quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O Néctar & o Veneno



Fernando Liguori


O texto que se segue é uma adaptação do artigo publicado no Yoga Dṛṣṭi intitulado «O Bindu Branco & o Bindu Vermelho», também de minha autoria. Essa reapresentação está destinada a hermetistas de todos os níveis.


Existe uma grande controvérsia acerca da direção que a «energia mágica» ou a «corrente criativa» deve tomar no momento da realização do Arcano. Kenneth Grant ponderando sobre o assunto diz: «Madya ou o vinho que intoxica é liberado quando a Serpente de Fogo obtém sua apoteose na esfera lunar.[1] O néctar é jogado para cima, inundando e permeando todo o organismo mediante o persistente uso do akuncanan. Este licor é conhecido como amta «a ambrósia dos deuses». Segundo os Tantras, aqueles que bebem qualquer vinho exceto este são meros bêbados. Esta é a substância do Elixir da Vida que flui desde os pés da Deusa, i.e. desde o orifício genital da mulher eleita para representá-la. Este fluido está carregado com poder somente quando o akuncanam é praticado, quando a Serpente de Fogo relampeia para trás e para cima entre a região prostática e o cérebro, i.e. entre o mūlādhāra e o brahmarandra.»[2]

Este opúsculo de meditação é uma tentativa de explicar esse processo nos termos da fisiologia yogī e tântrica. Em uma curiosa passagem, Crowley confessa:

Paradoxal como pode soar, os tântricos são na realidade os mais avançados entre os hindus. A essência dos cultos tântricos é que pelo desempenho de certos ritos de magia, não apenas se escapa dos desastres, mas obtêm-se bênçãos positivas. O tântrico não é obcecado pela vontade de morrer. E difícil, não ha duvida, conseguir algum divertimento na existência, mas ao menos não e impossível. Em outras palavras, ele implicitamente nega a proposição fundamental de que a existência é sofrimento e formula o postulado essencial [...] que quer dizer existir porque o sofrimento universal (aparentemente certo por todas as observações comuns) pode ser desmascarado. Nos ritos iniciatórios de Ísis, nos antigos dias de Khem (Egito), um Neófito estendendo sua boca para beijar as espichadas nádegas do Bode de Mendes Vê-se sendo acariciado pelos castos lábios de uma virginal sacerdotisa daquela Deusa em cuja base do relicário estava escrito que Nenhum Homem levantou o Seu véu.[3]

Crowley estava ciente de que o ápice do ritual tântrico reside em sua conexão com o orgasmo magicamente dirigido. Mas aqui cabe fazer uma distinção. O conceito tântrico de orgasmo é muito distinto daquilo que concebemos com o mesmo nome aqui no Ocidente. Para nós, a palavra orgasmo é sinônimo de «descarga seminal», tanto no homem quanto na mulher. Contudo, para os tântricos – e nos parece que W. Reich estava ciente disso – o orgasmo é um acontecimento que envolve todo o complexo psico-físico. A descarga seminal é física, o orgasmo é metafísico. O orgasmo envolve a manipulação da Serpente de Fogo «kuṇḍalinī», cujo aspecto sexual é sua forma mais densa, material. O sêmen é o produto final, senão o dejeto, a sobra da corrente criativa impropriamente trabalhada durante a realização do Arcano.

A corrente criativa, nessa perspectiva e de acordo com a doutrina tântrica vāmācāra,[4] se expressa de duas formas: a mágica e a mística. A corrente mágica atua nos cakras mais inferiores, a corrente mística nos cakras superiores. Com a ejaculação seminal ocorre a perda de prāṇa e ojas, gerando ou criando formas materiais, dentro ou fora do útero. Como expliquei no artigo Evocação Sexual, essa sobrecarga ou desperdício de energia pode engendrar entidades qliphóticas provindas dos recessos mais profundos da mente inconsciente, larvas astrais e monstros titânicos nascidos da imaginação voluptuosa ou pode energizar os mais distintos organismos no plano astral. Paracelso refere-se a essas entidades como homúnculos, criaturas engendradas artificialmente por meio do sêmen sem o organismo feminino.

