segunda-feira, 22 de setembro de 2014



Kenneth Grant
Tradução de Fernando Liguori
Cults of the Shadow, Capítulo 4. Frederick Muller, 1975


Que os sistemas orientais do Tantra eram baseados nos Cultos Draconianos ou Tifonianos do antigo Egito pode ser aduzido do depósito de muitos termos Egípcios nos textos dos Tantras, particularmente naquelas da Índia. P.e. shakti significando ‘poder’ – o conceito central dos Tantras – era conhecido eras antes, no Egito, como Sekht ou Sekhmet, a consorte dos deuses. Ela tipificava o calor ardente do sol do sul que possuía seu análogo biológico no calor sexual da leoa, um símbolo de origem Africana. Pasht, em Sânscrito, significa ‘animal’, e nos Tantras Pashu possuía uma específica conotação com referência a modos bestiais de congresso, i.e. congresso sexual não santificado pela tradição ortodoxa. Pashu da mesma maneira existia no Egito como Pasht ou Bâst,[1] a deusa felina que ‘agia como uma gata’, e cuja prole deu seu nome em eras posteriores aos bast-ardos que originalmente significavam crianças nascidas da mãe solitária na época em que o papel do macho no processo de procriação era desconhecido, ou quando a paternidade individualizada não era reconhecida. Nos Tantras, as paixões animais eram tipificadas por pashu, i.e. aquele que era desqualificado da performance dos ritos Tântricos envolvendo a utilização das energias sexuais.

O Khart no Egito era o deus Horus como a criança (Hoor-paar-Kraat); ele reaparece no panteão Hindu séculos mais tarde como Kartikeya, o filho do deus-sol. O deus On no Egito era o Sol, e o nome foi perpetuado na religião Védica como Ong ou Om, a vibração primordial do espírito criativo.

Contudo, um outro assustador exemplo é o nome da deusa Sesheta que tipificava o período da fêmea; no Hinduísmo, Sesha é a serpente de mil cabeças; ela também é o nome, nos Tantras, para vibração lunar ou ‘serpente da escuridão’ que se manifesta periodicamente nas mulheres. Tais exemplos da origem Egípcia dos conceitos Tântricos poderiam ser multiplicados quase indefinidamente.

Os Cultos Ofidianos da África foram purgados de seus acréscimos tribais e contingentes durante sua fusão com a Tradição Draconiana do Egito. Mas é na Divisão Kaula do Vama Marga,[2] ou Caminho da Mão Esquerda, que a forma mais perfeita desta tradição foi continuada na Índia e no Extremo Oriente. Desta divisão o Chandrakala[3] ou a recensão do ‘Raio-da-Lua’ reteve algumas das características primordiais dos Cultos Ofidianos.

A aplicação ao corpo humano nos processos Ofidianos foram revelados em três principais graus nos quais os segredos da magick sexual foram demonstrados com a utilização de suvasinis ou ‘mulheres de doce-cheiro’ que representavam a deusa primordial e que formavam o Círculo Kaula.[4]

A habilidade de se funcionar nos planos internos ou astrais e viajar livremente nos reinos da luz ou espaço interno, derivavam de uma purificação especial e o acúmulo de força vital. Essa força, em sua forma mais densa, é idêntica com a energia sexual. A fim de transformar a energia sexual em energia mágica (ojas), a Serpente de Fogo adormecida na base da espinha é desperta. Ela então purifica a vitalidade de toda impureza através da virtude purificadora de seu intenso calor. Assim a função do sêmen – nos Tantras – é construir o corpo de luz,[5] o corpo interno do homem. Conforme o fluído vital acumula-se nos testículos ele é consumido pelo calor da Serpente de Fogo, e as emanações sutis ou ‘perfumes’ deste sêmen vazado fortificam o corpo interno.

A adoração de shakti significa em efeito o exercício da Serpente de Fogo, que não somente fortifica o corpo de luz, mas gradualmente queima todas as impurezas do corpo físico e o rejuvenesce; pois os processos da vida, incontidos, depositam quantidades de cinzas ou matérias de excreção no sistema. Isso é governado pela Serpente de Fogo de sua cede na glândula coccídea (prostática): a região excretória aludida em alguns Tantras como os pés de shakti.[6] Os eflúvios desta região, quando retrovertidos, têm poder não somente para construir o corpo de luz, mas também para criar novos mundos, novas dimensões, nas quais o Adepto pode se locomover tão facilmente como o faz no plano mundano. No não-iniciado a matéria de excremento, não sendo purgada e recolhida pelo calor da Serpente de Fogo, permanece como os produtos finais do catabolismo e forma o sêmen, urina, fezes, e – nas mulheres – fluído menstrual. O Fogo transpira da pessoa comum nessas substâncias que, somente porque são imbuídas com uma centelha no nível deste Fogo, são acessórios úteis no trabalho mágico. Seu abuso, conforme na feitiçaria de eras antigas – quando eles não eram propriamente compreendidos e propriamente aplicados – explica as anormalidades monstruosas dos pseudo Culto das Bruxas e seus demoníacos sabbaths.

Quando as essências sutis, as ‘flores’ destas substâncias, são recolhidas e mantidas dentro do organismo humano elas dirigem seu Fogo internamente criando corpos mágicos que são utilizados nos rituais do Círculo Kaula. Iniciados possuem métodos de prevenir o depósito de sêmen nos testículos, e a urina possui propriedades curativas bem como é um estimulante; os Tantras dão instruções para sua utilização no rejuvenescimento do corpo físico. De muito maior importância, contudo, é seu valor como um agente bissexualizante que, se ingerido em alguns períodos do mês, cria uma condição a partir de onde o iniciado se torna andrógeno e sem medo. As fezes incineradas (i.e. queimadas até as cinzas) da mesma maneira são usadas nos rituais tântricos, e os Siddhas[7] se referem freqüentemente ao deus Shiva lambuzado com cinzas. Atrás deste símbolo, repulsivo quanto possa parecer aos não-orientais, ou, mais corretamente, aos não-iniciados, se encontra o grande mistério do rejuvenescimento, físico e astral, e a criação de novos mundos.

