domingo, 21 de setembro de 2014

Manganeumatas das Sombras




Fernando Liguori


Apresentação

A Goécia é um controvertido sistema mágico cuja origem histórica pode ser rastreada aos feiticeiros gregos da região da Tessália, entretanto, a corrente astral do culto goético remonta aos primordiais cultos estelares, i.e. Tifonianos.

A magia sumeriana era essencialmente demoníaca. Naquela região os demônios regiam todas as atividades humanas: vida, morte, saúde, doença e etc.; o conceito demoníaco como adverso inexistia na religião sumeriana; eles eram tratados como forças naturais, i.e. nem bons e nem maus, cabia ao ser humano utilizá-los da forma que considerasse apropriada. No antigo ocultismo o conceito de forças diametralmente opostas era desconhecido, pois para o mago antigo, era sua obrigação compreender o universo de maneira pragmática. A distinção acadêmica entre magia branca e negra nasceu nos tempos modernos e se baseia principalmente entre os espíritos do bem e os espíritos do mal. No Egito, Grécia e Índia, não há tal distinção entre anjos e demônios a maneira Cristã; Tifon, Juggernaut e Hécate, não eram menos divinos que os deuses que regiam o mundo, e os ritos de Canídia eram tão sagrados como os aprazíveis mistérios de Ceres. A finalidade da magia antiga era dominar a natureza instintiva unificando-a com uma consciência exaltada.

Um exemplo prático da profunda intimidade entre os demônios e a sociedade sumeriana pode ser constatado na conexão que faziam entre os demônios e as doenças e epidemias da época. Quando uma desconhecida epidemia alastrava-se entre a população ela era logo relacionada a um novo demônio. Dessa maneira, quando a epidemia voltava a se manifestar, os sacerdotes sumerianos podiam exorcizá-la no astral, bem como evocá-la a fim de manipular sua estrutura energética para fins pessoais.

O artigo da presente edição busca elucidar aspectos obscuros do culto goético. Aqui, Fernando Liguori explica o antigo sistema evocatório da prática goética e o compara com suas descobertas embasadas na Tradição Tifoniana. Para o autor, o culto goético é essencialmente Tifoniano e ele prova sua teoria traçando um histórico do processo de demonização e deturpação da magia goética.
  
Helio Monteiro


Eu venho demonstrando em meus artigos como a Tradição Tifoniana esteve manifesta nas mais distintas culturas tendo sido à base de inúmeros cultos que eclodiram nas mais remotas regiões do globo. Sua manifestação primêva se deu nos cultos da África primal tendo estendido suas raízes nas civilizações pré-dinasticas do antigo Egito, no Xamanismo organizado pelas tribos Siberianas chegando a manifestar-se nas Tradições Tântricas do extremo Oriente por um breve período de tempo.

Seguindo esta linha de sucessão Tifoniana, a Tradição manteve-se intacta em alguns cultos onde não sofrera deturpações, entretanto, na maioria dos cultos onde esteve presente e foi responsável pelo seu florescer espiritual, a Tradição Tifoniana teve de ser assimilada para que sobrevivesse saindo da linha de frente das batalhas espirituais que formavam o pano de fundo de um mundo em constante guerra santa.

Na Europa, Grécia antiga e Roma, a Tradição Tifoniana foi consideravelmente arrasada por seus inimigos não podendo assim atingir apoteose cultural alguma, sobrevivendo à margem de uma sociedade que gradativamente perdera seus Mistérios. Os Gregos foram os principais agentes da deturpação dos Mistérios. De fato eles foram responsáveis pela inserção na Europa das culturas de um Oriente próximo. Sua cultura era dominante e a língua Grega fora um instrumento comum de comunicação tanto nos centros de atividade comercial como nas universidades acadêmicas de um novo mundo civilizado.

A Tradição Tifoniana, seus conceitos e fórmulas de magia, embora rechaçada da sociedade como um corpo estruturado de seguimento religioso, foi introduzida nos grandes centros espirituais da Grécia antiga, formulando assim a base fundamental de trabalho dos Sacerdotes Theurgos que em combate ao Cristianismo, formavam a elite dos Magi da antiguidade Grega.

