sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A Deusa & o Trovão




Fernando Liguori


Texto escrito por volta de 2008, época em que o autor ainda era casado. Trata-se do nascimento físico de uma criança mágica.


NOS tempos antigos o papel da mulher na sociedade era de fundamental importância para a manutenção da vida e do controle da integridade social e religiosa. O papel do homem era desconhecido no processo de fecundação e todo o ciclo social era baseado nos princípios femininos e, portanto matriarcais. Nestes tempos existia uma estreita conexão, uma profunda identidade entre o crescimento das plantas e o nascimento das crianças. No intuito de se celebrar esta identidade, cerimônias com ritos sexuais eram realizadas para promover a fertilidade nos campos. Embora isso seja um fato real e comprovado pelos estudiosos modernos o simbolismo da mulher fértil está intrínseco neste processo. Assim como a terra deveria ser fértil a fim de prover alimento a sociedade, a mulher também deveria ser fértil para prover a vida e portanto a continuidade social. Para as tribos primitivas, a necessidade de fertilidade era um imperativo não só para as mulheres – a fim de se combater as altas taxas de mortalidade infantil – mas também para os rebanhos e campos, fornecedores de alimento.

Os primeiros indícios de rituais associados à maternidade, à fertilidade do solo e a agricultura foram encontrados nas pesquisas arqueológicas das antigas civilizações do Vale do Indo, nas cidades de Harappa e Mohenjodaro (2500 a.C.) Contudo, traços de uma sociedade baseada nestes princípios foram encontrados no neolítico (8000 a.C.), e muitos de seus símbolos são datados do paleolítico (20 000 a.C.). Todas estas descobertas arqueológicas testemunham sua reverência à fertilidade da mulher e sua capacidade de gerar a vida. A vulva foi o primeiro portal espiritual que exercia a função de se estabelecer comunicação entre o plano material e o espiritual.

Também era sabido que o sangramento, se não estancado, podia levar a morte. Essa relação estabeleceu uma conexão entre o sangue e o princípio da vida, pois a perda de sangue lava consigo a vida. Esta mesma relação entre o sangue e a vida fora observada quando a mulher ao parar de sangrar, pela suspensão do ciclo menstrual, dá início ao processo em que uma criança nasce através de sua vulva. Correlacionando os fatos, as tribos primitivas não somente estabeleceram cultos envolvendo o sacrifício de animais onde o sangue era oferecido como oferenda às divindades, mas também cultos à vulva, pois para eles, ela representava um portal mágico capaz de trazer uma vida do mundo dos espíritos para a legião dos vivos.

Deste ponto em diante a mulher passou a ser percebida como uma encarnação divina, àquela que possuía capacidades supra-normais de se desdobrar em dois; capaz de trazer o Cosmos à vida. Portanto, seu corpo passou a representar a incorporação sagrada do aspecto divino da natureza, um templo vivo da Deusa, a Grande Mãe.

Por representar e incorporar um princípio divino feminino, as mulheres excepcionalmente férteis eram reverenciadas, ao mesmo tempo em que consideradas como possuidoras de poderes especiais que as capacitava dar à luz com freqüência. Uma mulher fértil com fartos seios e largos quadris – aumentados por tantas gestações sucessivas – tornou-se o modelo ideal de mulher, um protótipo da Deusa Mãe tão cobiçada pelos homens de sua época, uma representante terrena do poder inerentemente criativo do cosmos.

Pesquisas apontam que neste período arcaico da civilização, era o costume dos caçadores tribais mascararem-se com cabeça de animais, utilizarem pelos, chifres, peles e etc. com a finalidade de assimilar os poderes super-humanos possuídos por certos animais. Essa prática causava um efeito profundo sobre a psicologia dos caçadores. Isso porque o homem evoluiu das bestas, ele possui – profundamente aterrado em seu subconsciente – as memórias de poderes super-humanos de que uma vez possuiu. Cada animal tipifica um ou mais poderes: força e sutileza para o leopardo; visão noturna para o gato, coruja e morcego; poder de lidar rapidamente com a morte para serpente; o poder de transformação para hiena e assim por diante. Qualquer atavismo requerido poderia ser evocado pela assunção da forma divina apropriada. Pátañjali, que codificou o Yoga-Clássico, disse: através do samyama sobre a força de um elefante ou um tigre, o estudante adquire aquela força. Dessa maneira, ao copular com uma mulher fértil logo após uma caçada, essas qualidades super-humanas eram transferidas – através da cópula sexual ritualizada – para a criança que iria nascer e que, por sua vez, herdaria estes poderes, o que consequentemente enriqueceria a vida da tribo.

