados e enriquecidos com as pesquisas de Grant. No Brasil, a Ordo Tifoniana Occulta tem facilitado o acesso, através de suas publicações, a estes preciosos conhecimentos.

Vale ressaltar que a palavra hindu kāla significa tempo como fonte de todas as coisas. Na filosofia tântrica, são os fluxos do tempo «aromas, flores, emanações, fenômenos, secreções», particularmente ligados aos kālas humanos ou fluídos corporais «sangue, sêmen, leite, suor, menstruação, cera do ouvido, a melatonina produzida pela glândula pineal etc.» dos quais o Tantra enumera mais de 30. Muitos desses kālas são produzidos por determinadas práticas sexuais ritualizadas. Kenneth Grant usa a palavra kālas com o mesmo sentido que expusemos acima mas também faz um uso pessoal dela. Para ele, kālas é sinônimo de Túneis de Seth, uma vez que ele os vê como sendo «secreções». Nós partilhamos dessa ideia.

Esses 22 caminhos sombrios são protegidos por Guardiães que são o exato oposto dos Guardiões do lado frontal da Árvore. Os Guardiães Sombrios são seres ligados aos aspectos mais obscuros da existência: perversões, blasfêmias, distorções e experiências não-humanas, extra-terrenas.

O Trabalho com as Consciências Qliphóticas

O trabalho prático com as Qliphoth requer uma base, uma profunda compreensão, equilíbrio e desenvolvimento interior que somente uma escola espiritual como a Ordo Tifoniana Occulta pode, efetivamente, proporcionar. O contato com os arcanos sombrios, sem o devido preparo, pode ser mais deletério do que se imagina. Lidar com as consciências qliphóticas é o mesmo que lidar com substâncias tóxicas, animais perigosos ou mexer com fios de alta voltagem.

As Qliphoth são as energias cósmicas negativas «o que não quer dizer más» que se equilibram ou se compatibilizam com as Sephiroth positivas, por exemplo, Lilith é a contraparte sombria de Malkut.

Uma comparação disto pode ser estabelecida através do processo digestivo, cujos resíduos são excretados. No mundo da alquimia é dito que a Pedra Filosofal se encontra «naquilo que todos os homens rejeitam ou desprezam.» Isso gerou, nos menos avisados, a busca pela substância em excrementos diversos.

Mas, o que significa a palavra excremento? Do latim, excernere que quer dizer «separar». É, assim, uma separação, um retirar das cascas permitindo que aquilo que foi expelido não mais retorne a nós. É o que faz a serpente ao trocar de pele, deixando a casca para trás, absolutamente renovada. Aliás, pele em latim é cutis e seu cognato grego é skalos «esterco». É curioso o fato da palavra pele ter, em diversas línguas, a recorrência da letra «K». skin, skatos, kina, kakadu, sisek.

O que a maioria de nós rejeita não é necessariamente o excremento, mas o mundo mesmo, uma vez que tentamos nos dissociar dele. Obviamente, se fossemos unos com ele teríamos o solvente universal nas mãos. Tal é assim pois o mundo contém todo o poder da natureza e em seu atanor secreto é possível ter «ouro».

Um dos grandes equívocos que nos acomete é o fato de não nos aceitarmos ou esquecermos que somos deuses e deixamos de nos auto-avaliarmos, disciplinarmos e melhorarmos enquanto seres em desenvolvimento. Aliado a isso, erroneamente encaramos Deus ou aquilo que consideramos como Superior como sendo a encarnação da perfeição, ao invés de vê-Lo como um ser em constante evolução e vir a ser. Somente ídolos e deuses escravistas são perfeitos. Nem mesmo Odin se considerou perfeito: teve que fazer vários sacrifícios para atingir a sabedoria. A história de Buda não é muito diferente. Quando você diz que você não é Deus quer dizer que você não é um ídolo. Porém, um ídolo é exatamente o que o homem moderno fez de si mesmo. Ele se adora, mas não como um ser divino e sim se apega a seus vícios e virtudes, não indo além da dualidade e se fixando cada vez mais na matrix.

Na Qabalah, o processo de se liberar das prisões sensoriais, dos traumas psíquicos, dos direcionamentos impróprios das energias, está separação ou excremento é chamada de Qliphoth, as personificações nocivas.

Todas as expressões divinas têm suas Qliphoth e na atualidade, mais que em outras eras, essas expressões desequilibradas têm ganhado terreno na medida exata em que a busca pelo Superior perde terreno pela fixação obsessiva e compulsiva em direção à gula, à estética, ao sexo, ao lazer, aos entorpecentes e ao descanso. A Divindade que está fora do eu, não é a Divindade.

A comparação de Alan Walt´s sobre a cebola e o trabalho com o self «eu» é bem-vinda: você descasca e descasca até que nada mais reste.


Notas:

1. Kenneth Grant, O Lado Noturno do Éden. Tradução particular de Fernando Liguori. O termo utilizado por Grant é significativo. Por «consciência mágica» nós compreendemos um profundo estado de lucidez «viveka». No sistema de Patañjali, o estado de viveka obtêm-se através do cultivo do draṣṭṛ «aquele-que-vê», o poder da consciência «cit-śakti» e nos termos do Ocultismo, o Sagrado Anjo Guardião. Podemos compreender então o Sagrado Anjo Guardião como consciência pura, um estado de lucidez altamente refinado. Neste estado, não é possível se identificar com a natureza inferior promovida pela manifestação de ahaṃkāra, o ego ou «consciência de egoidade», condição conceitual da percepção de si mesmo como individualidade independente. Essa interpretação revela que o Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião não é conquistado através de uma operação cerimonial, mas do somatório total de todos os nossos esforços diários em direção à manifestação dessa consciência mágica.

2. Idem.

3. Citado por Kenneth Grant em O Renascer da Magia, Madras Editora, 1999.

4. O cárcere da dispersão foi confundido com as Cavernas de Choronzon. Aqui nós temos uma interpretação diferente de Choronzon daquela nos informada por Crowley. Choronzon soma 333, a metade feminina d’A Besta. A outra metade, a masculina, Shugal, também soma 333. Unidos eles somam 666, o número d’A Besta ou do Universo B.

5. Kenneth Grant, O Lado Noturno do Éden. Tradução particular de Fernando Liguori.

6. Kenneth Grant, Hecate’s Fountain, Skoob Books, 1992.

7. Kenneth Grant, Aleister Crowley & o Deus Oculto. Tradução particular de Fernando Liguori.




2 comentários:

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