quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Nuit Além de Yuggoth




Kenneth Grant
Tradução de Fernando Liguori
Hecate’s Foutain, Parte II, Capítulo 1. Skoob Books, 1992


O PRIMEIRO capítulo do AL compreende a ‘Palavra’ de Nuit, a Deusa do céu noturno. Sua forma planetária é a Lua; seu tipo estelar é Tifon (ursa major); seu zootipo – na presente fase de evolução – é a fêmea humana.[1] Na Árvore da Vida, Nuit é a ligação entre Saturno, como Isis (Natureza), e a Zona de Poder de Yuggoth. Ela une ou funde o Ain,[2] o Ain Soph e o Ain Soph Aur, o reinos dos Yith cujo portal de ingresso nos gêneros humanos é via Nuit e a Cidade das Pirâmides, representada pela terceira Zona de Poder Cósmico, Binah, o Grande Mar, e o lar dos Deep Ones presididos por Cthulhu. Nuit une a escuridão de Saturno, como Noite (NOX), com a clareza da Luz Cósmica (LVX), conhecida nos mitos do Necronomicon como a ‘Última Neve de Kadath’, ou Kadath (Hadit) na Montanha Gelada. Nuit e Hadit são unidos em ambos os kalas, e nos caminhos que levam a Yuggoth, pois Hadit une Yuggoth com Chokmah, bem como Nuit o une com Binah (Saturno), a esfera das Sombras Sensientes tipificadas pela coruja.

É necessário que se veja profundamente essas correspondências ‘internas’ pois somente dessa maneira pode a inter-relação dos aeons ser compreendida. Had é a manifestação de Nuit no sentido que Had (i.e. Set) é a criança de Nuit em sua fase Tifoniana. Ele é o desvelar da Companhia do Céu no sentido em que ele ‘abre’ sua mãe pelo seu nascimento, dessa maneira revelando as suas crianças – as Sete Estrelas – das quais ele é o primeiro macho e portanto o mais elevado ou o oitavo. Os mistérios do número 8 aparecem freqüentemente em todo o AL. Desta revelação inicial, ele segue por analogia que “Cada homem e cada mulher é uma estrela”, pois Nuit (a Deusa das Sete Estrelas) atinge sua apoteose ou altura no mais elevado Set. Um significado de Set ou Sept, é 7. Como tal ele aperfeiçoa o 7 ultrapassando-o e se tornando o Mais Elevado em Perfeição, o Pleroma Gnóstico. Existe um mistério profundo nesta Perfeição que é o Perfect-ion ou perfect-aeon. A figura do número 7 se tornou símbolo dos deuses no Egito antigo como o neter-machado, o sinal de ‘abertura’ ou de ‘entrante’. Além do mais, os deuses eram os Neteris ou Neuter Ones, sendo assim nem machos ou fêmeas. Isso ocorre porque a deidade fora tipificada pelo Har, a criança que não possuía sexo masculino ou feminino e portanto possuía o potencial de ambos. O Har representou o Herdeiro ou o Princípio Imortal, o nenhum-nenhum[3] que possuía o potencial infinito. Este era o verdadeiro Heru (Horus) ou Herói, o Imortal. Para Criança, cada número é infinito, não há diferença entre eles, porque sendo neutra, não existe diferença ou diferenciação em sua forma manifesta.

Diagrama 1: As onze zonas de poder da Árvore da Vida em relação aos Mitos do Necronomicon e a Magick da Zona Malva, mostrando as atribuições planetárias e cromáticas associadas a suas funções esotéricas e símbolos totêmicos.

Nuit invoca o senhor guerreiro de Thebas para ajudá-la em seu desvelar ante as crianças dos homens. Ela não teria necessidade de qualificar estas crianças como humanas caso Aiwass não estivesse prestes a comunicar o AL para os seres humanos (i.e. os terrestres). Thebas é a arca ou ventre primordial do qual o Senhor Guerreiro é Hadit, como a semente dentro do ventre; neste caso a semente transmitida por Nuit de Hadit em Yuggoth. Está claro desde o principio do AL que Aiwass está transferindo para as crianças dos homens uma semente não-humana.[4] Nuit, portanto, convoca Hadit como seu “centro secreto”, representado por seu coração e sua língua. O coração aqui tipifica a morada do amor como centro sexual, e a língua é a referência para a fórmula da magick sexual empregada para extrair a semente depois que ela fora depositada no coração e misturada com os kalas gerados pela brincadeira do amor.