Quanto maior o sucesso do caçador em fornecer alimento para a tribo, maior seu status entre o grupo e maior as possibilidades dele ser escolhido para fecundar a ‘Mãe’ da tribo, quem lhe daria prazeres sexuais até a próxima caçada.

Uma mulher poderosa e inteligente seria capaz de influenciar o curso de toda uma jornada semestral de caça com a promessa de sua inclinação sexual ao melhor e mais forte caçador. O que certamente contribuiu para o desenvolvimento da tribo como um todo, gerando caçadores mais habilidosos e determinados, ao mesmo tempo que suscitava no coração dos mais novos um ímpeto de crescimento e desenvolvimento.



Mesmo vivendo em tempos modernos eu tive a sorte em minha vida de encontrar uma mulher assim. Um pessoa que incorpora o arquétipo divino da Grande Mãe, que está ao meu lado sempre me provendo com suas dádivas ao mesmo tempo que suscita em meu coração a busca eterna pela mudança, dia após dia, hora após hora.

Era 21 de setembro, equinócio de primavera de 2007. Eu me dirigia a uma cerimônia espiritual onde uma planta sagrada – ayahuasca – seria consagrada como sacramento ritualístico. O ritual se chamava O Vôo do Condor. Uma típica alusão ao estado de consciência proporcionado pela ingestão da planta de poder. Nós estávamos sendo recebidos com muitas saudações na Tribo de Shiva, um movimento espiritual neo-xamânico que se vale de um panteísmo universal para construção de seus rituais.

As cerimônias deste movimento são construções dramáticas psicoespirituais onde os participantes são levados – enquanto dirigidos por um neo-xamã – a vivenciar um estado de consciência onde existe a transição do mundo das máscaras para estados extáticos de consciência em busca de uma cura espiritual, direcionada sempre aos objetivos do ritual. O xamanismo é a arte sagrada de mudar o próprio estado de consciência a fim de penetrar em outros domínios da realidade, nos quais habitam os espíritos. A palavra shaman ou xamã é de origem siberiana (Tungúsia) e denota ‘aquele que tem experiência em viajar pelos mundos dos espíritos’. Ao concentrar-se no som de um tambor, de um maracá ou de outro instrumento de percussão, ou então pela ingestão de substâncias psicotrópicas como o ayahuasca, os xamãs mudam radicalmente o seu campo de percepção para que possam se comunicar com o mundo dos espíritos. Eles buscam obter poderes e conhecimentos essenciais para o bem-estar psíquico e corpóreo da comunidade a qual pertencem. Dentre os elementos que constituem o xamanismo e lhe são peculiares, temos de considerar estes como os mais importantes: a) uma iniciação que compreende o desmembramento, a morte e a ressurreição simbólicas do candidato, e que implica, entre outras coisas, uma descida dele aos infernos e sua posterior ascensão aos céus; b) a capacidade que o xamã tem de fazer viagens extáticas na qualidade de médico e “psiconauta” saindo em busca da alma do doente, roubada pelos demônios, capturando-a e devolvendo-a ao corpo; c) o “domínio do fogo” (o xamã encosta no ferro quente, anda sobre brasas, etc., sem se queimar); e d) a capacidade do xamã de assumir a forma de diversos animais (voa como os pássaros, etc.) e de ficar invisível.

Enquanto esperávamos pelo início da cerimônia, antes de adentrarmos ao local sagrado, ela chegou, junto a um grande amigo, Antônio. Seu jeito simples e seu olhar intrigantemente misterioso me fascinaram logo. “Quem é ela?” – perguntei a mim mesmo. Eu já sabia que Antônio viria trazendo alguém; ele estava em minha casa antes de buscá-la. Mas eu jamais poderia saber que era minha futura esposa, mamãe de meu filhotinho. Todos só estavam esperando a chegada dos dois e assim que chegaram logo fomos dar início ao ritual.

Para dar início ao trabalho espiritual daquela noite, antes de consagrarmos o vinho das almas, todos fizemos um grande circula dando as mãos. Ela ficou ao meu lado. Já que tive a oportunidade de tocar em sua mão dei o sinal: apertei sua mão, de forma diferente, duas vezes. Ato que a deixou intrigada por toda cerimônia.