O pensamento Grego Sacerdotal foi fortemente influenciado pela cultura Oriental que na época, era essencialmente Tifoniana. Aqui se formou o mago helenizado, um sobrevivente civilizado de antigos cultos esquecidos ou deliberadamente abolidos. Os verdadeiros Mistérios espirituais então foram perdidos, os magoi helenizados tornaram-se profissionais de um sistema organizado de magia, ou mais precisamente, Theurgia, nascida de um neoplatonismo que, finalmente, entrega ao novo mundo o xamã grego de alto nível: o Theurgo. Ele não mais se vestia ritualmente como um Tifoniano, manganeumata noturno, mas com belas túnicas sacerdotais, entretanto, mesmo rechaçando o arcaico ele se maquiava ou se valia de máscaras animais, mantendo assim a base mágica herdada de um povo estigmatizado. De fato, a Theurgia grega praticada pelos neoplatônicos não era uma técnica mágica nova, mas sim, sob o prisma de seus sacerdotes, uma forma superior de práticas muito antigas herdadas dos Tifonianos para contra-atacar a incursão religiosa dos Cristãos.

Para uma compreensão do sistema de magia utilizado pelos Theurgos gregos, há que se fazer uma busca geográfica pelo mundo mediterrâneo de leste a oeste a fim de encontrarmos as raízes Tifonianas utilizadas no sistema. Da Babilônia e Assíria (país dos Caldeus) e Pérsia (país dos magoi) várias técnicas ocultas chegaram à Grécia e a Itália no período pré-histórico via Tessália, uma região tradicionalmente associada à Bruxaria. Métodos de cura foram trazidos à Itália pelos estruscos da Ásia Menor tornando-se parte da religião romana. Durante o período helenístico, novas idéias e práticas chegaram a Magna Graecia pelas Dinastias Tifonianas do antigo Egito. Em todas estas áreas ocidentais, existiam conglomerados nativos que se misturavam ao novo material e algumas áreas chegaram a preservar traços da antiga cultura Tifoniana.

Em meio a uma grande confusão causada por contrastes culturais, as religiões de Mistérios competiam por notoriedade com as escolas de filosofia clássica. Um levantamento apurado nos mostra que a sociedade grega, seja nos seus grandes centros ou subcontinentes, travava um intercâmbio ambíguo de ideias conflitantes.

A magia na Grécia não fora praticada nos seus primórdios pelas figuras sacerdotais, mas pelos primeiros Tifonianos provindos da Ásia e África. Eles eram considerados “adivinhadores itinerantes” e “vagabundos da noite”. Este era o feiticeiro vulgar conhecido como goético, uma figura sombria considerada uma fraude, vivendo a margem da legalidade sempre com uma conotação negativa. Para uma compreensão melhor do assunto é necessário uma análise dos Cultos Tifonianos Orientais, Babilônicos, Assírios e Persas. Mas a ligação que se faz entre a prática da magia negra e a Goécia, em um sentido deturpado e extremamente popular é falsa e superficial, pelo fato de pagãos e cristãos utilizarem os termos acima mencionados para denotar formas inferiores de magia1 com conotações fraudulentas e de engodo, não somente pelo poder exercido pelos feiticeiros da noite, mas também porque era suposto que eles praticavam magia para fins maléficos. É claro que as atitudes de tais feiticeiros também ajudavam em sua própria difamação. Somente pelo fato de margearem a sociedade e trabalharem nas sombras, sua credibilidade deixava de existir. Seu culto era considerado retrógrado e primitivo, seja ele com bases egípcias ou persas, aos olhos de um culto “pseudo-superior” como os cultos oficiais do estado Grego. Foi aqui, neste período, que a Goécia fora considerada uma forma inferior de magia. Goécia vem do Grego Goetia que significa goes, “mago” ou “feiticeiro”. Ainda, Goécia significa uivar, o que denota que os praticantes de Goécia mantinham tráfico com entidades antigas, formas pré-larvais de vida que na atualidade conhecemos sob o nome de atavismos. Neste sentido, Goécia é praticamente um sinônimo de manganeia, o que significa “engendrar”. A palavra, portanto, implica explicações naturais de fenômenos aparentemente sobrenaturais, daí um Tifoniano ser considerado um manganeumata das sombras. Entretanto, sob o prisma de uma visão Tifoniana, neste sentido de união entre a Goécia e a magia negra, pode-se sim, dizer que Goécia é magia negra, mas somente pelo fato de que necessariamente Goécia implica no tráfego com entidades que se encontram atrás da Árvore da Vida, não sendo necessariamente os Qliphoth e os Túneis, mas sim o culto de entidades além dos túneis, Deuses que uma vez eram cultuados na terra em eras primordiais e depois banidos.