Quando a mulher escolhida para o cakra pújá[8] é adorada como a Deusa, a poeira – ou cinzas – são lavadas de seus pés e coletadas em um cálice especialmente consagrado de vinho que é então ingerido até o fim pelos Adeptos do Círculo Kaula. Aleister Crowley, em Liber VII, volta ao assunto da origem Egípcia deste Rito do Panchatattvas[9] ou Cinco Princípios:

Eu conheço aquele horrível som de alegria primordial; sigamos nas asas da ventania, mesmo até a casa santa de Hathor; ofereçamos as cinco jóias da vaca em seu altar! (III:37)

A cinco jóias da ‘vaca’[10] são os cinco makaras.[11] O Siddha Tamil, Nampi Arurar, freqüentemente menciona a Deusa Suprema ‘cujos pés são macios e ternos como os rebentos das folhas; lindos, como algodão macio [...]. Seus pés macios são coloridos de vermelho como algodão tingido’.[12]

A palavra vaca (go em Sânscrito) é um eufemismo para fêmea humana e o rito secreto de iniciação, daí seu maya[13] ser consumido e conhecido como Gomaya Diksha.[14] A porca também é utilizada como um tipo cognato, pois o porco é o único animal conhecido que come o excremento humano e foi adaptado pelos antigos como um tipo totêmico desta Iniciação. Excremento, neste contexto, visto como feminino, não se refere ao excremento intestinal, mas as emanações conectadas com os fenômenos da menstruação. Este é um outro caso de herança direta da Tradição Draconiana, pois a imagem do porco era o veículo de Khonsu cuja imagem aparecia – junto com a do porco – no orbe da lua cheia, assim mostrando a velha conexão entre Khonsu[15] e a corrente lunar manifestando-se no 15º dia, o dia da lua cheia.

A zona de poder no conus medullaris[16] pode ser aberta pela utilização destes gomaya kalas. O Varaha (porco ou encarnação do varrão de Vishnu), também oculta este simbolismo do Gomaya Diksha, e a Abadessa Sagrada da Lamaseria no Tibet era – até muito recentemente – conhecida pelo nome Dorje Phagmo, que significa a ‘porca eterna’ ou ‘diamantina’.

O exercício da Serpente de Fogo nesta manifestação física em um estágio primário do Rito é dito o lembrar da contração do esfíncter anal em cavalos e vacas após a expulsão do estrume. O ritmo do movimento do esfíncter praticado com a intensão mágica possui um efeito similar àquele da indução elétrica; ele gera uma corrente de energia dentro do filum terminale.[17] As substâncias internas são assim impedidas de sair do corpo e seus precipitados são puxados para o sushumnanadi[18] e misturados com o calor da Serpente de Fogo despertada. Daí a admoestação tântrica para ‘agarrar a Mulher Serpente pelo rabo – despertando a Adormecida!’, uma referência direta a Serpente de Fogo e a mulher em Sua incorporação física para os propósitos dos ritos Kaulas.

O astro-glifo da sacerdotisa magicamente consagrada é Escorpião. Quando o exercício conhecido como akunchanam[19] é realizado, as contrações constantes do músculo do esfíncter agem como um ataque sobre a Serpente de Fogo que então se levanta e ataca com seu ‘rabo’ o conus medullaris. Akunchanam alcança para o Tântrico o que o pránáyáma[20] alcança para o Hatta Yogin. Assim como pránáyáma, akunchanam não é exercido enquanto se come ou se bebe, ou durante as ‘formas mais elevadas de cuni-líncuos’,[21] i.e. a embebeção dos kalas magicamente carregados de Dhuti.[22]

Nas formas mais secretas deste ritual dezesseis mulheres são usadas como ‘mensageiras’ ou transmissoras dos fluídos sagrados; dezesseis sendo a culminação da corrente lunar, que atinge seu máximo no 15º dia. A Chefe Dhuti representa a Própria Deusa; a mensageira que se torna oracular no clímax do rito. Em tais momentos ela é capaz de conceder poderes mágicos (siddhis) a seus devotos, e às vezes transes e altos estados de consciência alterada, assim como quando Adeptos assumem formas atávicas e praticam uma forma de licantropia.[23]

Nos hinos dos Siddhas Tamil para a Deusa, a Serpente é descrita como inseparável de seu buraco, o que significa que nesta forma particular de rito a Serpente de Fogo não deixa sua base natural, o muladharacakra, ou o buraco de onde se lança o Oráculo Ofidiano. Nestas zonas, os membros do Círculo Kaula alcançam total realização de seus desejos em qualquer plano ou dimensão em que projetam suas vontades. Isso relembra o Sabbath das Bruxas que é uma paródia do rito, embora algumas autoridades sustentem que o genuíno Culto das Bruxas sobrevive no Oeste, com práticas dificilmente distinguíveis daquelas dos convens medievais.

Os textos religiosos Hindus, tais como o Chandogya e o Brihadaranyaka Upanishads, referem-se ao uso da mulher como um agente de fertilidade, mas eles não fazem menção à natureza oculta no rito o qual – embora utilizada sexualmente – ela forma o portal para objetivos totalmente transexuais. Os Agamas,[24] Tantras e Shastras dos Siddhas do Sul da Índia, contém mais referências específicas, e no Shivayogapradipika (cap. 3, v. 4), aparece a seguinte declaração inequívoca:

Venere, meu caro, o emblema auspicioso de Shiva (lingam) sempre dentro de vosso próprio coração, com vários tipos de flores feitas de conceitos condicionados e não-condicionados; flores que são os lótus multiformes e belamente coloridos, consistindo de centros nervosos tais como o Muladhara ou o plexo básico, assim como aqueles dos jasmins que muito brilham em seus centros.

No Tevaram as flores são ditas serem cinco em número, como as cinco jóias da vaca e o panchatattvas ou cinco princípios (makaras); eles são ‘as cinco flechas de flores no estremecer de Kama, o Deus do Desejo.[25] Quando Kama apontava suas flechas, Shiva (lingam) abria seu olho[26] e Kama era queimado até se tornar cinzas!’, uma referência a uma aniquilação do desejo e a natureza transexual do rito. O Sanatkumara declara:

Você não venerará apenas os meros exteriores;[27] tais são venerados apenas pelos profanos. Aquele que venera nos sete cakras é um seguidor dos Vedas, ele após a morte se tornará um mukta.[28]

Aqui novamente se encontra uma referência clara ao fato que estas práticas e seus resultados não estão restritos ao plano material. O uso do vinho é similarmente condenado se não é utilizado em um contexto ritual.
Dos celebrantes Kaula é dito:

O vinho eles utilizam em quantidades moderadas para controlar as imagens de suas mentes e para mulheres prolongarem suas melhores naturezas durante o tempo do Sadhana.[29]

Os comentadores do Gita, que o alinhavam com os Vedas, ou eram ignorantes do Tripura Upanishad ou não desejavam tomar nota das sugestões dadas livremente naquele shastra celebrado.