A Deusa então declara que este conhecimento secreto, a sabedoria verdadeiramente ‘proibida’, é revelada a humanidade por Aiwass, o “ministro de Hoor-paar-kraat”, que é essencialmente idêntico a Aiwass como o silêncio de Daäth. Esta peculiar forma de silêncio requer uma explanação. Conforme mostrado em volumes anteriores, Hoor-paar-Kraat é o gêmeo ou sombra de seu irmão Ra-Hoor-Khuit. Hoor-paar-Kraat é atribuído a undécima Zona de Poder, Daäth, conhecida sobre terra como Morte (Death). Hoor-paar-Kraat é o silêncio da morte e dos mortos, mas estes últimos são – mais precisamente – os não-mortos, o verdadeiro Nosferatu. A morada de Hoor-paar-Kraat é Daäth. Ele é a lua ou a filha da Zona Malva, como Ra-Hoor-Khuit é o sol (filho) de Tiphereth. O simbolismo aparecerá cada vez mais significativo na medida em que este comentário for sendo desvelado.

O núcleo da doutrina secreta é que a Estrela ou o kala estelar do máximo poder mágico é localizado no Khu. Khu=31=AL, a chave d’O Livro da Lei. 31 é ⅓ de 93, os restantes ⅔ sendo 62, que é o número dos Filhos (BNI) ou gêmeos. Isto mostra todo o simbolismo inerente, pois Ra-Hoor-Khuit e Hoor-paar-Kraat estão contidos na forma-semente no Khu. Também, o Khu é o kala místico da fêmea, pois 31 também enumera as iniciais do título Grego H KOKKINH GUNH, ‘A Mulher Escarlate’.

Algumas escolas arcanas têm mal representado estes Mistérios, localizando o Khu no Khabs, que implica que o poder mágico está na luz da estrela ou em configurações meramente celestiais. Daí surge à abordagem errônea da Astrologia ‘popular’, uma ciência preocupara originalmente com os ritmos dos kalas. Isso realça também a falha de algumas interpretações alquímicas que têm gradualmente ganhado vigência obscurecendo assim a gnosis da genuína Tradição Estelar que é revivida no AL.

A Estrela implicada é Sírius,[5] a Estrela de Prata e seus kalas que são incorporadas nos representantes terrestres de Nuit. Ela portanto recomenda a adoração da Estrela de maneira que sua luz seja vertida sobre a terra. Aqueles que se encontram a serviço de sua Missa, contudo, devem ser “poucos & secretos”. Isto é inevitável pois somente o mais realizado dos Adeptos é capaz de realizar este “caminho funâmbulo”[6] sem perder o equilíbrio e precipita-se para dentro do abismo. Os poucos, sejam extraterrestres ou não, constituirão uma elite, e eles “deverão ordenar os muitos & os conhecidos”. Essa profecia causou muita controvérsia, mas se a frese “os muitos & os conhecidos” é propriamente compreendida a explicação torna-se simples. Os muitos & conhecidos são pessoas mundanas, mortais, em sua maioria, ignorantes dos Mistérios, portanto, profanas. Mas não é somente o profano aquele que ignora os mistérios, mas também aquele que tendo posse das chaves, não as sabe usar. Elas são conhecidas por aqueles que se encontram necessariamente além delas e além da terra, tanto Adeptos humanos que têm transcendido as condições terrestres, ou como membros de uma Fraternidade oculta transmundana que podem ou não ter suas raízes nativas em Sírius, a Estrela de Set.