O Livro da Lei, um grimório tântrico do Novo Aeon, encerra essa doutrina na seguinte passagem (II:26):

Eu sou a secreta Serpente enrolada pronta para saltar: em meu enrolar está o prazer. Se Eu ascendo completamente minha cabeça, Eu e minha Nuit somos um. Se Eu inclino para baixo minha cabeça, e verto veneno, em seguida é arrebatado da terra, e Eu e a terra somos um.

A meta é portanto conquistada somente na reversão da corrente mágica. Nos termos da cultura tântrica e do yoga, esse processo ocorre como se segue.

No corpo masculino, o shukla (bindu branco) emana da região da lua na forma de amṛta, o néctar da vida, gotejando do bindu-visarga para baixo na região do viśuddhi-cakra. Devido às propensões naturais, do viśuddhi ele cai na região do agni-maṇḍala, o maṇipūra-cakra onde é consumido pelo sol. Posteriormente, ele cai nos centros mais inferiores onde é transformado em sêmen e escapa do corpo. Embora o bindu caia dos centros superiores aos inferiores no processo natural da vida, ele pode ser revertido e impulsionado novamente para os centros superiores através das práticas de kuṇḍalinī-yoga, reintegrando-se com sua fonte, o bindu-visarga. A natureza do sistema feminino é diferente a este respeito. Ele está relacionado com o rajas (bindu vermelho), que é estabelecido nos centros inferiores e está associado com o sistema reprodutivo e o ciclo menstrual. O rajas é unido com o sol na região do maṇipūra-cakra, o que revela que a tendência natural da mulher é criar e suportar a vida. A mulher não precisa transcender o mundo natural a fim de adquirir experiências espirituais. Sua receptividade interna cresce através do processo natural da vida, especialmente nos períodos de reprodução, o que resulta na experiência direta da Realidade Última. Por conta disso, no passado, as mulheres geralmente não se envolviam com práticas espirituais a fim de despertar sua natureza divina e seus poderes relacionados. Contudo, a mulher que canaliza o rajas aos centros superiores experimenta um despertar mais poderoso do que o homem, pois o rajas é muito mais forte que o shukla, especialmente quando está concentrado nos centros inferiores. É por conta disso que a contraparte feminina, a dūtī ou sacerdotisa, sempre foi essencial na tradição tântrica.

De acordo com o Tantra, o bindu existe em duas formas, o branco e o vermelho. O bindu branco representa o princípio-consciência, Puruṣa ou Śiva. O bindu vermelho representa o princípio-energia, Prakṛti ou Śakti. Dentro de cada indivíduo o bindu branco se origina no assento da lua, o bindu-visarga-cakra, e o bindu vermelho no assento do sol, o maṇipūra-cakra. Embora ambos os bindus estejam presentes em cada indivíduo, o branco é predominante no corpo masculino e o vermelho no corpo feminino.

Quando o bindu branco cai, ele é transformado em sêmen (shukla) ou fluído masculino reprodutivo. Quando o bindu vermelho cai, ele se torna fluído menstrual (rajas). Através de práticas específicas de kuṇḍalinī-yoga, o sêmen produzido pelo corpo masculino pode ser transmutado novamente em consciência. Similarmente, o fluído mestrual produzido pelo corpo feminino pode ser transmutado novamente em energia. Este processo de transformação somente é possível porque em um nível sutil estas duas energias existem na forma de sementes ou bindus. No processo yogī, é extremamente importante reter estes dois bindus pelo processo de sublimação; somente desta maneira o progressivo despertar das forças espirituais elevadas não será obstruído.

Rajas é descrito nas escrituras como um vermelho radiante, uma referência clara ao fluído menstrual. Contudo, o óvulo é a manifestação física do bindu no corpo feminino. O folículo ovariano, que nutre e envolve o óvulo, é responsável pelo ciclo menstrual. O fluxo menstrual e as secreções vaginais são manifestações dependentes do óvulo porque o folículo ovariano secreta estrogênio e progesterona, hormônios que induzem a proliferação do revestimento uterino e sua expulsão durante a menstruação.