Inumeráveis textos sagrados e esculturas de templos ocultam a genuína Corrente Ofidiana sob uma aparência de símbolos divertidamente eróticos. Os orientais educados no ocidente interpretam nestes símbolos uma tendência excêntrica por parte de seus antepassados para assemelhar o processo da criação cósmica àquele do congresso sexual humano. I.e., naturalmente, uma dedução errônea, o arco das flechas e o apanga encantador ou olhares de soslaio outorgados através das donzelas dançantes sobre os objetos de suas divertidas atenções, são temas persistentes interpretados de uma maneira romântica; no fato real, eles se referem a processos psico-sexuais fundamentais do corpo humano em sua relação com a Serpente de Fogo. As ‘flores’ das flechas dos sentidos estavam para serem introvertidos e este processo era simbolizado pelo olhar fixo, de lado ou de soslaio dos apsaras[30] que representavam a Kundalini. Seu encanto e beleza indicavam ‘a graça da serenidade que é atingido somente pela reversão das sensualidades’.[31] Nesta visão apanga o Pranava ou Vibração Criativa OM é a ‘flor’ a ser utilizada. A natureza desta ‘flor’ e sua vibração criativa tem sido explicada;[32] ‘flores’ são as vibrações vaginais da suvasini emitidas durante a ascensão da Serpente de Fogo no corpo do sacerdote. ‘As cinco flechas dos sentidos em sua nova função (i.e. retrovertida), estimulam o fluxo do néctar em todo o sistema’,[33] implicando as flores a fragrância a qual emana da glândula prostática, as secreções urinárias e genitais antes que o sêmen, a fragrância que é útil em despertar a Serpente de Fogo. O processo é ecoado no Liber VII (III:24): ‘Vem! irritemos os vasos da terra: eles destilarão vinho estranho’, pois esta região vasa (próstata) é atribuída ao elemento terra.

Os Raja Yogins interpretam o processo da reversão em e através do elemento ar e usam – ao invés do akunchanam da Serpente de Fogo – o pránáyáma do alento. Os Kaulas, ou Tântricos Shakta, sustentam contudo que uma frágil reflexão somente pode ser alcançada através deste método, ao passo que o Shakta realiza a verdadeira Serpente de Fogo na região da terra,[34] o Yogin meramente realiza-a em sua mente, nas formas vagas e etéreas do ar; ele portanto experimenta uma ilusão ou imitação de realização completamente divorciado do plano físico. Para o Tântrico, por outro lado, akunchanam é o significado real de pránáyáma, ou controle da corrente vital. O voltar atrás da força aplica-se não a respiração apenas, mas ao próprio fogo, e é por isso – no imaginário poético e nas esculturas dos templos – que os sacerdotes exibiam a donzela com olhos virados para cima em oblíquo (i.e. retrovertido) apanga. Apanga ocorre somente quando a Deusa é inundada com o fluxo do amrita, o néctar emitido das flores das sensualidades introvertidas, a fragrância e brilho do próprio Elixir da Vida.

Como em um congresso sexual os olhos de uma mulher se viram para cima no momento do orgasmo, assim no tântrico coitus apanga isso ocorre na suvasini, e o adorador é inflamado com bem-aventurança.

As mulheres treinadas para o serviço no Círculo Kaula são de um tipo especial. Suas características são dadas no Hevajra Tantra.[35] Elas devem ser jovens, sem filhos, bem desenvolvidas e saldáveis. Devem ser capazes de fazer a retroversão sensual bem como capazes de se controlarem em todos os estágios do rito e punir ofensas cometidas pelos membros masculinos do Círculo.[36] Mas existe uma característica física de importância primordial e essencial à sacerdotisa dos Mistérios mais elevados: ela deve ser retromingente.[37] Uma tal peculiaridade anatômica não é comum mesmo nas mulheres Africanas ou Orientais; nas mulheres Européias é essencialmente raro.[i] Essa predisposição física é requerida para o Kaula equivalente aos ritos da ressurgência atávica tais como a licantropia e aqueles praticados no culto da hiena espectral.[38]

De acordo com os Adeptos Kaula, a Serpente de Fogo possui uma personalidade ou ego-complexo próprio, bem distinto de seus constituintes espirituais. Isso mostra que a mulher escolhida para representar a Serpente de Fogo é identificada com ela em um tal grau que ela é em si mesma uma personalidade poderosa, com grande força de vontade e individualidade. Ela não é adorada como um instrumento meramente passivo ou a incorporação da Serpente de Fogo, ela é a Serpente de Fogo e dirige a adoração e corrige erros de procedimento durante o ritual. Ela exerce sua influência mais direta no início do transe, imediatamente anterior à fase oracular. Austin Osman Spare, que freqüentou muitos Sabbaths astrais, observou o papel peculiarmente passivo desempenhado pelos membros masculinos da assembléia ‘enquanto as bruxas tomavam a parte ativa o tempo todo’,[39] que é uma razão pela qual ele aduz pela dominância do princípio feminino nos cultos primitivos, simbolizados pela bruxa voando no cabo de uma vassoura.

Diversas teorias têm sido publicadas para explicar a divisão dos Tantras no Dakshina e Vama Marga, o Caminho da Mão Direita e Esquerda. Os iniciados Kaula sustentam que a divisão ‘surgiu com a necessidade de se calar os inadequados, anulando-os da fonte da verdade. O ensinamento original lidava inteiramente com a utilização real da mulher para o homem. Por vama, o assim chamado caminho da mão esquerda, ou ‘magia negra’, se quer dizer: o uso de coisas geralmente consideradas sujas, as excreções do corpo humano; o uso de coisas que provocam nojo. Mas isso não é admitir que estas coisas sejam inúteis [...]. Os Tamils devotam volumes ao assunto.’[40]

Com o uso da prática yogi conhecida como viparîta karanî,[41] os sentidos são retrovertidos durante o próprio ato sexual. Os ritmos corporais são revertidos. O Vama Marga se refere particularmente ao Elixir da Vida ou os perfumes da regeneração e muitos de seus Adeptos de fato realizam um grau assombroso de longevidade física. Eles declaram que sua ciência do viparîta karanî reverte não somente as correntes da vida, mas a própria morte cessa de ser a experiência final. John Blofeld se refere aos Adeptos do Tantra Taoísta na China que são conhecidos por terem alcançado a relativa imortalidade.[42] Porém tal realização não é o último objetivo do Yoga Tântrico; ao contrário, os Adeptos deste Yoga são capazes de controlar sua consciência de maneira que não possuam necessidade de preservar intacto o corpo físico a fim de não perderem o fio da memória; eles podem ‘morrer’ em um corpo, renascerem, e ainda reterem os traços de sua identidade. Isso novamente, não é a meta última do Vama Marga ou qualquer dos Grandes Caminhos; a meta última é a total absorção na Deusa, e isto é realizado às vezes através da união sexual tântrica com as sacerdotisas que a incorporam. Esta é a meta dos genuínos Adeptos do Círculo Kaula.