Nuit considera como tolos aqueles indivíduos, em partes ou em grupos adorados pelos terrestres. Não é difícil compreender ou condoer-se com sua atitude, e nenhum insight interno e oculto é requerido; também não há a necessidade para recorrermos a explicações exóticas. Os tolos são meramente tolos; as referências não se aplicam em tempo algum ao Atu O.[7]

Nuit então exorta as “crianças dos homens” a virem sob as estrelas para que recebam suas farturas de amor. É importante compreender que esta é uma exortação para o amor sob vontade, não uma mera exortação geral, mas a instrução de um procedimento preciso. É como se Ela estivesse dizendo para seus Adeptos: Invoque a Corrente Estelar e beba profundamente dos Kalas manifestados através da sacerdotisa escolhida para o rito. Ela declara que não está somente acima,[8] mas também dentro ou nos limites internos dos celebrantes na terra; nos limites dos veículos terrestres particulares especificamente escolhidos por Ela para transmitir suas mágicas vibrações energéticas.

Segue-se então um círculo de louvor, e o mero apagar de uma vírgula revela o fato que o “esplendor nu de Nuit” está acima da “jóia azul”, os céus conhecidos pela humanidade. O círculo de louvor desta passagem do AL contem a declaração das posições relativas a serem adotadas pelos celebrantes do Supremo Ritual. A declaração resume a fórmula 718 descrita na Estela da Revelação, onde Nuit declara:

Acima, a jóia azul é
O esplendor nu de Nuit;
Ela curva-se em êxtase para beijar
As paixões secretas de Hadit.
O alado globo, o azul estrelado,
São meus, Ó Ankh-af-na-khonsu!

Implícita nestas linhas se encontra a fórmula da Mão Esquerda ou o viparîta maithuna na qual a sacerdotisa ocupa a posição dominante.

O globo alado justaposto com o céu estrelado é não somente o veículo ou a espaçonave[9] de Hadit, mas também uma referência aos kalas ou radiações com quais o espaço está impregnado pelas Forças além de Yuggoth. Nuit reclama ambos o globo e os kalas. Ela se dirige a Ankh-af-na-Khonsu,[10] pois nos encontramos no reino dos mortos, ou mais precisamente, no reino dos Não-Mortos.

Como mostrei previamente, a Estela ou a Pedra Estelar são uma; os kalas e o globo estão portanto implícitos na Estela, a pedra usada na invocação do Sacerdote morto que retornou como Aleister Crowley para comunicar O Livro da Lei.


A Estela de Ankh-af-na-Khonsu ou Estela da Revelação

Nuit declara a identidade do “sacerdote escolhido & apóstolo do infinito espaço” e do “príncipe-sacerdote a Besta” e “para sua mulher chamada a Mulher Escarlate é dado todo o poder”. Quando eles estão em conjunção, como estrelas, ou em congresso sexual como a Besta e a Mulher, eles contribuem para trazer “a glória das estrelas para o interior dos corações dos homens”. Isso implica uma fórmula de impregnação com os kalas estelares e terrestres. A última declaração de identidade é dada no verso 16, onde a Besta é identificada com o Sol e a Mulher Escarlate com a Lua. “Mas para ele é a alada chama secreta”. Esta frase distingue suas específicas funções. A Besta comunica a secreta semente enquanto que a Mulher Escarlate comunica os kalas. É significante que o verso que indica esta identidade é o 16, que é o número total de kalas sagrados da mulher em sua fase lunar. A “mulher coberta-de-azul”[11] é exortada a “curve-se sobre eles”, pois é esta a maneira prática e telúrica na qual ela descarrega seus kalas, ou elixires para dentro da boca da Besta, a besta que mora no sangue, o vampiro que permanece para sempre não-morto. O falcão foi representado miticamente se alimentando somente de sangue e em conseqüência disso ele se tornou o símbolo de Horus – o filho – cujo aeon é proclamado pelo Livro. Mas ele também adumbra o aeon oculto da mulher coberta-de-azul – a filha, que é a “filha coberta-de-azul do Ocaso... o puro esplendor do voluptuoso céu-da-noite”; espaço vibrante com a Corrente Criativa que ela transmite para terra. A passagem é uma alegoria da fecundação da terra por agentes extraterrestres.