Portanto, o bindu vermelho ou rajas está relacionado com o ciclo reprodutor feminino em um nível físico. Em um nível prânico, contudo, rajas corresponde a prāṇa-śakti, a força vital representada pelo sol e pela cor vermelha. O maṇipūra-cakra, atrás do umbigo, é o centro ou plexo solar, conforme o kuṇḍalinī-yoga. Ele é o grande armazém de prāṇa e o centro do fogo (agni-maṇḍala), simbolizado por um triângulo vermelho invertido. O rajas, neste nível prânico, situa-se nessa região.

Shukla, o bindu branco, é representado em um nível físico como o espermatozóide no organismo masculino, cujo veículo é o fluído seminal. O espermatozóide se torna o bindu quando o sêmen é sublimado. No processo de sublimação, nem o fluído ou a energia escapam do corpo. Contudo, não é a retenção ou a emissão do fluído seminal que importa aqui, mas a conservação da energia que é utilizada em sua produção.

O assento do shukla é a lua, que se relaciona com a mente ou citta-śakti, a força mental ou consciente. No kuṇḍalinī-yoga a lua é representada em dois níveis de evolução: no nível instintivo ela é representada pelo swādhisṭhāna-cakra e no nível mental mais elevado pelo bindu-visarga-cakra. Na simbologia dos cakras, a lua é associada a estes dois cakras. Portanto, o bindu branco está associado à produção do sêmen no nível do swādhisṭhāna e a secreção do amṛta no bindu-visarga. Assim, o bindu branco se relaciona com a lua, que corresponde tanto ao swādhisṭhāna quanto ao bindu-visarga, dependendo do contexto.

Como rajas ou prāṇa-śakti está associada ao sol na região do maṇipūra e se manifesta como força procriativa na região do útero ou swādhisṭhāna, ela se sustenta por apāna, a força prânica que usualmente desce da região do umbigo até o períneo. Os diferentes mudrās, bandhas e kriyās do kuṇḍalinī-yoga revertem o fluxo descendente de rajas, de maneira que ele possa novamente voltar a região de agni-maṇḍala ou maṇipūra-cakra.

Neste processo, o grande armazém de prāṇa no maṇipūra é gradativamente ativado e desperto pela força de rajas. Posteriormente, pelas mesmas técnicas citadas acima, o despertar do prāṇa ou rajas é dirigido para dentro da suṣumṇā-nāḍī, de onde ascende com grande força e se integra com o bindu. Esse processo pode ser comparado ao despertar da kuṇḍalinī no nível de maṇipūra. Portanto, é dito que com o despertar da kuṇḍalinī a partir do mūlādhāra, prāṇa-śakti ascende como uma garoa fina, mas quando a kuṇḍalinī desperta a partir do maṇipūra, ela ascende como uma torrente de energia, um verdadeiro vulcão em erupção.

Integrando rajas com o sol na região do maṇipūra, o despertar da kuṇḍalinī se torna estável e continuamente progressivo. O despertar da kuṇḍalinī a partir do mūlādhāra nunca é permanente. Ela sobe e desce devido à ação gravitacional das identificações e associações materiais. Não existe força o suficiente para atravessar as barreiras kármicas e instintivas dos centros mais inferiores. Contudo, quando a kuṇḍalinī é desperta a partir do maṇipūra-cakra pela integração do rajas com o sol, não existe queda posterior e o rajas sobe desimpedido através da suṣumṇā-nāḍī para se integrar com bindu.



[1] I.e. a zona de poder além do viśuddhi-cakra.
[2] Cults of the Shadow, Capítulo 5. Frederick Muller, 1975.
[3] Citado por Kenneth Grant em O Renascer da Magia, Capítulo 2. Madras, 1999.
[4] Eu fiz um comentário extensivo sobre o assunto em vários dos artigos publicados no Yoga Dṛṣṭi e no Anuttara Trika Kula. Todas as escolas tântricas e o Tantra em si são enfáticos na preservação, para fins mágico-espirituais, do sêmen. Entretanto, algumas escolas de linha vāmācāra executam rituais em que às vezes é utilizada a corrente mágica, não a mística. Quer dizer, há certos rituais em que existe o emprego da corrente criativa exteriorizada. Mas isso é exceção, não a regra. Veja meu artigo Tantra, Neotantrismo & Brahmacarya.

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