O Caminho Kaula tem provocado severas censuras, particularmente no passado, por aqueles que aderem falsos valores ao corpo e seus produtos. Isso levou o Vama Marga a se retirar e isso o tornou ainda mais suspeito aos olhos dos não-informados. Hoje existem sinais, finalmente, que a prática Kaula possa ser vista pelo que ela é – um experimento científico com a química psico-sexual do corpo humano.[43] O Kalagni Rudra Upanishad dá direções para preparação e absorção de essências corporais ou kalas. Os Adeptos do Vama Marga utilizam os kalas reais na medida em que eles fluem na mulher utilizada para propósitos rituais. No Dakshina Marga,[44] por outro lado, certas alternativas foram empregadas segundo a moda dos Cristãos dos dias atuais que substituem produtos corporais pelo simbolismo do vinho e o pão que eram consumidos no agapoi dos primitivos ancoretas Cristãos. (Isto é realmente o Samaya Marga, defendido pelo reformador Lakshmidhara em meados do século quinze, que emprega substâncias substitutas). Eu sugeri em Aleister Crowley & o Deus Oculto (glossário) que a diferença essencial entre o Vama Marga e o Dakshina Marga é que os membros do anterior adoram a Serpente de Fogo no muladharacakra, enquanto que os Dakshinacharins elevam a Serpente estágio por estágio, deslacrando os siddhis das zonas de poder na medida em que ela ascende na coluna espinhal (sushumnanadi). Não é de maneira alguma fácil nesta distância do tempo nos certificarmos precisamente como estes Caminhos se diferenciavam na antiguidade, porém, parece que não há duvida alguma que os Shaktas das escolas Tântricas ‘reformadas’ – os pseudo-kaulas – substituíam o vinho pelo soma (suco-da-lua), carne por mansa (corpo-humano), peixe por mîna (clitóris), gestos rituais por mudras (os passes mágicos que deslacram as zonas de poder da suvasini), e o congresso simbólico por maithuna (magia transexual). Estes são os celebrados Cinco Ms ou Panchamakaras, também conhecidos como Panchatattva ou Cinco Princípios. Pancha, Cinco; Makara, a letra ‘m’. A palavra Makara também denota um peixe, um análogo mitológico do bode-aquático, o Capricórnio zodiacal, e, como tal, especifica a natureza dos Cinco Ms. Eles são as ‘cinco jóias da vaca’ (referidas previamente), os cinco princípios básicos ou tattvas representados pelos elementos terra, ar, fogo, água e espírito. Eles possuem uma significação especial quando relacionados ao número cinco, o número do pentagrama e da fêmea humana como o veículo da manifestação simbolizado pelo período lunar de cinco dias.[45] De acordo com a Qabalah Caldéia, a letra ‘m’, 40, é um número ‘morto’ da lei fixa. É a letra da água (i.e. sangue), o fixador, na carne, do espírito. Quarenta é 4x10, Tetragrama, e representa o homem ou ‘a menor expressão imutável do peso de Malkuth’, i.e. a cristalização da idéia na forma, a fixação do mundo dos sonhos em termos de consciência desperta e ‘sólida’ do mundo objetivo. Quarenta é também o número de GVAL, um título de Yesod, a zona de poder cósmica da corrente lunar e da ‘água’ ou kala que ela transmite. Soma ou madya, é um poderoso intoxicante; ele é a essência da urina destilada após reciclamentos repetidos através do corpo yoguicamente purificado.[ii] Este processo torna-o magicamente eficaz. Ele é o vinho do qual o mero álcool é o símbolo ritual. Sua constante embebeção bissexualiza o corpo e cria no Adepto as condições necessárias para a verdadeira assunção da forma divina, um dos principais propósitos do sadhana tântrico. Isto também torna um homem destemido e por esta razão os Adeptos deste Caminho são conhecidos como Bhairavas, os ‘destemidos’. O Bhairavi Diksha envolve os cinco makaras, madya (vinho) sendo o elemento água; terra é mansa (carne), ou excremento calcinado (gomaya). Os Bhairavis são untados com a cinza branca que possui muitas referências simbólicas para ambos os Shaivitas e Shaktas. No caso das flores ascéticas de Shiva, ele simboliza a renúncia da riqueza terrestre e possessões e a dedicação do aspirante a uma vida de devoção intensa a Shiva, o Auspicioso. Porém Shiva possui também um nome – Shambhu – que é uma cifra para a iniciação secreta envolvendo o madya e o mansa, o vinho e a carne. Para o elemento água é atribuído mina, do qual o símbolo ou glifo é o peixe. Isto simboliza os kalas da suvasini em um estágio particular do rito. Os mudras são sinais manuais ou passes feitos sobre o corpo da suvasini para trazer os kalas a sua manifestação em qualquer lótus particular. É dito que estes mudras são segredos rigorosamente guardados conhecidos apenas a iniciados do culto. ‘Eles não podem ser comunicados a não ser através da palavra ou boca face a face com o Guru’, diz o texto secreto. O quinto makaramaythuna – é o congresso transexual que causa a intumescência que libera os mahakalas, as supremas secreções que contém a presença mágica da Deusa. Os cinco makaras são produzidos em três estágios do rito formando assim 15 estágios ou graus que atingem a sua consumação no 16º kala, o último kala da imortalidade e o próprio elixir da vida – uma corrente de potencialidades mágicas que aquele que dela se embebesse adquire todos os siddhis.