A “chave” destes rituais está localizada especificamente na “secreta palavra a qual Eu tenho dado a ele”. A Palavra, Aeon, ou Ion, é o secret-ion que Nuit tem comunicado.[12] De acordo com a interpretação de Frater Achad,[13] a Palavra pode ser “manifestation”, assim como expliquei em Cultos Sombrios (cap. 8), onde é demonstrado que o final ou o aspecto filha[14] do Tetragrammaton está implicado nesta interpretação. O Ma-Ion por sua vez é uma adumbração da manifestação do Aeon de Maät. O propósito do Aeon de Horus é, na verdade, preparar para a permutação do espaço e a transmissão da semente além de Yuggoth, a semente de Yith, Yoth ou Xoth. A Qabalah destes conceitos revela muitas correspondências interessantes: Yith é 420, que é o número de ‘Nada sob suas Três Formas’. Yoth=480, o número de Daäth no plural, demonstrando as multiplicações infinitas da Zona Malva nos corredores dos universos refletidos. 480 também é o número da Rainha Demônio Lilith, cujo totem é a coruja das torres, o emblema da terceira Zona de Poder Cósmico, Binah. É também o número de SKTh, ‘estar em silêncio’. Uma outra correspondência ao 480 é PTh, pudenda muliebria. PTh é a forma anterior (Egípcia) do Hebraico BTh, a ‘casa’ ou ‘morada feminina’. Outro significado é MKRKR, saltans, ‘pulando’ ou ‘saltando’, bem sugestivo as fórmulas dos voltigeurs e, em particular a Hécate como Hekt. A rã (Hekt) é um símbolo anfíbio da reificação[15] e também de uma técnica peculiar de se saltar nos Caminhos atrás da Árvore da Vida.[16] Ainda, um outro significado de 480 é MThM, ‘Perfeição’ (Cp. perfect-ion), para se confirmar a natureza da transmissão extraterrestre que leva a perfeição do homem. 480 é o maior número da Qabalah de Sírius ou transmissão, um outro indicador da influência do além.[17]

A fórmula Xoth é 530 que corresponde a QLTh, ‘vozes’, e com Piliu, ‘vulva’, que é um meio de contatar as ‘vozes’ por meio de procedimentos mágico-sexuais. É também o número de ThQL, letras que formavam partes dos escritos nas paredes das Festas de Belshazzar, e para o qual nenhuma interpretação satisfatória ainda foi concebida. Também é o número de NPTh, ‘respirar’, ‘inspirar’, que é um símbolo do espírito, neste caso, o inspirar da corrente vital do Exterior. Finalmente, 480=ABNI ThVHV, ou Lapides Inaninatis, a Pedra do Espaço; e, como uma profunda reflexão ela é uma numeração do Qliphoth de Malkuth que – no sentido no qual a Terra (Malkuth) é considerada – sugere a Zona Malva ou o aspecto sideral da consciência terrestre.

A situação pode ser clarificada pela visualização destas transições no diagramada da Árvore da Vida (veja Diagrama). Yuggoth jorra as correntes gêmeas, Hadit e Nuit, sobre Chokmah e Binah, as “Torres Massivas” do Dia e Noite equilibrados pela Dupla Luz (i.e. a Luz do Crepúsculo) de Daäth no Deserto Carmesim[18] dos Árabes. Os antigos Egípcios o conheciam como Deserto de Set, e ele é aludido no Necronomicon como o Abominável Platô de Lêng. Esta é a esfera de Shugal-Choronzon; ela existe ‘fora’ da Árvore, fora dos círculos do tempo e além das células do espaço.

O seguinte relato, retirado dos anais da Loja Nova Ísis, pode trazer alguns conceitos que atinjam um alcance mais próximo do leitor ritualisticamente inclinado. É uma pequena descrição de um rito que envolvia a magick da Zona Malva e o despertar de atavismos internos e coletivos por alguns procedimentos mágicos relativos ao Necronomicon.