Os Tifonianos foram, são, e sempre serão os possuidores das verdadeiras Chaves dos Mistérios que implicam a prática da Goécia. Pelos anos que se seguiram, o medo e aflição causados pelos Tifonianos Itinerantes, vagabundos da noite, comprometeram a verdadeira compreensão da Goécia. Ela fora sistematizada de várias formas e a mais comum, conhecida e praticada na atual fase da humanidade fora “entregue ao mundo por Salomão”. Mas sua prática baseada no misticismo Judaico-Cristão reflete um sistema organizado de magia baseado unicamente em um sistema de crença Judaico-Cristão. Assim, a prática deste sistema pelos magos contemporâneos pode se transformar em uma auto-sabotagem sem limites para a vida do praticante que deveria ao menos, para ter sucesso, ter tido uma educação espiritual Judaico-Cristã.

Um outro grave erro na atual fase da humanidade, concernente exclusivamente à prática contemporânea da Goécia, é a simples assimilação e troca arquetípica realizada por alguns praticantes e seguidores da Lei de Thelema. O que ocorre é um sincretismo ambíguo, uma troca de conceitos. O triângulo da arte deixou de ser protegido por nomes do sistema espiritual Judaico-Cristão e ganhou nomes Thelêmicos. O mesmo corre com o círculo mágico. As evocações goéticas perderam sua prosa e ganharam chamadas enochianas (que sob determinado prisma é realmente uma evolução) para que entidades atávicas ganhassem forma fora do círculo mágico. Entretanto, o mais incoerente não fora à troca de roupagem fluídica da operação, e sim a falta de amadurecimento do universo pessoal do ocultista que, mesmo trocando os nomes, o que fatalmente leva a troca arquetípica e fluidez do rito, continua a observar o universo goético sob o prisma de uma religião cunhada na perda total dos Mistérios espirituais. Ele continua vendo, sentindo e assimilando os demônios goéticos como estruturas malignas e que necessariamente precisam ser evocadas e aprisionadas em um triângulo ou urna hermeticamente protegidos por nomes divinos.

A Goécia como praticada pelos ocultistas da atualidade ainda carece de amadurecimento. Existem colegas ocultistas importantes nestes assuntos nos Estados Unidos e no Reino Unido, mas me parece que infelizmente ainda se perdem no meio ortodoxo de tais rituais cerimoniais. Mas eu ressalto que pouco ou quase nada do aparato mágico necessário para se praticar a Goécia é necessário ao trabalho goético em si. O trabalho goético não deveria parecer tão ritualístico assim como se apresenta nos manuais de magia, mas sim simplificado se ficar claro na mente do magista que este santuário é tão somente evocatório, i.e. as coisas e fatos importantes se dão nos planos sutis e astrais, o que não estabelece necessariamente a obrigatoriedade de todo o aparato descrito.