O grande Yantra de Kali[46] é a fórmula linear da progressão dos kalas e sua culminação no 16º. O Yantra descreve o desenrolar da Deusa 15, representada pelos cinco triângulos simbólicos dos cinco makaras. O 16º kala é representado pela semente ou bindu[47] no coração do triângulo central (yoni). Neste lugar o bîja mantra[48] da Deusa está usualmente situado. Esta sílaba varia de culto a culto de acordo com qual o aspecto da Deusa está sendo venerado: Kali para se liberar de todas as formas de escravidão e para liberação final dos ciclos de nascimento e morte; Saraswati para habilidade poética e o poder de encantar através do discurso melífluo; Lakshmi para riqueza, e assim por diante. A sílaba determina a natureza e a ordem da corrente de letras que forma a grinalda da Deusa; cada culto possui suas atribuições secretas e conjunto de correspondências remanescentes da Qabalah Caldéia com suas atribuições numéricas, elementais, taróticas e outras para os Caminhos e Sephiroth da Árvore da Vida. Nos sistemas Tântricos os Sephiroth são equivalentes aos cakras vistos nas visões clarividentes ou durante o transe como espirais de luzes multicoloridas girando em diversas velocidades ao longo da coluna espinhal, as luzes menores brilhando e pulsando como estrelas através de toda a rede gangliônica de nervos que constituem a anatomia sutil do homem. Estas rodas de luz que giram rapidamente emitem um zumbido vibrante que é traduzido nas vibrações das várias letras do alfabeto atribuídas a cada cakra de acordo com a intensidade de seu som. Desta maneira a Deusa não somente se manifesta na forma de som e vibração, i.e. como mantra, mas também na forma de vetores de energia – os yantras denotando Sua presença nas diversas zonas de poder do corpo sutil.

Percebendo-se que ambos, sacerdotisa e sacerdote, combinam estas vibrações em um único som de poder, pode ser apreciado como é sutil e complexa a ciência do shabda (som)[49] quando estudada em relação ao trabalho de grupo no Círculo Kaula em pleno funcionamento de 8, 16, 28, e às vezes 43 participantes. Sir John Woodroffe tratou os princípios básicos do shabda em sua tradução do Varnamala ou Guirlanda de Letras: ‘O som cria eletricidade, magnetismo e campos eletro-magnéticos’. Assim, o yantra da Deusa é formado por uma rede de vetores conectando Suas zonas de poder. Seu mantra é a combinação e vibração última gerada pelas ações dos kalas que fazem seu curso através desta ramificação de nadis (nervos). Seu tantra é o atrair[50] destas potências para o nível mundano da consciência para sua utilização no Circulo Kaula. Este último é, de fato, o lótus externo, o círculo cósmico – em forma simbólica – que confina a Deusa e todas as Suas shaktis (energias) como tipificadas pelo Yantra de Dakshinakalika com seus cinco triângulos, quinze estágios, e o bindu oculto na yoni central; todo círculo, o lótus de oito pétalas, tipifica não somente as oito direções do espaço, mas também a cruz primordial dos quatro pontos e seu reflexo no corpo da sacerdotisa.[51]

Os cakras se tornam completamente energizados somente quando a Serpente de Fogo chega em seus diversos loci durante Sua ascensão. Descrições dos cakras, como tratados nos livros e textos sobre Yoga, são enganadoras porque as zonas de poder vêm ao ser somente quando a Serpente de Fogo está ativa.

As letras, cores, sons e formas a eles atribuídos variam de acordo com a disposição do praticante e o grau de sua competência espiritual. É improvável que qualquer dois ‘mapas’ das regiões sutis se corresponderiam, embora possa existir uma similaridade geral em alguns casos. Grande ênfase é colocada, na doutrina Kaula, na máquina complexa, o cérebro humano. Como o corpo maior que o cerca, como o macrocosmo cerca o microcosmo, assim para o cérebro são distribuídas várias áreas que são afetadas pela ação da Serpente de Fogo e que, por sua vez, influenciam os kalas liberados na corrente sanguínea da suvasini. A imagem de quatro faces de Brahma simboliza nos Kaulas o corpora quadrigemina, o quarto ventrículo do cérebro. Esta região é afetada poderosamente pela Kundalini em sua marcha para cima. O corpo pituitário (terceiro ventrículo), e o corpo pineal (quinto ventrículo) são similarmente sensíveis. Eles foram descritos como os Pricipais Cakras no cérebro e possuem seus centros correspondentes no muladhara, manipura, swadisthana e etc.; as zonas de poder correspondentes aos elementos Terra, Água e Fogo.

Quando a Serpente de Fogo emite seu veneno luminoso, ela jorra e permeia todo o corpo. Este transbordamento contém ojas, a corrente mágica que eletrifica o fluído cérebro-espinhal na região do sushumnanadi (canal espinhal). De acordo com o Tântrico Comentário Kaula ‘este transbordamento da Kundalini é primordialmente um transbordamento de sêmen ou do fluído feminino, conforme possa ser o caso’. É este o néctar do suco-da-lua, a ambrósia dos deuses que é consumida pela Serpente de Fogo durante o ritual. Quando não expelido do corpo – como na detumescência sexual – os ojas se transmutam e gradualmente rejuvenescem o organismo; eles emanam ‘do próprio pé da Kundalini na glândula coccídea, ou glândula Luskas, conforme alguns a chamam’.[52] Não é do cérebro, como os Samayins declaram, mas é influenciada e controlada pelos Principais Cakras que utilizam o cérebro como um meio físico de transmissão.

O Kala Supremo (Mahakala) dos ‘pés’ da Deusa é o assim chamado Elixir da Vida que é emitido com a urina, o fluído menstrual, e com o secreto 16º kala que é identificado com a vibração-raiz da mulher selecionada da parte da Deusa no rito Kaula.

O Shri Yantra,[53] o mais sagrado cakra da Deusa, é um complexo de linhas e ângulos, um mapa das zonas de poder em relação ao corpo da Deusa. Onde quer que duas linhas se encontrem, um sandhi é situado; onde três linhas se intercedem, naquele lugar existe um marma. Sandhis são pontos no corpo humano que controlam o mecanismo da intumescência; marmas, aquelas da detumescência.[54] Há 24 sandhis e 28 marmas, e para cada um é distribuída uma das 52 letras do alfabeto Sânscrito.