“O Templo da Loja fora preparado para exibir a vastidão cheia de neve do abominável platô, situado nas regiões astrais que coincidem no globo com certas regiões da Ásia Central não especificadas por Al Hazred.[19] A porta era branca e uma grande lona branca fora colocada em todo assoalho do Templo. Oito caixas brancas foram dispostas ao redor do Círculo Mágico. O Altar fora coberto por uma fina seda branca na qual fora pintada três pirâmides que alocavam sigilos peculiares a natureza do rito. Da precisão glacial e austera destas pirâmides, a Estrela Sírius aparecia atrás das pinturas emanando suas flâmulas sem cor. Acima de cada pirâmide fora colocada uma pirâmide truncada na mesma medida das pirâmides pintadas. A pirâmide do centro era maior e no topo dela uma vela fora colocada para vibrar astralmente o sigilo central do rito que era a união composta pelos três sigilos juntos. O único alívio desta vastidão de branco era a sacerdotisa oficiante vestida inteiramente em robe negro que realçava ao ponto da quase invisibilidade total da palidez de sua pele que fundia-se com o ambiente construído; seu cabelo negro tampava sua ausente face em contraste branco como uma flutuante lua espectral.

Eu utilizava um robe branco especialmente feito para este rito e oficiava do Sul, junto à sacerdotisa oficiante, toda cerimônia. O Templo não era grande, de maneira que todo mobiliário que não fosse utilizado fora tirado para que todos os participantes pudessem trabalhar. O Círculo Mágico era circundado por oito acólitos que encapuzados e vestidos em robes brancos, agachavam-se de maneira a assumirem a forma de oito montanhas gélidas que circundavam o terrível platô. Os acólitos se moviam de maneira cíclica a cada ato mágico da sacerdotisa enquanto o Templo somente era iluminado por uma tênue Lâmpada Mágica ancorada no centro do Círculo que vinha desde o teto. As caixas brancas marcavam os lugares exatos dos acólitos que se encaixavam atrás delas.

No decorrer da cerimônia, um som estranho penetrou no Templo. Ele provinha do arranhar dos roedores e pelo o farfalhar dos insetos que devoravam os defuntos ratos nas caixas. O som fora aumentando de maneira a adquirir uma sonoridade peculiar, uma estrutura definida emergiu. O som sugeria a música de gafanhotos e o cricrilar amplificado de grilos ou uma orquestra infernal de violinos transformando o esqueleto do som em uma única sinfonia omitindo por completo a carne daquela melodia.

O chilrear atingiu intolerável intensidade fazendo com que os acólitos encapuzados se levantassem um a um da neve, cada um emitindo uma estranha e contra-pontual ululação que lembrava o uivar de lobos. A sacerdotisa abaixou-se diante do Altar e uma sombra branca tremulou da escuridão acima dela e se estabeleceu sob a sua forma mas sem movimento. Não era nem a coruja e nem o morcego, mas somava algumas características de ambos. Esta sombra realçava a atmosfera de mistério e anormalidade que já permeava o Templo.

Na medida em que os acólitos se levantavam, os crânios pintados com musgos de cor malva em seus capuzes começara a aparecer. Estranhamente, todos com um sintoma atávico coletivo, começaram a cada vez mais alto emitir o som de lobos raivosos. Neste momento crítico do rito, eles tomavam posturas corporais de lobisomens. A Sacerdotisa já em estado de transe, agachada ante o Altar, tremia freneticamente e a sombra que pairava sobre ela de maneira sinistra aumentava gradativamente na medida em que ela falava uma língua estranha. Os acólitos a fitavam de maneira tão peculiar que pareciam lobos arrepiados frente uma situação de perigo. A sombra que pairava ante a vibração etérica da sacerdotisa começara a bater suas asas de maneira a iluminar o Altar. A Sacerdotisa, segundos depois, seguindo os ritmos vibratórios da sombra, começara a movimentar os braços como uma coruja caindo sobre o Altar onde escarranchou obscenamente ante o ápice da pirâmide do meio que alocava a vela que vibrava o sigilo central do ritual. No clímax do ritual, as caixas brancas que ficavam ante os acólitos, sobre o chão, viraram-se todas de uma vez só abrindo suas tampas. Os corpos dos roedores mortos espalharam-se pelo Círculo Mágico e uma massa fervilhante de lesmas brancas e larvas de insetos se fundiram rapidamente nas cordas de forma serpentina que se espalhavam pela neve e convergiam em direção ao Altar, usando o corpo da Sacerdotisa como escada. Elas deixaram traços brilhantes de sua subida por toda a perna, garganta e face da Sacerdotisa, mas curiosamente, deixaram limpo e imaculado todo o robe negro, pois elas sumiam embaixo dele e reapareciam nos declínios dos seios da Sacerdotisa através do decote da gola do robe. Ao alcançarem o cume do Altar elas formaram uma massa ondulante de tentáculos, uma toalha viva de Altar que lentamente começara a tampar as bases das pirâmides passando sobre elas seu ectoplasma, até atingirem o topo das três pirâmides consumindo todo o condensador fluídico que dava vida aos sigilos e que se encontravam no ápice das pirâmides.