O ritual durou a noite toda. Fazia muito tempo que eu não tomava uma peia igual aquela. Foi muito difícil para mim. Como estava passando por um período de transição e como as portas da natureza estavam abertas para que eu pudesse transcender o tempo e ir além do espaço, rogando a Mãe Kálí que me desse forças para fazer aquela passagem, passei por um processo de limpeza espiritual muito forte. Durante todo o processo havia algo dentro de mim que não saia. Eu cheguei até a consagrar um preparado especial para limpeza que o xamã me deu. Mas nada! Parecia que o que estava dentro não queria sair. Logo pela manha, finalmente, eu consegui me livrar daquele peso interno e fiz uma das maiores limpezas em todos estes anos em que convivo com plantes de poder.

A cerimônia foi finalizada da mesma maneira que começou, com um grande círculo de mãos dadas e novamente não perdi a oportunidade. Apertei a mão dela mais duas vezes. Após o término do ritual todos nós ficamos por lá comungando de um belo banquete, conversando sobre nossas experiências e desfrutando da companhia uns dos outros. Claro, eu não consegui tirar os olhos dela! Lá pelas oito da manhã Antônio avisou que iria embora. Era agora ou nunca: na hora em que estavam saindo fui me despedir dela. Abracei-a bem forte, encostei meu nariz e boca em seu pescoço, e a cheirei como um lobo cheira sua fêmea. Ela? Gostou!

Peguei seu telefone e no mesmo dia, à noite, nos encontramos. Ali começava uma história real de amor e luta cujo fruto seria o melhor presente de nossas vidas: a vinda ao mundo de Rudráh, nosso filho.

Nós fomos nos conhecendo e descobrimos muita coisa em comum. Uma delas era o nosso envolvimento com uma filosofia de vida chamada Thelema, cujo preconizador fora o ocultista inglês Aleister Crowley. Ela havia feito parte de uma organização oculta chamada Ordem dos Cavaleiros de Thelema (O.C.T.), mas já não estava mais envolvida com estes estudos. Eu, pelo contrário, estava mais que envolvido. Thelema era minha vida! Eu liderava um ramo de uma outra organização oculta, também thelêmica, chamada Ordo Templi Orientis (O.T.O.). Este ramo eu denominava pelo nome de Tradição Draconiana.



Não demorou muito e nós já estávamos fazendo os rituais secretos de magia sexual que compunham os graus mais elevados desta organização oculta. Fora em um destes rituais, ocorrido no dia quatro de novembro de 2007, que nossa criança fora gerada. O que se segue é o resumo do relato do ritual retirado de meu diário mágico:

Prática: OPVS III
Data: 04 de novembro de 2007 e.v.
Horário: 23:00.
Local: Loja Shaitan-Aiwass.
Prática: Babalon in falo Therion.
Objetivo: idem OPVS I.
Tempo: Chuvoso.
Fase da Lua: Crescente.
Estado emocional: Tranqüilo/feliz.

Descrição da prática: utilizamos olíbano, estoraque e mirra na fumigação limpando o templo e a aura dos participantes. Em seguida houve a consagração do HX a Mercúrio; invocação da C93; RM Pen.; circumbulação; RM Hex.; consagração do templo; inv. SAG; inv. Thoth; RM hex.; inv. Beni Elohim; Safira Estrela – IXº .’. 81 ‘.’ (Lilith). Consagração do sigilo: Mercúrio em Touro.

Elixir: Copioso, forte.
Resultado: - - -
Nota de 20 de janeiro de 2008: Neste ritual 81 ‘.’ ficou grávida!


Contudo, fora a nossa paixão pelo Yoga, o Tantra e o Áyurveda nossa maior afinidade, e fora esta mesma paixão o pivô da maior mudança que ocorreria em minha vida. Nos meses que se seguiram a notícia da gravidez, gradativamente eu fui me distanciando da filosofia de Thelema até que a decisão final fora tomada: meu afastamento completo deste sistema e minha aproximação definitiva do Yoga. E ela foi fundamental neste processo de mudança, que não foi fácil!

No equinócio de outono de 2008 eu já havia decido dedicar minha vida ao Yoga e ao Tantra. Larguei meu emprego e entrei de corpo e alma no ensino do Yoga, algo que eu vinha adiando há muito tempo. Embora já fosse professor eu somente praticava e dava algumas aulas particulares. Ela atuava na profissão, o que me inspirou e me deu ímpeto a largar tudo pelo amor a esta tradição. Com Thelema no passado, eu pude voltar a me dedicar integralmente ao Yoga, o Áyurveda e a tradição tântrica na qual eu fora iniciado muitos anos antes em minha juventude. Eu me refiro a Tradição Kaula.