Tão sensíveis são os marmas que a menor pressão sobre eles causa mudanças na química do corpo e podem, em certos casos, causar a morte, ou, ao contrário, um acesso a Corrente de Vida que recarrega o corpo com energia vital. Alguns destes pontos são conhecidos e usados na arte do Ju-Jitsu que é para o Shri Vidya[55] o que a cartomancia é para ciências ocultas. As zonas erógenas (sandhis), bem como aquelas da detumescência (marmas) são cuidadosamente evitadas durante a invocação da Serpente de Fogo. A localização exata deles varia com cada mulher. Por esta razão, os Tantras não os classificam; um erro em suas localizações pode ser excessivamente perigoso! Como cada mulher planeja seu próprio ciclo periódico e está completamente familiarizada com seu pulso, assim os praticantes do culto Kaula fazem um estudo das mulheres usadas para propósitos rituais e para averiguar seu ‘tempo’ e disposição.[56] A fim de se certificar à localização precisa dos sandhis e marmas, os Kaulas empregam uma forma de ‘terapia de zonas erógenas’ que os capacita a fazer um gráfico da ascensão e decline do pulso lunar de cada mulher. Os Siddhas Tamulianos declaram que ‘é para dentro dos órgãos sexuais da jovem fêmea saudável que a Senhora do nosso mundo entrou para conquistar todo o mundo para nós que servimos a Ela’.[57]

O Saundarya Lahari (Onda de Beleza)[58] descreve o estado do frenesi extático que toma posse das mulheres durante o ritual. Elas aparecem como bacantes possuídas, fazendo posturas lascivas, despindo-se provocativamente exibindo todas as características do cio, contudo, os homens permanecem ‘velhos’, sem reação, friamente indiferentes a todos os agrados. Este é um simbolismo do estágio passado por um neófito quando a Serpente de Fogo começa a subir, ereta, transmitindo sua energia ao canal espinhal. O neófito é o ‘velho’ inerte, jiva (alma individual), mas dentro de si dança a força da vida cósmica inflamada com imensa paixão criativa. O fogo de Sua paixão assume formas atraentes, houris do paraíso, apsaras de incrível amabilidade que tentam o neófito a descarregar o fluído sexual. É neste estágio do rito que ele não deve renunciar o akunchanam e liberar o fogo que então jorraria para fora ao invés de permanecer interno para consumir as impurezas que se movem furtivamente no sistema. É também neste estágio que ele é testado em sua habilidade para ‘desensualizar os sentidos’ pois por este meio somente pode-o obter o amrita ou néctar da Deusa.

Nesta conjuntura o apanga é colocado em cena. A direção usual da Serpente de Fogo é para baixo e para fora, portanto, o apanga – ou direção da visão – precisa estar revertida e dirigida para cima e para dentro. Esta ação é refletida no corpo da Sacerdotisa. Quando o apanga dentro do neófito começa a reverter o fluxo do Fogo, os olhos da suvasini se inclinam para cima na medida em que o êxtase se aproxima de seu clímax. A partir deste momento suas vibrações vaginais se tornam de valor mágico positivo, e sua consciência normal como um todo se acaba. Ela se torna oracular e as palavras que fluem de sua boca não mais dos que os fluídos que fluem de sua vulva são carregados de suprema potência. Então ‘a suvasini se despe, naturalmente, como se seu amante lá estivesse; mas nenhum avanço é permitido, uma vez que o adorador é ‘velho’ demais e sabe demais para reagir. Quando estes sinais de intumescência começam a aparecer, é a hora de esperar, assistir e estar alerta em relação a detumescência e as secreções que a seguem. Se elas forem Bindu ou Nada, ou mesmo qualquer dos fluídos menores, elas são de valor conforme originadas da Kundalini da suvasini inflamada.[59]

Philip Rawson[60] sugere a probabilidade ‘que nos tempos antigos a potência especial do Tantra era transmitida ao longo da linha feminina das portadoras do poder; através do intercurso ritual com elas a iniciação era difundida’. Porém no Círculo Kaula os Adeptos não têm nenhum contato físico com nenhuma suvasini; mesmo os mudras (passes mágicos) são aplicados astralmente, e as energias que são extraídas são de uma natureza ‘etérica’, embora material.

De acordo com a tradição secreta dos Kaulas, o Kala Cakra ou Roda do Tempo, é idêntico ao Shri Cakra ou Yantra da Suprema Deusa. Em outras palavras o corpo da mulher – o repositório dos kalas eletro-magnéticos – é diamagratizado na forma de uma tabela do tempo.[61]

Assim como existem 365 dias no ano, assim também existem 365 kalas ou raios de fulgor emanando do Caminho da Deusa.[62] De acordo com o saber tântrico estes raios emanam dos pés da Deusa após Ela ter alcançado Sua morada na cabeça, a região do ajnacakra e do supremo cakra no além:[63]

Existem 64 raios da região pituitária (mente), ajnacakra;
Existem 72 raios da quarta região ventricular (akasha), visudhacakra;
Existem 54 raios da região cardíaca, anahatacakra;
Existem 52 raios da região lombar, manipuracakra;
Existem 62 raios da região sacra, suadisthanacakra;
Existem 56 raios da região prostática do canal espinhal, muladharacakra.
360, o Círculo Completo.

Deste Círculo Completo, 118 graus ou raios são aquinhoados ao Fogo, 106 ao Sol e 136 a Lua (360º no total), denotando os três estágios do ritual e as três divisões da corda espinhal. O comentador Kaula aqui observa ‘um ponto curioso: somente 360 raios ou dias são dados’. A razão pode bem ser que os cinco dias que estão faltando se referem ao ‘eclipse da lua’, pois o número 360 é aplicável a qualquer ciclo, não somente o solar e anual, mas o lunar e mensal também. Os cinco dias que estão faltando são, portanto os ‘graus ocultos’ do Círculo e, como tal, não são revelados ao profano; suas fórmulas secretas não são reveladas aos não iniciados.

Rawson observa:[64]

Para certos rituais é também importante que a própria energia vital da mulher esteja em seu pico; é ainda melhor se ela estiver menstruando. A tradição Hindu coloca que em diferentes dias do mês a sensibilidade sexual de uma mulher, que se relaciona com os movimentos cósmicos por seus próprios períodos, necessita ser provocada pela atenção especial a diferentes partes de seu corpo. Os diagramas ilustram estes pontos de provocação e os relacionam com as fases da lua.