Crowley inúmeras vezes descreveu a Goécia em concordância com as Evocações Infernais da Magia Sagrada de Abramelin, portanto, muitos de nossos colegas que seguiram a linha de trabalho exposto por Crowley optaram por assimilarem todos os conceitos mentais característicos do sistema proposto por ele. Aqui a típica Goécia “entregue por Salomão” ganhou mais um artifício: a necessidade de se contatar o Sagrado Anjo Guardião antes de se começar as operações. Da forma como é feito, o trabalho não se torna natural, pois existe a necessidade da criação de vínculos mentais artificiais. Em outras palavras, o ocultista quando faz ritualmente o Liber Samekh antes de uma operação goética nada mais está afirmando para seu subconsciente que seu Sol espiritual está no comando de toda operação. De fato isso não é um erro quando é lembrado que a prática de Liber Samekh não está propriamente alinhada a produção da Criança Solar, mas Estelar, a Seth ou Hoor-paar-Kraat, não Ra-Hoor-Khuit; e ainda, que a prática do ritual seja realmente efetivada, pois é o Sol Negro na escuridão de Amenta que ilumina os abismos internos do ocultista para que suas bestas possam estar alinhadas ao influxo estelar produzido pelo complexo Seth-Tifon.

Em O Sistema Mágico de Aleister Crowley eu ofereci uma descrição precisa da prática que envolve os demônios de A Magia Sagrada de Abramelin o Mago. Para cada magista os resultados efetivamente são diferentes. No meu caso, e naquela época, fiz as evocações em conjunto com a prática de Liber Samekh, ritual restaurado por Crowley para suplantar as revogadas Invocações e Evocações de Abramelin. Seguindo esta linha de trabalho, por muito tempo uni o Ritual Samekh a prática com os demônios goéticos e para isso, incuti no processo invocações enochianas para suplantar a falta de uma linguagem que pudesse acessar os extratos profundos de meu inconsciente. Após praticar anos a fio o sistema, hoje a visão Tifoniana sobre a Goécia é completamente diferente. Mas para que esta visão possa ser compreendida em detalhes, primeiro é necessário um esboço da prática usual como compreendida pelos ocultistas modernos.

A Goécia é um sistema de evocações multi-propositais. A primeira coisa a se fazer é escolher com qual espírito (i.e. demônio) irá se trabalhar. Este momento é de suma importância e dele dependerá o sucesso ou não da evocação – uma forte motivação e um grande envolvimento emocional são de grande ajuda neste momento. Para uma escolha sensata, o melhor a se fazer é ler a descrição de cada um dos 72 demônios para encontrar o que melhor se encaixa (em personalidade e poder) com suas necessidades. Aqui o sistema de demônios descritos deixa muito a desejar por vários motivos. A maioria é muito parecida e não existe um acervo conceitual pré-estabelecido para cada entidade, o que fatalmente irá fazer com que cada operação seja distinta para cada ocultista e às vezes parecida para ocultistas que mantêm um forte vínculo mental no que se refere a um sistema comum de magia para ambos.

Neste sistema, a evocação em si não guarda grandes segredos. Seus elementos poderiam ser reduzidos a um mínimo composto por: 1. Baqueta – ferramenta da Vontade manifesta do magista; 2. Circulo – onde ficará o Adepto protegido de qualquer influência externa; 3. Triângulo – é o local destinado a manifestação do demônio evocado, que lá estará contido e sob as ordens do magista; 4. Selo do Espírito – cada um dos 72 espíritos possui seu próprio selo, que será disposto no triângulo para a conjuração; 5. Hexagrama e Pentagrama – usados na proteção do magista. Ainda existem outros aparatos mágicos que podem se fazer necessários como o anel mágico, a urna de aprisionamento, a cadeia e etc., e principalmente o robe.