Quando as lesmas e larvas chegaram ao cume das pirâmides consumindo todo o condensador fluídico que ali estava, a sombra do pássaro do inferno se expandiu por todo o Templo e seu corpo etérico neste momento já era completamente visível deixando de ser apenas uma sombra. Com suas garras e bico ele devorava os ectoplasmas etéricos deixadas pelas larvas. O rito continuou até que todo o ectoplasma fosse consumido. A Sacerdotisa, em uma curiosa inversão de papeis, ao invés de estar completamente depauperada pelos necrófilos que a haviam vampirizado, se levantara e adorara o pássaro-besta que se encontrara exatamente acima dela.

Somente o Abominável Platô de Lêng pode ser o Altar de uma Missa que envolve a fusão do elemento humano com o não humano. Austin Osman Spare sugeriu isso macabramente como a “Festa dos Super-sensualistas”, Soror Nema a chamou de “Festa do Demônio”[20], os antigos Egípcios o ocultavam atrás do véu dos hieróglifos que se referiam as refeições do mortuário. Mas o horror total desta pequena descrição pode ser apreciado somente se compreendido que em um estágio particular do rito – no momento em que o pássaro do inferno pairou sobre a pirâmide maior do Altar – o acólito que me substituía como sacerdote guardião, perdera o controle de seu ofício caindo em um transe profundo. Curiosamente, o ofício de Guardião do Templo fora a partir daí manipulado por uma força desconhecida que preencheu o real propósito da performance que era talvez, conhecida somente por Aqueles do Lado de Fora.”



[1] O conceito de Nuit atravessou a fase não-humana como o hipopótamo ou a vaca-d’água (Ta-Urt | Tifon), posteriormente como a vaca terrestre, Hathor, e finalmente como a mulher.
[2] Veja diagrama 1. De acordo como Le Plogeon, Ain é o nome do Egito, representado nos monumentos Maias pelo crocodilo que, no Egito, era um totem de Set, filho de Tifon (Nuit).
[3] Uma expressão cunhada por Spare para denotar energia pré-conceitual de infinidade potencial.
[4] Veja Gênesis, VI: 4.
[5] Argenteum Astrum, ou A\A\, popularmente conhecida como Grande Fraternidade Branca, que necessariamente comporta seu Gêmeo Negro.
[6] Uma expressão de Spare.
[7] A carta atribuída ao Louco no Tarot.
[8] Como Nuit, o céu noturno estrelado arqueado sobre a terra.
[9] Aquela que transporta a semente para terra.
[10] O Sacerdote da XXVIª Dinastia comemorado pela Estela da Revelação.
[11] Observe a introdução de uma cor além, neste caso, o kala do espaço ou do ar. Veja Liber 777 para estudo destas correspondências mágicas.
[12] Veja Cultos das Sombras (Grant), Capítulo 8.
[13] I.e. Ma-Ion.
[14] Veja a peculiar natureza do silêncio de Hoor-paar-Kraat.
[15] I.e. da água para terra, ou, de outra forma, do sonho (astral) para consciência desperta.
[16] Para uma descrição desta fórmula dos voltigeurs veja Cultos das Sombras (Grant), Capítulo 9 e O Lado Noturno do Éden (Grant).
[17] A influência do além (i.e. Mezla), uma outra forma de Aiwass.
[18] Na antiguidade, carmesim, roxo e malva eram intercambiáveis.
[19] O autor do Necronomicon. Algumas autoridades sugerem que a Antártica é o lócus de Lêng.
[20] Reproduzida na Figura 2 de O Lado Noturno do Éden.

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