A distribuição dos 360 raios de fulgor aos dias das quinzenas claras e negras formam uma ciência[65] tão complexa quanto as inter-relações dos vetores de força conectando os sandhis e marmas do Shri Cakra. A cada um destes dias e noites são distribuídas específicas formas divinas que os corpos astrais das suvasinis assumem. Estas formas divinas distribuem um néctar sutil em consonância com sua natureza. As complexidades do sujeito podem meramente ser mencionadas aqui, mas é importante compreender que estas deidades interiormente localizadas são, em um sentido, os guardiões ou espíritos familiares de seus respectivos veículos femininos. O antigo Bön-Pas Tibetano utilizava estes demônios,[66] e eles foram perpetuados pelos Budistas das Escolas Tântricas e Mahayana como as Dakinis ou Rainhas-Bruxas.[67]

Haveria pouca razão para se listar aqui estas deidades assim chamadas nitya, porem as mais importantes[68] podem ser mencionadas. Nos genuínos rituais do Caminho da Mão Esquerda existem as Vasinis e as Arkashanis, e, onde um Shri Cakra completo é trabalhado, existe também o complemento completo das 43 Yoginis, uma para cada yoni ou triângulo. Cada Yogini representa uma letra[69] que, como previamente explicado, incorpora uma vibração consoante com efeito que a Yogini tem sobre os estágios da ascensão da Serpente de Fogo. É desta classe de sacerdotisas conhecidas como Vasinis que o Yajaka (Alto-Sacerdote) seleciona seu material para cada estágio da adoração; e as Vasinis somente podem servi-lo na área interna de oito yonis ao redor da própria Suvasini. As Yoginis são um tipo completamente diferente de sacerdotisas; elas são especialmente selecionadas pela aptidão natural onde certas práticas fisiológicas são necessárias; mais especificamente os ‘olisSahajoli, Vajroli e Amaroli, estes três sendo os mais celebrados.[70] Mas os Adeptos do Círculo Kaula não praticam os ‘olis’ da maneira praticada pelos Hatha Yogins. A fórmula real nunca fora revelada. ‘Isto pode ser declarado sobre as Yoginis, que são mulheres que de fato emitem a radiância ou elixir ou perfume’,[71] o que implica que em outros tipos de praticantes estas essências não são necessariamente manifestas.

As mulheres escolhidas para o ofício da Suvasini – a verdadeira incorporação da Serpente de Fogo – são retiradas das classes de Vasinis, Yoginis ou Arkashanis. As Vasinis são de tipo reflexivo e sugestivo com uma predisposição principalmente lunar. As Yoginis são de tipo escorpiônico, agressivas, intensamente sexuais. As Arkashanis são de charme excepcional e fascinação: ‘Cuidado deve ser tomado com elas para que não o enfeiticem.’ As Arkashanis são melhores para regular a Operação apesar de sua tendência de lançar feitiços sobre seus adoradores, em relação a quem eles agem de uma maneira altamente positiva.

As Yoginis raramente alcançam o orgasmo sem a utilização dos ‘olis’;[72] elas são portanto evitadas por todos, mas os mais experientes sacerdotes, aqueles que são capazes de reter sua energia durante o período de intensa provocação sexual, as veneram.

Dentro do Círculo as Arkashanis são colocadas na camada mais externa, as Yoginis a seguir, e as Vasinis mais próximas do pitha, ou acento da Deusa, representada pela Suvasini. Quando os machos iniciados estão presentes no Círculo, ocupam as yonis e dalas remanescentes.