De posse de todo material necessário, o magista começa a operação montada sobre um fluxograma pré-estabelecido. Como citei acima, por muitos anos pratiquei Liber Samekh e invocações enochianas alinhadas a Goécia, o que relatarei em detalhes a seguir. Para que o ritual possa ser efetivado dentro de um cronograma lógico ele deve praticar cada etapa do rito operativo desde que cada uma esteja alinhada a uma lógica espiritual interna. De que maneira isso é feito? Um exemplo: 1. banimento. Pode ser usado qualquer um, vai depender da necessidade. Entretanto, banimentos formulados pelo próprio magista costumam ter maior aplicabilidade, uma vez que ele necessariamente terá de instaurar guardianias nos quadrantes elementais. Um banimento já formulado como p.e. Rubi Estrela já estabelece guardianias que podem não estar em concordância com o ritual em si; 2. circumbulação mágica. Este procedimento levará o ocultista operante a trazer um influxo energético que estará agregado ao sistema de magia utilizado, criando assim uma parede astral imbuída de criptogramas afins com a egrégora estabelecia; 3. estabelecimento das guardianias. Se o operante preferiu banir a sua maneira, ele deverá agora estabelecer guardianias no Templo que se alinham com o sistema que está sendo trabalhado. Ele pode fazer isso nas quatro ou oitos direções (dimensões) do espaço; 4. o chamado dos elementos. Isso pode ser efetivado através da magia enochiana ou pelos processos ensinados pela Golden Dawn no traçar dos hexagramas elementais. Aqui o sistema enochiano se praticado se limita apenas a utilização das tábuas e torres de vigia; 5. o Ritual Samekh e suas atribuições para este tipo de operação.

Cada etapa listada acima deve estar conectada a um significado profundo na mente do magista. Deve haver uma lógica alinhada no sistema praticado.

Eu poderia descrever aqui o passo-a-passo de toda fórmula de trabalho, mas existem literaturas sobre o assunto. Até aqui o que expus foi apenas uma forma de trabalho que estou traçando a fim de atingir um objetivo que se limita a uma frase apenas.

O Liber Samekh é uma fórmula de trabalho convencional que já não é mais utilizada em minhas operações já há algum tempo. Ela nos remete a um estado de consciência anterior onde o trabalho mágico-espiritual ainda estava envolto em nebulosas brumas carregadas de perguntas sem respostas.

Um ponto a ser tocado já que o assunto aqui é Goécia, o ocultista deveria se lembrar que, ao praticar o sistema acima descrito, i.e. evocando o demônio e o aprisionando em um triângulo ou urna, que tais entidades são bestas dos abismos internos de cada magista. Elas possuem força para ‘fazer’ a tarefa que lhes são ordenadas, mas não possuem uma capacidade mental e cognitiva para raciocinar sobre suas ordens. É por este motivo que magos do passado e ainda hoje explicam a estas entidades os detalhas de suas ordens.

Mas e hoje? Como um Tifoniano se porta ante estes Mistérios? Sob o prisma e peso de nossa Tradição Tifoniana, o círculo mágico não mais se trata de um círculo de proteção, mas sim de um portal. Ele é a exteriorização da intercessão que ocorre no centro da cruz do Templo.

Quando os Tifonianos-Africanos foram retirados da África, alguns cultos como o Vodu não perderam seus Mistérios ante o altar da Cristandade, pelo contrário, como eles eram os únicos a compreender o verdadeiro significado da cruz, não foram domados pela crença Cristã de morte e flagelação incutida no simbolismo da cruz, mas efetivamente estavam conectados a vida e regeneração que se estabelece sobre a viga horizontal e vertical da cruz.

Em nosso Templo a estrutura da força espacial obedece a uma divisão quádrupla representada pelas quatro Cruzes da Qabalah Crioula. I.e. a estrutura mágica que foi projetada em um Templo, é a estrutura das quatro cruzes, nas quais o espaço é dividido em quatro seções: Norte, Oeste, Sul e Leste.

Cada uma destas quatro seções do espaço tem um determinado valor, de tal forma que a cada região, pertence um tipo de operação oculta.