Mas o processo de gravidez não foi fácil. Embora nós estivéssemos nos preparando para ter um parto completamente natural, em casa, no âmbito de um processo ritualístico, sem a incursão de nenhum procedimento cirúrgico, nossa relação estava complicada. Nós tínhamos de lutar muito para ficarmos unidos, pois muitas eram as forças contrárias a nossa união e as decisões que tomávamos. Ainda, havia a luta contra nossas próprias nidanas, complexos, medos e traumas. Havia dias em que nosso futuro parecia estar envolto em um sombrio véu de espessas nuvens negras. Mas confiávamos um no outro e gradativamente, juntos, fomos derrubando todos os obstáculos que apareciam a nossa frente. E isso nós fazemos até hoje, dia após dia.

Mês após mês nos traçávamos nossas metas. Elegíamos práticas espirituais adequadas ao processo de gestação, cuidávamos de nossa saúde para o bom desenvolvimento de nosso filho, nos atentávamos cuidadosamente com nossa alimentação a fim de proporcionar saúde plena para criança e mais do que isso, nos preocupávamos em demasia em manter nossas mentes centradas em nossos objetivos, sempre cultivando a paz, a harmonia, o carinho e amor em nossos corações.

No sétimo mês de gestação nós finalmente já havíamos decidido o nome completo de nossa criança. Levamos todo este tempo porque queríamos um nome que incorporasse um princípio espiritual forte e que estivesse em concordância com aquilo que acreditávamos ser a tradição a qual estávamos inseridos. Mas para isso nosso intelecto, nosso ego e todo nosso complexo-personalidade não podiam atuar na escolha. Portanto o nome deveria ser recebido em um ritual, onde nada disso pudesse estar influenciando.

Muitas foram às práticas espirituais e os rituais que fizemos para receber o nome completo até que finalmente ele chegou: Rudráh Mahesvára. Literalmente, a palavra Rudra significa ‘trovão’. Este é o nome arcaico de Shiva e é dito que na Índia aborígine, Rudra era invocado como deus das chuvas e tempestades enquanto adorado em rituais sazonais para promover fertilidade, controlar a natureza e remover todos os tipos de sofrimentos e obstáculos. Agora, Rudráh é o nome dos mestres ou expositores dos dezoito Shaivágmas conhecidos como Muktashaivas. Também são consideradas as deidades responsáveis pela manifestação do processo do mundo, seu mantimento e da retirada de sua manifestação. Elas são as almas que evoluíram e alcançaram o estado da consciência de Shiva. Mahesvára é o nome de Paramashiva como o Grande Controlador do Universo: Mahá (grande) + Íshvara (o Controlador). Todos estes significados estão inseridos no contexto espiritual do Shaivismo da Caxemira.

Finalmente chegou o grande dia: cinco de agosto de 2008. Este era o dia certo previsto pelos médicos para o nascimento de Rudráh. E tudo parecia correr bem. Ma´Lika’ (nome espiritual com o qual Julia recebera Rudráh) passou por todo aquele processo de contrações agudas por todo o dia. Às 18:00 h este processo se intensificou e eu iniciei a preparação para receber nosso filho. Preparei o quarto, ascendi às velas dos altares de Shiva, Kálí e Ganesha. Consagrei o vinho das almas e fui dar auxílio a ela. Minha mãe e minha sogra chegaram e foi aquela confusão. Ma´Lika’ com muitas dores parecia estar em outro universo. Sua mãe não sabia o que fazer. A minha, de tão nervosa, começou a limpar a casa inteira.

Às 19:00 h as parteiras chegaram e por sorte, a bolsa estourou às 19:56 h enquanto Ma´Lika’ relaxava embaixo do chuveiro. As contrações continuaram e nós fizemos uma grande corrente mágica concentrando nossas forças. Às 20:00 h iniciou-se uma chuva forte. Fazia dois meses que não chovia na cidade e quando o relógio marcou 20:30 h a chuva passou e Rudráh veio ao mundo.



Todo o ocorrido foi muito complicado. Chorei muito e naquela noite, poucos minutos após o nascimento de Rudráh eu fiz uma limpeza espiritual muito forte. Algo estava acontecendo dentro de mim. Um processo de transformação e cura se iniciou e hoje parece que as mudanças, durante todo o período de gestação até o nascimento, surtiram efeitos profundos em minha psique.



No presente, só tenho o que agradecer a Ma´Lika’, minha maravilhosa esposa, encarnação de shakti-deví, por ser esta grande mátrká de Rudráh, o nosso pequeno trovão, e por reger, com grande amor e carinho, o nosso lar.


0 comentários:

Postar um comentário

Ola, seja bem vindo para comentar. Utilize o bom-senso, seja profundo.