Notas


[1] Cp. a palavra besta.
[2] Vama significa ‘mulher’. Ela era tipificada pela lua, o inferior, o fundo, o infernal, como distinta do topo, o celestial; a esquerda como distinta da direita. Marga significa ‘Caminho’; daí o termo Vama Marga denotar o Caminho que envolve a utilização da mulher, a corrente lunar, os poderes infernais, e etc.
[3] Chandra = Lua; Kala = Raio, Essência, Caminho e etc.
[4] I.e. o Círculo do Supremo Kala (Mahakala): o Chandrakala ou Deusa do Raio-da-Lua.
[5] O corpo astral.
[6] Veja Aleister Crowley & o Deus Oculto, Capítulo. 10.
[7] Os Siddhas são aqueles que adquiriram poderes mágicos ou altos estados de experiência mística, dependendo da natureza da cultura espiritual que eles adotaram.
[8] Cakra = Círculo; pújá = adoração.
[9] Pancha = Cinco; Tattvas = Princípios; às vezes também conhecido como Cinco Makaras, Ma = a letra ‘M’, karas = palavras, assim, ‘as cinco palavras começando com a letra M’. Estas são descritas no devido curso.
[10] A palavra ‘Go’, em Sânscrito, significa ‘vaca’; ela é usada como um eufemismo para mulher.
[11] Veja nota 9 (acima), também observações adiantes.
[12] A Religião e a Filosofia do Tevaram (Madras, 1958), vol. II, cap. 3. Arurar diz que este ‘pó vermelho’ é ‘especialmente preparado pelas mulheres’.
[13] Maya, usualmente traduzido como ‘ilusão’ também denota as emanações ou kalas, os glamoures das Deusas.
[14] Literalmente a ‘iniciação do estrume de vaca’.
[15] Veja Capítulo 3. Khonsu é o equivalente Egípcio de Guéde no Vodu. Khonsu, literalmente, ‘viajante do céu noturno’. Veja glossário de Aleister Crowley & o Deus Oculto, sob o nome ‘Ankh-af-na-Khonsu’.
[16] I.e. a região sacra do sushumnanadi.
[17] O habitat natural da Serpente de Fogo, dependendo do sushumnanadi. Veja próxima nota.
[18] O equivalente sutil do tubo sutil da coluna espinhal; o qabalístico Pilar do Meio da Árvore da Vida.
[19] Controle do esfíncter.
[20] Controle do alento.
[21] Uma frase de um secreto e iniciático Comentário Kaula sobre o Chandrakala do Vama Marga.
[22] A incorporação viva e externamente presente da Serpente de Fogo.
[23] Veja Capítulo 10, infra, para uma fórmula interessante da transformação licantrópica envolvendo a invocação do lado reverso, ou de trás, da Árvore da Vida. Veja também O Lado Sombrio do Éden.
[24] Agama, lit. ‘aquele que desceu’. O equivalente significado da palavra Qabalah, ‘tradição recebida’.
[25] As flores são simbolismos das vibrações vaginais que emanam das zonas de poder da sacerdotisa; elas são enumeradas como lótus, asoka, manga, jasmim e lírio azul.
[26] Veja as observações sobre o simbolismo do ‘olho’, Capítulo 1.
[27] A mulher real usada no rito.
[28] Aquele que é liberado da necessidade de reencarnação.
[29] A cultura espiritual envolvendo, usualmente, procedimentos metódicos ou rituais.
[30] Donzelas celestiais.
[31] Esta doutrina da reversão, com suas implicações sexuais, foi considerada maligna por aqueles que mal interpretavam a mystique do Caminho da Mão Esquerda. Cp. A Doutrina Secreta (vol. II): ‘Satã representa metafisicamente simplesmente o reverso ou o oposto polar de tudo na natureza.’ A retroversão é a fórmula de Set. Isto explica a observação de Crowley em seu Diário Mágico, vol. I, p. 248: ‘Eu reconheço a magick relacionada ao reverso como qualquer ordem existente’. Cp. a concepção de Frater Achad da Reversão Qabalística que produziu a ‘chave’ para O Livro da Lei. Veja capítulo 8, infra.
[32] Veja nota 25.
[33] Comentário Kaula.
[34] I.e. reificado através da mulher.
[35] Veja Aleister Crowley & o Deus Oculto, Capítulo 11.
[36] Cp. a versão de Austin Spare do Sabbath das Bruxas dado em parte no Renascer da Magia, Capítulo 11.
[37] I.e. anatomicamente adaptada ao congresso sexual dorsal.
[38] Este culto é ainda ativo em certas partes da África. Sua mystique é baseada na utilização peculiar da Corrente Ofidiana tal como descrita no Lado Sombrio do Éden por Kenneth Grant.
[39] Veja O Renascer da Magia, Capítulo 11.
[40] Comentário Kaula.
[41] Literalmente ‘permanecendo de cabeça para baixo’.
[42] Veja A Roda da Vida (Blofeld), 1959.
[43] Veja Capítulos 6 e 11 de Aleister Crowley & o Deus Oculto, onde este aspecto do Tantra é tratado em detalhes.
[44] Existe uma outra forma do Dakshina Marga que não o coloca em oposição ao Vama Marga, mas, em um sentido, se parece com ele. Isso é discutido posteriormente.
[45] A Deusa, Nuit, descreve a forma de sua estrela como ‘A Estrela de Cinco Pontas, com um Círculo no Meio, & o círculo é Vermelho.’ (AL I:60). Veja também Magia Transcendental (Lévi).
[46] Aleister Crowley & o Deus Oculto, Figura 6.
[47] Ponto.
[48] Sílaba sagrada ou vibração raiz.
[49] ‘O número é sem som que pode ser alcançado somente através das barreiras infinitas e intricadas do som.’ P.B. Mukharji em sua introdução ao Japasutram de Swami Pratyagatmananda Saraswati (Madras, 1971).
[50] Um significado do termo tantra é ‘atrair’.
[51] Veja Capítulos 1 & 2.
[52] O Comentário Tântrico Kaula do Vama Marga.
[53] Veja Figura 4.
[54] Aqui é necessário chamar a atenção do leitor para um sério erro de impressão em O Renscer da Magia, Pág. 119. O termo marma denota detumescência, não intumescência, conforme lá aparece.
[55] A Sagrada Ciência dos Kalas.
[56] Philip Rawson, A Arte do Tantra, fig. 71, reproduz uma pintura (do século dezessete) mostrando os ‘pontos variados da sensibilidade sobre o corpo da mulher através de todo o mês lunar’.
[57] O Comentário Tântrico Kaula do Vama Marga.
[58] Existem diversas traduções para o Inglês deste importante texto tântrico que foram atribuídas (algum dia erroneamente) ao celebrado Sábio Advaíta do século dezoito, Sri Shankaracharya.
[59] Tântrico Comentário Kaula. Bindu e Nada neste contexto denotam as correntes solar e lunar respectivamente.
[60] A Arte do Tantra.
[61] A maneira mais antiga de se registrar o tempo envolvia a utilização da fêmea do cinocéfalo cujas manifestações lunares eram periodicamente registradas. Estes babuínos eram colocados em todos os principais templos do antigo Egito. Eles precediam a clépsidra como a primeira ampulheta.
[62] O sushumnanadi, o Caminho da Serpente de Fogo. Cp. com o Pilar do Meio da Árvore da Vida.
[63] O sahasraracakra ou Lótus de Mil Pétalas.
[64] A Arte do Tantra.
[65] Conhecida como Kalavidya, a Ciência ou Conhecimento dos Kalas.
[66] Conhecidos como kadomahs nos Tantras Tibetanos.
[67] Cp. as Yoginis do sistema Hindu.
[68] Do ponto de vista do presente estudo.
[69] Do alfabeto Sânscrito.
[70] Veja O Shiva Samhita e O Hathayogapradipika. Traduções disponíveis em português pela Satvrnvs Publishing Ltd.
[71] Comentário Kaula.
[72] O Hathauogapradipika, quando fala dos ‘olis’, diz: ‘A yogini que pratica akunchanam do apana (elemento ar) é capaz de usar a saída genital como o cateter (i.e. passando a urina); antes, ela fora treinada para absorver o sêmen do macho; ainda, ela é capaz de impedir que seu rajas, ou fluidos vermelhos, apareçam, e pode controlar o fluxo menstrual muito bem’. Um Comentador Kaula observa que ‘tais Yoginis são utilizadas no ritual Shakta, mas não são utilizadas para cópula de maneira alguma. Ninguém do círculo é permitido ter intercurso com elas por dias após o pûja’ (i.e. adoração ritual).


Notas do tradutor


[i] O autor desconhece essa peculiaridade em mulheres Brasileiras e Americanas. Entretanto, sabemos que com grande esforço e treinamento adequado, uma mulher pode vir a exercer o ofício de uma sacerdotisa dos Mistérios mais elevados.
[ii] Há controvérsias. O autor possivelmente está enganado. O nome soma provém dos Vedas os quais relatam que esta seria a bebida sagrada mais antiga da humanidade. Soma é uma bebida sagrada preparada com o cogumelo Amanita muscaria que é sacramentado até os dias de hoje na Índia, Sibéria e Austrália por tribos aborígines. A substância ativa do soma é o alcalóide ephedrina, que quando ingerido, remete o iniciado a transes extáticos profundos, conhecidos como samadhi.

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