Independente da qualificação destas energias em cada região do esquema do Templo, existe também um movimento de força espacial do inferior até o superior, quer dizer, do Norte até ao Sul, do Leste até o Oeste. Este movimento é por nós chamado de evolução, porque o inferior busca a perfeição no superior. Existe aqui uma transferência de energia do Norte ao Leste. Então se desenvolve um centro de energia oculta, mediante a qual as formas pensamentos são impostas sobre as forças espaciais e o Templo inteiro funciona como uma unidade, como um instrumento mágico perfeito, como uma mandala de energia oculta.

Sendo o círculo mágico um portal de ingresso e egresso para o mundo dos espíritos ele torna-se um glifo da Grande Obra no sentido que representa a cruz no círculo e um portal para eventos astrológicos acessíveis, uma curvatura no tempo-espaço tornando-se assim um buraco negro.

Como a Tradição Tifoniana é imbuída da vibração energética transmitida pela Corrente Ofidiana, estes Mistérios são essencialmente sexuais. A interação do Círculo e a Cruz, ou mais precisamente, a fluída identidade de um com o outro como a cruz que gira e se converte em roda ou disco – um cakra dinâmico – se alternam como a cruz de oito braços ou a ‘cruz refletida’ de 4x4=16 kalas, assim como a Cruz e o Círculo combinados nos Cultos Tântricos com seus 16 kalas e o Círculo Kaula.

A Cruz de quatro braços, que fora atribuída aos elementos formou também o ‘Espelho Mágico’, um dos instrumentos mestres do equipamento do mago em posteriores gerações. O abismo do espaço refletia em suas misteriosas profundidades a altura do céu. Norte e Sul compunham a viga vertical – ou erguida – da cruz; Leste e Oeste, a viga horizontal, representava toda a superfície da terra. A viga horizontal assim compreende a extensão total sobre o plano da superfície: a arena da vida mundana ou consciência desperta. A intercessão desta superfície representava portanto o portal para outra dimensão, para as águas abaixo da terra que refletiam em suas incertas profundidades as alturas do espaço sobre a terra de onde brilham as estrelas, as inascidas ou desencarnadas almas de futuros estados de consciência, ou simplesmente a vida além da terra. O mundo mortal se estende de leste a oeste e o mundo dos imortais ou les invisibles jaz acima e abaixo nas dimensões verticais de altura e profundidade, norte e sul, Horus e Seth. O ponto de cruzamento era o ponto de ingresso e egresso do mundo espiritual.

Este é o Sinal da en-Cruz-ilhada que chega a ser o lócus dos espíritos que partiram ou o portal de egresso para espíritos em trânsito, e o feiticeiro Africano como seu homologo Hindu realiza seus ritos nas encruzilhadas uma vez que o ponto de interseção das Quatro Vias é também o ponto de partida que o conduz ao Amenta, o reino das Sombras. Este reino é negro e está conectado com os mistérios sexuais já que o lugar da escuridão não é somente o lugar da morte senão também da regeneração. Tanto Osíris no Amenta quanto o Falo na Vulva criam a Cruz dentro do mundo espiritual por meio da transformação implicada no simbolismo da Cruz.

De posse de tal conhecimento os Tifonianos não mais utilizam o sistema convencional de Goécia, uma vez que o trabalho com seus demônios ou atavismos internos são trazidos a manifestação consciente e não mais aprisionados em um triângulo ou urna.

Crowley interpreta esta fórmula como uma unificação mágica de consciência larval, característica das fases pré-humanas de vida, como o produto último de uma vontade humana exaltada e iluminada: a exaltação dos atavismos pré-evais para a consciência cósmica através da magia psico-sexual. A Esfinge é a mais celebrada imagem deste conceito. Crowley a descreve como a “deificação do bestial, portanto um hieróglifo apto para Magnum Opus”. Em outras palavras, ela simboliza a fórmula que une e causa pela força cósmica o encontro da besta e deus através do intermédio do homem.


Notas


1. Os Gregos foram dominados culturalmente pela civilização Persa. O caráter Tifoniano da magia Persa fora estigmatizada pelos Gregos pelo fato de ser atribuído a uma cultura invasora, portanto seus deusas e métodos mágicos foram considerados de cunho inferior.

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